FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Guerras 02/03/2026 05:42

Guerra no Oriente Médio vai encarecer diesel, comida e insumos agrícolas no Brasil

Guerra no Oriente Médio vai encarecer diesel, comida e insumos agrícolas no Brasil

Na madrugada deste sábado, EUA e Israel deflagraram ataques aéreos simultâneos contra Teerã, Qom, Isfahan, Tabriz e Kermanshah.

O Irã respondeu com mísseis em bases americanas no Golfo e em Tel Aviv. O conflito não é apenas uma crise diplomática. Para o Brasil, representa uma ameaça concreta à cadeia produtiva do agronegócio, ao preço do combustível e à estabilidade do câmbio.

O canal mais imediato entre a guerra e o bolso do brasileiro passa pelo barril de petróleo.

Com o Estreito de Ormuz, por onde circula entre 20% e 30% de todo o petróleo do mundo, sob ameaça, analistas projetam que o preço pode saltar dos atuais US$ 71 para uma faixa entre US$ 120 e US$ 150.

Cenários extremos, que envolvem o fechamento total do estreito, chegam a projetar valores acima de US$ 300.

O Brasil depende fortemente do transporte rodoviário para escoar a produção do campo. Qualquer alta no diesel chega ao produtor rural antes mesmo de chegar ao consumidor final, e chega rápido. A inflação que começa no frete termina na prateleira do supermercado.

Há um ângulo positivo, mas limitado: a Petrobras e os exportadores brasileiros de petróleo bruto ganham com a alta do barril. O risco, porém, é a pressão política por reajuste nos preços domésticos da gasolina, o que retroalimenta o ciclo inflacionário.

Agronegócio: dois golpes em sequência

O setor que mais sente o choque é o agronegócio, e por dois caminhos distintos. O primeiro é a dependência de fertilizantes importados. O Brasil compra do exterior cerca de 80% dos insumos que usa no campo. E o Irã figura entre os principais fornecedores de ureia, essencial para as safras de soja e milho.

Um bloqueio nas rotas marítimas ou sanções ao comércio iraniano encarece esses insumos, aumenta o custo de produção e, no médio prazo, pressiona os preços dos alimentos.

O segundo golpe vem do lado das exportações. O Irã foi, em 2025, o segundo maior destino do agronegócio brasileiro em volume, com US$ 2,9 bilhões em compras. O milho sozinho respondeu por US$ 1,9 bilhão, quase 68% do total. E a soja contribuiu com outros 19,3%. Um conflito prolongado fecha esse mercado de maneira abrupta, sem substituto imediato no horizonte.

Câmbio e juros: o impacto macroeconômico

Crises geopolíticas globais favorecem o dólar em detrimento de moedas emergentes. O real tende a se desvalorizar, o que encarece as importações, entre elas, os fertilizantes. E obriga o Banco Central a adotar uma postura mais cautelosa na condução da política monetária.

O cenário mais preocupante é aquele em que o conflito se prolong. Nesse caso, o Fed americano deve manter os juros na faixa entre 3,5% e 3,75% por mais tempo, reduzindo o fluxo de capital para países emergentes.

O PIB brasileiro, que já enfrenta projeção de crescimento de apenas 1,8% em 2026, ficaria ainda mais pressionado.

Há algum lado positivo?

Sim, mas circunscrito. Uma mudança de regime no Irã poderia, no médio prazo, ampliar a oferta global de petróleo e derrubar os preços. O que favoreceria a competitividade do agronegócio brasileiro. Por ora, porém, a incerteza domina o cenário e os riscos superam as oportunidades.

O impacto mais imediato e certo já chegou: o preço do petróleo sobe e o diesel encarece. O risco mais grave, ainda incerto, é a combinação entre a perda do mercado iraniano para milho e soja e o encarecimento dos fertilizantes.

Tudo depende de quanto tempo o conflito durar e se o Estreito de Ormuz de fato fechar.

O Brasil torce para que seja uma crise curta. O agronegócio, mais do que qualquer outro setor, sabe o que está em jogo.

Deu em IG

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista