Tarifaço preocupa, mas quem já freia a economia são os juros - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Economia 18/07/2026 15:22

Tarifaço preocupa, mas quem já freia a economia são os juros

Tarifaço preocupa, mas quem já freia a economia são os juros

Enquanto o mercado acompanha diariamente os possíveis impactos do tarifaço dos Estados Unidos sobre a economia brasileira, um outro freio ao crescimento já está em ação — e seus efeitos começam a aparecer nos indicadores. Trata-se dos juros elevados.

O IBC-Br, considerado a principal prévia do PIB (Produto Interno Bruto), avançou apenas 0,07% em maio na comparação com abril, já com ajuste sazonal.

O indicador permaneceu em nível recorde, mas mostrou uma desaceleração importante em relação ao crescimento de 0,5% registrado no mês anterior, reforçando a percepção de que a atividade começa a perder fôlego.

O resultado sugere que a política monetária finalmente começa a produzir o efeito esperado pelo Banco Central. Depois de meses de uma economia surpreendentemente resistente, os juros passam a aparecer com mais clareza na atividade, ainda que de forma gradual.

O dado dos serviços chamou atenção.

O setor, que responde pela maior parte do PIB brasileiro e é o mais sensível ao comportamento do consumo e do crédito, cresceu apenas 0,1% em maio.

Como depende diretamente da demanda das famílias e das empresas, é justamente nos serviços que os efeitos da política monetária costumam aparecer com mais clareza.

O desempenho modesto reforça a percepção de que os juros elevados começam, aos poucos, a reduzir o ritmo da atividade.

A indústria registrou crescimento de 0,4%, enquanto a agropecuária recuou 1%, puxando o resultado geral para baixo. A queda da agro, no entanto, não é interpretada como uma mudança de tendência, mas como uma acomodação após um primeiro trimestre bastante forte, impulsionado pela safra de soja, além da sazonalidade típica do calendário agrícola.

O dado também ajuda a colocar em perspectiva um dos principais debates econômicos do momento.

As tarifas impostas pelos Estados Unidos devem, sim, produzir efeitos sobre a economia brasileira.

Empresas exportadoras podem perder competitividade, absorver parte do aumento dos custos reduzindo margens de lucro, rever investimentos e, em alguns casos, diminuir a produção e o emprego.

Os impactos tendem a ser relevantes para segmentos mais expostos ao mercado americano, como siderurgia, madeira e outros produtos atingidos pelas novas alíquotas.

Mas, ao menos neste primeiro momento, trata-se de um choque mais localizado, concentrado em determinados setores e empresas.

Os juros elevados têm uma abrangência muito maior.

Eles encarecem o crédito para famílias e empresas, reduzem o consumo, desestimulam investimentos, pressionam o mercado imobiliário e elevam o custo de financiamento do próprio governo.

Em outras palavras, enquanto o tarifaço tende a atingir cadeias específicas da economia, os juros acabam atingindo praticamente todos os setores.

O IBC-Br de maio pode ser visto como um dos primeiros sinais de que esse freio já começou a aparecer nos indicadores.

Isso não significa, porém, que os efeitos da política monetária tenham se esgotado. A transmissão dos juros para a economia costuma ocorrer com defasagem de vários meses e, até agora, parte desse impacto vem sendo amortecida pelos estímulos fiscais adotados pelo governo.

A expansão dos gastos públicos, os programas de transferência de renda, o crédito direcionado e outras medidas têm sustentado o consumo e impedido uma desaceleração mais intensa da atividade.

Esse colchão, no entanto, tende a perder força ao longo dos próximos trimestres.

À medida que o efeito completo dos juros elevados se espalhar pela economia, a expectativa de economistas é de que a perda de ritmo fique mais evidente.

O IBC-Br de maio pode representar justamente o início desse processo: uma economia que continua crescendo, mas em velocidade cada vez menor, enquanto os efeitos da política monetária começam, lentamente, a corroer o crescimento.

Deu em CNN

Ricardo Rosado de Holanda
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