Nos Estados Unidos, o teste já pode ser solicitado por qualquer médico em laboratórios credenciados. A expectativa é que, no segundo semestre de 2025, ele também esteja disponível no Brasil.
A ciência por trás da detecção no sangue
A história começa em 2013, quando pesquisadores de uma grande empresa americana de testes genéticos analisavam o sangue de gestantes em busca de fragmentos de DNA fetal.
O objetivo era rastrear síndromes raras nos bebês. Em 20 amostras, porém, foram encontrados pedaços de DNA que não correspondiam nem à mãe nem ao feto. Tinham a “cara” de câncer. E de fato eram: tumores tão iniciais que as próprias mulheres não tinham ideia de que estavam doentes.
Dois anos mais tarde, esse grupo fundou a Grail — referência ao Santo Graal — com a missão de criar o almejado teste de rastreio multicâncer. Dezenas de milhares de amostras de sangue de pessoas com e sem a doença foram coletadas e comparadas.
O papel da metilação do DNA
Todas as células do corpo humano carregam o mesmo código genético. O que diferencia, por exemplo, uma célula do olho de outra do pé são os genes que estão “ligados” ou “desligados”. Quem aciona esses interruptores são pequenas moléculas que, ao se agruparem, formam o que os cientistas chamam de metilação.
O oncologista Fernando Moura, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, explica a lógica: “Só que, no DNA de uma célula cancerosa, em vez de a gente ver uma ou outra metilação, como seria o normal, existem várias, porque o tumor é completamente anárquico”.
Quando uma célula maligna morre e se fragmenta, pedaços hipermetilados do seu DNA circulam pela corrente sanguínea. “Neles, os agrupamentos metila parecem um enxame de abelhas em torno da colmeia”, descreve o oncologista.
E há um detalhe decisivo: o padrão dessa confusão molecular varia de acordo com o tipo de tumor. É exatamente por isso que o exame consegue não apenas detectar um fragmento suspeito, mas também apontar a localização do câncer no corpo.
A especificidade do teste ultrapassa 99%. Em termos práticos, de cada cem pessoas sem câncer, apenas uma receberia um resultado falso-positivo.
O estudo NHS-Galleri que agitou o congresso da Asco
No início de junho, durante o encontro anual da Asco (American Society of Clinical Oncology), em Chicago, a apresentação do estudo NHS-Galleri foi o evento mais aguardado. Charles Swanton, um dos pesquisadores mais renomados da University College London, na Inglaterra, e um dos líderes da pesquisa, exibiu os resultados para uma plateia lotada.
O oncologista Mark Robson, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, subiu ao palco logo em seguida e resumiu o impacto: “Não estamos falando de um teste e, sim, de uma mudança profunda de paradigma, dessas que durante muito tempo pareceu coisa de ficção científica”. Robson, contudo, também fez ressalvas agudas sobre o uso do exame para rastrear populações inteiras.
Deu em ContraFatos