Sem categoria 23/06/2013 07:17
A primavera brasileira
Por Ciro Gomes
Acompanho entre maravilhado e preocupado essas expressivas manifestações populares que, cada vez maiores, acontecem por todo o Brasil. Há muitos motivos, muitas razões, muitas interferências, muito oportunismo e muita energia democrática hoje nas ruas do País.
Não importa tanto o nível de pacifismo do movimento, embora o Mahatma Gandhi e Nelson Mandela sejam mais interessantes para mim do que Joseph Stalin. Importa muito mais entendê-lo e não deixar o mundo politiqueiro brasileiro cooptá-lo, manipulá-lo, desqualificá-lo ou, muito menos, reprimi-lo.
Quando o PT se acertou com o PMDB em Brasilia e submeteu praticamente todas as expressões organizadas do pensamento progressista brasileiro a esse banquete cínico e fisiológico, pensava ter praticado o crime perfeito. E isso ou a volta ao passado neoliberal privatista e antinacional elitista e rentista.
Pior, para o povão, a petezada espalhou em todos os lugares que, se perdessem as eleições, o Bolsa Família iria acabar. E a história acabara no Brasil!
Sindicatos, entidades estudantis, partidos de esquerda, o meu inclusive, artistas, intelectuais, movimentos comunitários…
Tudo dominado pelo suborno ou pela chantagem.
Pelo constrangimento ou, principalmente, pela falta de alternativas. Eis a origem dos acontecimentos. Colapsou a política. Ficou claro que o rei da ilegitimidade funcional de nossa representação política está constrangedora.
Uma atenção internacional claramente é pedida pelo povo brasileiro- Veja, humanidade, a m… que acontece aqui! Este poderia ser o slogan unificador dessa Bahel maravilhosa. Não gosto muito dessa parte… Preferia que lavássemos nossa sujíssima roupa por aqui mesmo.
Não creio que a maioria seja propriamente contra a Copa. Lembro da genuína alegria do povo quando recebeu a notícta da nossa vitória na disputa internacional para sediá-la. Flagrante nessa falsa contradição entre Copa e saúde pública, Copa e educação, Copa e segurança ou Copa e transporte ou moradia, ou ainda e especialmente. Copa e corrupção, é a inexplicável contradição entre nossa capacidade de, sob a autoritária e intrusiva supervisão da também vista como corrupta Fifa. cumprirmos exemplar e belamente toda a agenda dos estádios acessos e organização. E não estabelecermos uma agenda planejada para atacar de forma conseqüente os verdadeiros problemas do nosso dia a dia.
É outra manifestação explícita do colapso de nossa política. Cadê o plano, o caderno de encargos, os prazos, as avaliações, os controles, os resultados, para nossas demandas?
Vamos dar a mão à palmatória: o Brasil navegaa esmo. Não tem projeto para nada importa nte. A economiase deteriora a olhos vistos e Brasília só responde
com favores inexplicáveis a grupos de interesse. A política movida a fisiologia, clientelismo e corrupção temos mais incríveis protagonistas que já vi na vida. O ministro da Saúde de Fernando Collor era o grande brasileiro Adib Jatene. Jorge Bom hausenseriíssimo e experiente, coordenava a política. E deu no que deu. E hoje? Quem auxilia a principiante, na arte, Dilma Rousseff.
Crimes perfeitos não existem, E agora? Chama o São Lula? Ridículo. Apostemos num moralismo difuso, regado a reacionarismo religioso e igualmente difusa homenagem à natureza? Chamamos um choque de gestão? Contem-me outra.
A linguagem política precisa ser resgatada. Outras expressões, valores básicos de decência, espírito público, amor verdadeiro ao povo, parcimônia, sinceridade, compromisso, projeto.
Toda impaciência se dilui diante de um plano com começo, meio e fim, com prazo se resultados previstos. Qualquer intolerância some ante a demonstração exemplar de austeridade diante das dificuldades do País.
0 dinheiro dado às montadoras e transformado em criminosa e recorde remessa de lucros ao estrangeiro subsidiaria uma redução generalizada dos custos de transporte popular no Brasil. Só para dar um exemplo prático. Mas isto também não deveria ser proposto fora de unir novo e esperançoso projeto nacional de desenvolvimento.
Se tal não for produzido com urgência, sabemos onde tudo pode acabar. Não raro na história humana movimentos de massa descambaram para o protofaseismo ou para a violência pura, simples e estéril.
Seria uma pena.
Deu na Carta Capital

Descrição Jornalista
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