Experimento inspirado na rotina familiar
Para investigar a habilidade de multitarefa em condições mais próximas da vida real, os pesquisadores decidiram abandonar os modelos tradicionais utilizados em estudos anteriores.
Em vez de tarefas realizadas exclusivamente no computador ou de exercícios simples com papel e lápis em uma única mesa, o casal desenvolveu um cenário inspirado na própria experiência dos autores, que são um casal, de criarem seus dois filhos.
O objetivo era reproduzir desafios cotidianos que exigem dividir a atenção entre diferentes atividades.
Nesse contexto, os participantes precisaram alternar entre três mesas enquanto executavam quatro tarefas diferentes.
As atividades incluíam uma simulação de culinária, dois exercícios com papel e lápis realizados sob o ritmo de um cronômetro de cozinha e o monitoramento de uma apresentação de slides com palavras exibidas sobre fundos de cores distintas, que precisavam ser registradas corretamente.
Os pesquisadores observaram que o desempenho dos homens permaneceu equivalente ao das mulheres até o momento em que a comunicação verbal passou a fazer parte da atividade.
Essa menor tendência de manter a conversa sob pressão pode ajudar a explicar a origem do estereótipo de que homens seriam menos habilidosos para realizar várias tarefas simultaneamente.
“Por meio do nosso trabalho, queríamos esclarecer por que um possível estereótipo pode ter se desenvolvido”, explica Andre Szameitat, coautor da produção, em comunicado à imprensa, publicado em junho. “Essa menor tendência à conversa entre os homens pode explicar por que eles tendem a ser considerados piores em realizar várias tarefas ao mesmo tempo do que as mulheres.”
Como o desempenho foi analisado
Além de medir objetivamente o desempenho dos participantes, os pesquisadores também quiseram saber como a multitarefa era percebida por terceiros.
Na segunda etapa do estudo, vídeos curtos dos voluntários executando as atividades foram exibidos a um grupo de 80 observadores neutros, que não sabiam qual era o objetivo da pesquisa. A ideia era verificar se, para quem assistia de fora, homens e mulheres transmitiam a mesma impressão de controle, eficiência e esforço diante de tarefas simultâneas.
Quando a atividade incluía responder às perguntas orais enquanto as demais demandas continuavam em andamento, os avaliadores passaram a enxergar diferenças mais claras entre os sexos.
No caso dos homens, os observadores disseram perceber menos domínio da situação, pior desempenho, menor empenho e até menos prazer na execução da tarefa, em comparação com as mulheres.
À medida que a pressão do tempo aumentava, essas avaliações negativas se intensificavam, sugerindo que a combinação entre urgência e exigência verbal pesa mais na forma como o comportamento masculino é interpretado.
Possíveis impactos no ambiente de trabalho
Na avaliação dos autores, os resultados podem contribuir para compreender situações profissionais em que a comunicação verbal ocorre ao mesmo tempo em que outras atividades exigem atenção.
Em ocupações nas quais responder rapidamente a perguntas ou fornecer informações é parte essencial do trabalho, uma redução na fala durante momentos de maior pressão pode ser interpretada de forma negativa, ainda que a execução das demais tarefas permaneça adequada.
“A redução da fala no ambiente de trabalho pode ser percebida como falta de educação ou até mesmo grosseria”, aponta Szameitat. Segundo ele, pesquisas futuras deverão investigar mais profundamente por que esse fenômeno ocorre e se treinamentos específicos podem ajudar as pessoas a preservarem suas habilidades de comunicação verbal em situações de elevada pressão.

