O que é mais doloroso: levar um chute nos testículos ou dar à luz? A ciência finalmente tem a resposta - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Ciência 27/05/2026 09:39

O que é mais doloroso: levar um chute nos testículos ou dar à luz? A ciência finalmente tem a resposta

O que é mais doloroso: levar um chute nos testículos ou dar à luz? A ciência finalmente tem a resposta

Poucos debates resistem tanto ao tempo quanto este: o que dói mais, um chute nos testículos ou dar à luz?

A ciência finalmente entrou na conversa, e a resposta vai decepcionar quem esperava um vencedor claro.

Por que um impacto nos testículos dói de um jeito tão particular

A explicação começa pela anatomia.

Os testículos não contam com proteção de músculos, gordura ou ossos. Sua única cobertura é uma camada de tecido fibroso chamada túnica albugínea, que suporta pressão moderada, mas tem limites bem definidos. Segundo o site Healthline, os genitais são densamente povoados por terminações nervosas em concentração muito maior do que na maioria das outras regiões do corpo.

Dr. Nathan Starke, urologista do Houston Methodist Hospital, explica a lógica evolutiva por trás disso: “Do ponto de vista evolutivo, a razão pela qual dói tanto levar uma pancada nos testículos é que eles são essenciais para a produção de espermatozoides.”

Terminações nervosas amplificam dores intensas após impactos diretos nos testículos

O que torna o parto humano tão mais doloroso do que em outros primatas

O parto humano é significativamente mais difícil do que em outros primatas, e os cientistas debatem o motivo há quase um século.

A explicação mais conhecida é o chamado dilema obstétrico: a pélvis humana enfrenta duas pressões opostas ao mesmo tempo, precisa ser estreita o suficiente para suportar a marcha bípede eficiente, mas larga o suficiente para permitir a passagem de um bebê com cérebro grande. Nicole Webb, paleoantropóloga da Universidade de Tübingen e da Universidade de Zurique, resume o impasse:

“Essa compensação explica por que temos bebês tão indefesos, mas também partos muito dolorosos e demorados.”

Nem todos os cientistas aceitam essa teoria. Holly Dunsworth, bioantropóloga da Universidade de Rhode Island, argumenta que o dilema obstétrico carece de evidências suficientes.

Pesquisas não encontraram indicações de que quadris largos prejudiquem a marcha em humanos modernos, e algumas análises sugerem que uma pélvis mais larga pode ser mecanicamente mais eficiente.

Dunsworth propôs uma alternativa chamada hipótese EGG, sigla para Energética, Gestação e Crescimento: o argumento é que o momento do parto é determinado não pela geometria esquelética, mas pelos limites metabólicos da mãe, que consegue sustentar aproximadamente de 2 a 2,5 vezes sua taxa metabólica basal antes de atingir o limite fisiológico.

O que um estudo de engenharia estrutural revelou sobre o assoalho pélvico

Uma pesquisa publicada nos Anais da Academia Nacional de Ciências por engenheiros da Universidade do Texas em Austin e da Universidade de Viena utilizou a análise de elementos finitos, técnica de modelagem estrutural emprestada da engenharia civil, para examinar como o assoalho pélvico responde às demandas conflitantes do parto e do suporte dos órgãos internos. Os principais achados do estudo revelam um sistema em equilíbrio instável:

  • Um canal pélvico maior facilitaria o parto, mas tornaria o assoalho pélvico frouxo demais para manter os órgãos no lugar
  • Um assoalho pélvico mais espesso cria o problema oposto, dificultando a passagem do bebê mesmo com espaço disponível no canal vaginal
  • A espessura atual representa um compromisso evolutivo sem solução definitiva, otimizado para o equilíbrio entre as duas funções

Krishna Kumar, professor assistente que liderou a pesquisa, sintetiza a conclusão:

“Evoluímos a um ponto em que o assoalho pélvico e o canal conseguem equilibrar o suporte dos órgãos internos com a facilitação do parto, tornando-o o mais fácil possível.”

Nicole Grunstra, pesquisadora afiliada à Universidade de Viena, reforça: a espessura do assoalho pélvico é mais um compromisso sem resposta definitiva.

Assoalho pélvico humano funciona em equilíbrio estrutural extremamente delicado

A ciência tem uma resposta e ela vai decepcionar os dois lados

A alegação viral de que uma lesão testicular registra “9.000 unidades de dor na escala del” não tem sustentação científica.

A escala del não existe em uso clínico, e não há uma escala universal de dor que abranja ambas as experiências de forma comparável. A dor é subjetiva, contextual e influenciada por muito mais do que sinais nervosos isolados.

A resposta que a ciência oferece é um empate. Um impacto nos testículos é um choque breve e agudo que o sistema nervoso está programado para tornar memorável.

O parto é um evento fisiológico prolongado, moldado por milhões de anos de restrições biológicas conflitantes. Nenhuma das duas experiências vence porque nenhuma das duas pode ser medida na mesma escala.

O que a biologia deixa claro é que ambas existem por razões evolutivas precisas, e que o corpo humano, em ambos os casos, foi construído para suportar exatamente o que não consegue evitar. Há, porém, um consenso unânime entre especialistas: agradeça por não ser uma pedra nos rins.

Deu em O Antagonista

Ricardo Rosado de Holanda
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