FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Arqueologia 31/01/2026 09:09

Segredo milenar das pirâmides do Egito vem à tona com papiros inéditos

Segredo milenar das pirâmides do Egito vem à tona com papiros inéditos

Por séculos, a Grande Pirâmide de Gizé, no Egito, foi cercada por teorias e especulações. A pergunta atravessou gerações: de que forma uma civilização antiga conseguiu levantar um monumento dessa escala usando blocos de pedra com várias toneladas, sem dispor de máquinas modernas ou tecnologia avançada?

Segundo informações divulgadas pelo Times of India, parte dessa resposta surgiu graças a documentos esquecidos por mais de quatro milênios.

A chave para esse mistério começou a ser desvendada em 2013, quando arqueólogos identificaram registros administrativos excepcionais em Wadi el-Jarf, um antigo sítio localizado na costa egípcia do Mar Vermelho.

Esses manuscritos, conhecidos como Papiros do Mar Vermelho, trouxeram à luz o cotidiano da construção da pirâmide e ofereceram uma visão detalhada da engrenagem humana e logística que sustentou a obra.

Wadi el-Jarf: de ponto abandonado a peça-chave da história

Atualmente, Wadi el-Jarf é apenas uma faixa árida onde o deserto encontra o mar. No entanto, há cerca de 4.500 anos, o local desempenhava um papel estratégico fundamental. Funcionava como um porto essencial para o transporte de materiais usados nas grandes construções do reino.

O sítio chegou a ser identificado ainda em 1823 pelo explorador britânico John Gardner Wilkinson, que acreditou tratar-se de um cemitério da era greco-romana. Anos depois, arqueólogos franceses levantaram a hipótese de que a área tivesse sido destinada à metalurgia. Somente em 2008, porém, o egiptólogo francês Pierre Tallet reconheceu a verdadeira importância do lugar.

As escavações revelaram que Wadi el-Jarf era um centro logístico ativo durante o reinado do faraó Quéops (Khufu), responsável pela construção da Grande Pirâmide. Situado a aproximadamente 240 quilômetros de Gizé, o porto servia como ponto de escoamento de cobre vindo da Península do Sinai e, principalmente, de calcário extraído das pedreiras de Tura. As pedras viajavam em embarcações pelo Mar Vermelho e seguiam por canais ligados ao rio Nilo até o canteiro de obras.

O diário de Merer expõe a engrenagem da construção

Entre os achados mais relevantes estão os registros pessoais de um inspetor chamado Merer. Ele era responsável por supervisionar o transporte do calcário usado na pirâmide e comandava uma equipe de aproximadamente 200 homens. Seus escritos descrevem, com precisão administrativa, as atividades  do grupo.

Os papiros revelam uma rotina rigorosa, marcada por deslocamentos frequentes entre as pedreiras, os portos e o local da construção. A operação funcionava de forma contínua, com  sucessivas e planejamento detalhado.

Em um dos trechos preservados, Merer relata:

Dia 25: “O inspetor Merer passou o dia com sua equipe transportando pedras para Tura-Sul; passou a noite em Tura-Sul.”

Dia 26: “O inspetor Merer partiu de Tura-Sul com sua equipe em um barco carregado de blocos de calcário rumo a Akhet-Khufu [nome original da Grande Pirâmide], passando a noite em She-Khufu [área administrativa próxima a Gizé].”

As anotações indicam que o transporte de pedras ocorria de forma organizada, com rotas definidas, pontos de parada e controle rigoroso do tempo.

Mão de obra especializada, não trabalho escravizado

Os papiros também ajudam a desconstruir uma das ideias mais difundidas sobre as pirâmides: a de que elas teriam sido erguidas por pessoas escravizadas submetidas a condições extremas. Os registros apontam para um modelo completamente diferente.

Os trabalhadores descritos por Merer eram operários qualificados, organizados em equipes e mantidos pelo Estado. Em vez de salários em dinheiro — inexistente naquele período —, eles recebiam rações regulares de pão, carne, tâmaras, legumes e cerveja.

Os documentos ainda mostram que membros da elite do reino acompanhavam de perto o andamento da obra. Um dos nomes citados é Ânkhkhâf, meio-irmão de Quéops, identificado nos textos como “chefe de todas as obras do rei”. Merer registra que atuava sob a supervisão direta de Ânkhkhâf, o que evidencia a importância política e administrativa do projeto.

Gestão avançada para padrões da Antiguidade

Mais do que relatar deslocamentos, o diário de Merer revela um sistema de organização surpreendentemente sofisticado. Cada etapa do processo era registrada: cargas, viagens de barco, paradas, pernoites e entregas de material.

Especialistas interpretam esses dados como prova de que a construção da Grande Pirâmide envolveu planejamento estratégico, controle de recursos, definição clara de responsabilidades e acompanhamento de cronogramas. Funcionários do Estado monitoravam suprimentos e equipes com precisão notável para a época, demonstrando que o Egito Antigo dominava métodos administrativos complexos.

Um mistério que se torna cada vez mais humano

Embora ainda existam lacunas sobre aspectos técnicos da construção, os Papiros do Mar Vermelho ajudam a afastar teorias fantasiosas e reforçam a ideia de que a Grande Pirâmide foi fruto de engenharia, logística e trabalho humano altamente organizado.

O diário de Merer transforma um enigma milenar em uma narrativa concreta: barcos cruzando canais, equipes coordenadas, registros detalhados e uma administração eficiente movimentando pedra por pedra até erguer um dos maiores monumentos da história da humanidade.

Deu em ContraFatos
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista