Como saber se sou descendente de judeus sefarditas? - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

História 18/07/2026 17:47

Como saber se sou descendente de judeus sefarditas?

Como saber se sou descendente de judeus sefarditas?

O Brasil foi construído por pessoas vindas de diferentes partes do mundo.

Ao longo de séculos, indígenas, europeus, africanos e diversos outros grupos ajudaram a formar a identidade cultural do país.

Nesse mosaico, muitas histórias acabaram sendo diluídas ou até esquecidas com o tempo.

Uma delas é a dos descendentes de judeus sefarditas — um grupo que, em muitos casos, ainda tenta reconstruir suas origens.

Quem são os judeus sefarditas

Os sefarditas são os judeus originários da Península Ibérica, especialmente de Portugal e Espanha. O termo vem de “Sefarad”, palavra hebraica usada para se referir à região. Essa população viveu por séculos nesses territórios, passando por períodos de integração e também de perseguição.

A ruptura definitiva ocorreu no final do século XV. Em 1492, com o Édito de Granada, os judeus foram obrigados a deixar a Espanha ou se converter ao cristianismo.

Muitos migraram para Portugal, mas a permanência foi curta. Em 1496, o rei D. Manuel I decretou a expulsão de judeus e muçulmanos. No ano seguinte, a medida foi convertida em batismos forçados, criando a categoria dos chamados “cristãos-novos”.

Perseguição e diáspora

A situação desses convertidos era extremamente delicada. Mesmo oficialmente cristãos, muitos continuaram sendo vistos com desconfiança. A criação da Inquisição Portuguesa intensificou esse cenário. O tribunal investigava e punia pessoas suspeitas de praticar o judaísmo em segredo — o chamado criptojudaísmo.

As punições iam desde prisão até a perda de bens e exílio. Nesse contexto, o Brasil passou a ser visto como uma alternativa. Embora também estivesse sob influência portuguesa, a distância geográfica oferecia mais margem para escapar da vigilância direta.

Durante os séculos XVI e XVII, muitos cristãos-novos se estabeleceram na colônia. Eles participaram ativamente da economia, atuando no comércio, na produção de açúcar e em outras atividades. Regiões como o Nordeste e, mais tarde, Minas Gerais, concentraram uma presença significativa desse grupo.

O Brasil como refúgio

Um episódio importante dessa história ocorreu durante a Invasão Holandesa no Brasil. Sob domínio holandês, especialmente em Recife, houve liberdade religiosa, permitindo que judeus praticassem sua fé abertamente. Nesse período, foi fundada a primeira comunidade judaica organizada das Américas.

Com a retomada portuguesa, a perseguição voltou, e muitos judeus precisaram fugir novamente ou retornar à prática oculta de sua religião. Ainda assim, costumes e tradições continuaram sendo transmitidos dentro das famílias, muitas vezes sem explicação clara de sua origem.

Como investigar a própria origem

A busca pela ascendência sefardita começa, na maioria dos casos, pela genealogia. Montar a árvore familiar é essencial para identificar possíveis ligações com antepassados classificados como cristãos-novos. Esse processo exige tempo e acesso a documentos históricos.

Os sobrenomes costumam ser o primeiro indício, mas não são prova definitiva. Nomes como Silva, Pereira, Oliveira, Mendes ou Rodrigues aparecem com frequência em registros ligados a cristãos-novos, mas também eram amplamente usados por outros grupos. Por isso, o contexto é fundamental.

Outro elemento importante são os costumes familiares. Há relatos de práticas que atravessaram gerações, como evitar carne de porco, preparar a casa para o início do descanso semanal ou seguir determinados rituais em momentos de luto. Esses hábitos podem ter relação com tradições judaicas mantidas de forma discreta.

Documentos e arquivos históricos

Para uma comprovação mais sólida, a pesquisa documental é indispensável. Registros de batismo, casamento e óbito ajudam a reconstruir a linhagem familiar. Já documentos mais específicos podem trazer evidências diretas da origem sefardita.

Um dos principais acervos nesse sentido está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que reúne documentos da Inquisição. Muitos desses registros incluem informações detalhadas sobre famílias investigadas, como nomes de parentes, locais de origem e até descrições de práticas religiosas.

Além disso, inventários, testamentos e registros civis podem revelar conexões importantes, permitindo montar um quadro mais completo da história familiar.

DNA e identidade

Nos últimos anos, testes de DNA também passaram a ser utilizados como ferramenta complementar. Eles podem indicar origens genéticas ligadas ao Oriente Médio ou ao Mediterrâneo, compatíveis com a diáspora sefardita.

No entanto, especialistas alertam que esses testes não são conclusivos por si só e devem ser analisados junto com a documentação histórica.

Nacionalidade portuguesa e mudanças recentes

O interesse por essa origem cresceu ainda mais após Portugal aprovar, em 2015, uma lei que permite a descendentes de judeus sefarditas solicitar a nacionalidade portuguesa. A medida foi criada como forma de reparação histórica pelas perseguições do passado.

Com o tempo, porém, as regras ficaram mais rígidas. Em 2026, o processo passou a exigir não apenas a comprovação da ascendência, mas também vínculos concretos com Portugal, como período de residência legal no país.

Deu em Revista Fórum

Ricardo Rosado de Holanda
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