Por isso, os ministros têm sido cautelosos nas avaliações e aguardam o desfecho da eleição presidencial. “Já há um grupo dentro do Supremo Tribunal Federal que defende buscar um diálogo com uma ala dentro do bolsonarismo”, afirmou Jussara.
A linha de corte: Alexandre de Moraes
De acordo com a análise, há um limite nesse eventual diálogo. A permanência de Alexandre de Moraes seria um ponto que o novo Congresso e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), caso eleito, não estariam dispostos a negociar.
Flávio Dino também passou a integrar, mais recentemente, a lista de alvos do bolsonarismo. Interlocutores de Flávio Bolsonaro teriam sinalizado que ele não deseja conduzir um governo de enfrentamento como o de seu pai.
Jussara Soares relatou ainda que o coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho (PL), procurou o decano da Corte, Gilmar Mendes, e o ministro Cristiano Zanin. Ele enviou recados sobre a disposição ao diálogo.
Movimentações e acenos políticos
O analista de Política Caio Junqueira apurou que parte da Corte busca um entendimento político diante da ameaça de impeachment de seus ministros. O PL, no entanto, rejeitou os sinais de um eventual “acordão” e mantém como objetivo a saída de Alexandre de Moraes e Flávio Dino.
Segundo Junqueira, ao longo da segunda-feira o entorno de Flávio Bolsonaro identificou acenos de um grupo do STF sobre a possibilidade de um acordo. O entendimento envolveria poupar ministros da Corte em troca, por exemplo, da revisão da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e da aprovação, por unanimidade, da anistia aos condenados pelo 8 de janeiro.
Outro gesto considerado relevante foi a mensagem do ex-presidente Michel Temer, que manifestou apoio a Flávio Bolsonaro antes de outros partidos e candidatos derrotados. Conforme Junqueira, Temer é visto como o elo entre Alexandre de Moraes e a família Bolsonaro, por ter indicado Moraes ao STF em 2017.
A defesa de Jair Bolsonaro também protocolou, há cerca de dez dias, um novo pedido de revisão criminal. O relator, Kássio Nunes Marques, sinalizou que pretende pautar o processo após o segundo turno.
PL rejeita acordo e planeja impeachment para 2027
Apesar dos acenos, o PL rejeitou qualquer forma de “acordão” com a ala considerada governista do STF. Segundo Caio Junqueira, o partido deve levar adiante, em 2027, um processo de impeachment de Alexandre de Moraes.
Nas contas da legenda, já há pelo menos 49 votos garantidos no Senado para o impeachment de Moraes. Faltam apenas mais 5 para atingir o mínimo de 54 votos necessários.
A preferência do PL seria que o próprio STF resolvesse a questão de Moraes. Isso ocorreria por meio da abertura de uma investigação relacionada à sua ligação com Daniel Vorcaro, o que resultaria em seu afastamento enquanto durassem as apurações.
Flávio Dino também está no radar do partido. O PL avalia que ele entrará no foco da superbancada do PL no Senado se avançar em investigações com base em alegações de interferência estrangeira nas eleições ou se mantiver sigilosas as investigações sobre irregularidades no uso de emendas parlamentares.
Caio Junqueira alertou que um eventual processo de impeachment de ministros durante um possível governo Flávio Bolsonaro criaria “um ambiente institucional político muito ruim”. Segundo ele, isso dificultaria avanços em reformas econômicas e no corte de gastos.