A Pioneira Agrícola, de Touros e Pureza (RN), saiu de 20 para quase 80 hectares de açaí desde 2016, beneficia cerca de 350 toneladas de fruto por safra e projeta exportar metade da produção em 2025/2026 com o Kuwait como principal destino, ao lado de Itália e Holanda.
Quando decidiu, em 2016, trocar a agricultura tradicional por uma aposta que quase ninguém levava a sério, o produtor Rodrigo Moura Pires da Cunha e os sócios Daniel França e Carlos Frederico escolheram um caminho improvável: plantar açaí no litoral do Rio Grande do Norte, a milhares de quilômetros da Amazônia.
Quase uma década depois, a Pioneira Agrícola, com terras em Touros e Pureza, saiu de 20 para quase 80 hectares e virou um caso de agronegócio que já cruza fronteiras.
Segundo informações divulgadas pelo portal Tribuna do Norte, a trajetória tem datas claras: a primeira safra veio em 2020, a indústria de beneficiamento abriu em 2021 e, no fim de 2024, a empresa fechou o contrato que mudaria seu horizonte, a exportação de polpa para o Kuwait.
Hoje, a companhia projeta enviar metade da produção da safra 2025/2026 para fora do país e mira alto: chegar a 150 hectares até 2027.
Por que o açaí “pegou” onde quase ninguém esperava

A explicação para o improvável está no encontro entre clima e mercado. Segundo Rodrigo Moura, a região tem muita luz, solos bons e água no subsolo, condições em que a palmeira se desenvolve bem.
A primeira área foi plantada com a variedade BRS Pai d’Égua (Euterpe oleracea), desenvolvida pela Embrapa, e a demanda joga a favor: o Brasil é praticamente o único produtor mundial, com 94% da colheita concentrada no Pará, o que abre espaço para quem produz longe do Norte.
O tamanho do mercado ajuda a entender a ousadia. Estudos da Embrapa apontam que a demanda pelo fruto é hoje de 12% a 15% maior do que a oferta, o que faz o preço disparar na entressafra.
Enquanto a procura pelo superalimento cresce mundo afora, a oferta esbarra no tempo: o açaizeiro leva de cinco a seis anos para dar a primeira colheita, e é justamente essa escassez que torna atraente plantar onde antes ninguém plantava.
Da muda do Pará às 350 toneladas por safra

O salto de escala impressiona para uma cultura tão nova no estado. A cada ano a plantação praticamente dobra, e a indústria de beneficiamento, aberta em 2021, já processa cerca de 350 toneladas de fruto por safra.
A produtividade varia entre 10 e 14 toneladas por hectare, número que, segundo o produtor, tende a se estabilizar por volta do sétimo ou oitavo ano da planta.
O segredo está na velocidade. A empresa colhe e processa o fruto em até 24 horas — prazo que preserva sabor e aroma, porque o açaí é impiedoso com a demora: fora do tempo, ele fica marrom em vez de roxo e ganha gosto ácido, perdendo o que o torna açaí.
Para segurar a qualidade, a colheita usa uma ferramenta que evita o contato do fruto com o chão, e a despolpa acontece em circuito fechado, sem as mãos dos funcionários tocarem o produto.
O Kuwait no prato: como a polpa potiguar chega ao exterior
A vocação exportadora nasceu junto com a indústria.
Ao perceber o potencial da fruta, os sócios passaram a investir na polpa pensando no mercado externo, e a virada veio no fim de 2024, com o primeiro contrato no Kuwaitprevisto para receber 100 toneladas na safra 2025/2026. O primeiro contêiner saiu em julho de 2025 e o segundo, em outubro.
O destino se soma a antigos parceiros europeus. Toda a exportação passa por um parceiro italiano, que também encaminha cargas para a Itália e para a Holanda; a linha de sorvete, por sua vez, já chega a Kuwait, Itália e Amsterdã, além do Sudeste brasileiro, sobretudo São Paulo.
No mercado interno, a polpa é vendida em seis estados — e, para ampliar contatos, a empresa foi à Fruit Attraction, em Madri, um dos maiores eventos de fruticultura do mundo, onde sentou com oito compradores em rodadas de negócios.
Inovação no campo e na fábrica
A tecnologia é o que coloca a Pioneira em um custo diferente dos demais, nas palavras do próprio produtor.
No campo, o manejo aposta em adubação orgânica e controle biológico, no solo e na planta; os defensivos químicos ficaram quase restritos ao combate de ervas daninhas, já que, segundo Rodrigo Moura, a região tem poucas doenças capazes de ameaçar o açaí.
A irrigação é automatizada e calcula a água por touceira, cada uma com três hastes produtivas, como acontece na bananeira.
Na indústria, o congelamento é rápido: assim que vira polpa, o produto é ensacado e vai direto para as câmaras frias, num esforço para não perder cor, sabor nem aroma. É esse conjunto de escolhas, do plantio ao freezer, que sustenta a competitividade de um produto vindo de uma “terra improvável”.
Um efeito que se espalha pelo Mato Grande
O pioneirismo começou a criar cadeia. A ideia de plantar açaí no RN partiu de um consultor do ELI Agro (Ecossistema Local de Inovação do Agronegócio), ligado ao Sebrae/RN, e ganhou corpo quando outros produtores passaram a visitar a fazenda.
Hoje, ao menos dez produtores rurais da região do Mato Grande já cultivam a palmeira, muitos deles mirando vender o fruto para a própria Pioneira.
O modelo é simples: os parceiros plantam, a indústria compra, beneficia e exporta. A aposta é de crescimento sem risco de superoferta nos próximos 15 a 20 anos, justamente porque o fruto demora a produzir. Enquanto isso, a empresa que ainda cultiva coco e macaxeiraconcentra quase todo o investimento na cadeia do açaí e já planeja um novo passo: começar a plantar cacau.
Uma muda trazida do Pará, plantada onde “não daria certo”, virou polpa que hoje viaja para a Europa e o Oriente Médio e ainda arrastou uma dezena de vizinhos para o mesmo caminho. É a prova de que inovação no campo pode nascer no lugar mais improvável.
Você acha que culturas “exóticas” como o açaí são o futuro do agronegócio fora das regiões tradicionais ou é uma aposta arriscada demais para o pequeno produtor? Conta pra gente aqui nos comentários.

