Exclusivo: delegado da PF que tentou desinflar Pixuleco em Natal integrou comitiva de Janja em Paris - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Uncategorized 25/08/2026 08:48

Exclusivo: delegado da PF que tentou desinflar Pixuleco em Natal integrou comitiva de Janja em Paris

Exclusivo: delegado da PF que tentou desinflar Pixuleco em Natal integrou comitiva de Janja em Paris

Duas viaturas da Polícia Federal pararam no acostamento da avenida Roberto Freire, em Natal, na tarde de 20 de agosto de 2026. Faltavam poucas horas para o comboio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passar pelo local, a caminho de um ato na capital potiguar. Um pequeno grupo de manifestantes já estava ali, com faixas e um boneco inflável de 15 metros: o Pixuleco, réplica de Lula vestido de presidiário e símbolo de protesto que circula pelo Brasil desde 2015.

Um agente desceu primeiro e perguntou quem era “o responsável pela manifestação”. Um dos presentes respondeu que não havia responsável, mas “um movimento de rua solto”. Uma agente filmava a cena com o celular. Então outro homem assumiu a conversa, quis saber quem era o dono do boneco e, depois de insistir três vezes sem obter resposta, apresentou-se: “Deixa eu me apresentar. Sou delegado de Polícia Federal. Meu nome é Rolff.”

A Investigação identificou o delegado. Trata-se de Rolff Keven Santos Ferreira, nomeado para a PF em janeiro de 2023 e, desde abril de 2026, coordenador de Doutrina e Capacitação da Diretoria de Proteção à Pessoa (DPP), unidade que participa da segurança presidencial. Antes de pressionar os manifestantes a desinflar o Pixuleco em Natal, Rolff integrou a comitiva oficial na qual viajou a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, para as Olimpíadas de Paris, em julho de 2024.

A presença do delegado na viagem consta de documento da Casa Civil. Sua função atual está registrada em portaria do Ministério da Justiça. Os dois documentos ligam o homem filmado em Natal ao núcleo federal de proteção de autoridades — e mostram que a abordagem não partiu de um policial sem posição na estrutura, mas de um coordenador da diretoria responsável por formular doutrina e capacitar equipes.

O crime tratado no condicional

O trecho central da abordagem, registrado em vídeo, mostra Rolff explicando o motivo da diligência: “Esse boneco pode configurar um crime contra a honra. E vai ser bem na hora que o presidente vai passar. […] Eu estou pedindo, na gentileza, que vocês desinflem esse boneco […] para a gente evitar qualquer tipo de problema.” O delegado afirmou que as faixas e as palavras de ordem poderiam continuar — “desde que não fiquem xingando” — e disse que o boneco “poderia configurar” o crime.

O condicional aparece repetidamente. Rolff não afirmou que havia um crime consumado nem apontou qual elemento concreto do boneco ultrapassaria os limites da manifestação política. Apresentou uma possibilidade e, com base nela, pediu que o principal símbolo do protesto fosse retirado antes da passagem do presidente.

A gravação integral, revisada por A Investigação, contém o seguinte diálogo:

— Crime contra a honra de quem? — pergunta um manifestante.

— Contra a honra do presidente da República — responde o delegado.

— O que que ele é?

— Ele é o presidente da República.

— Ele é um ladrão.

— Não, ele é o presidente da República.

— Mas ele é um ladrão.

Rolff não explicou por que a condição de presidente transformaria o boneco em material de crime. A resposta deslocou a discussão do conteúdo do protesto para o cargo de Lula. É a mesma tensão já registrada por A Investigação em episódios envolvendo a faixa com a palavra “ladrão”, em Presidente Prudente, e abordagens contra críticos do presidente em outras cidades.

Delegado diz que ordem partiu “dele mesmo”

O momento mais revelador da gravação começou com a entrada do deputado federal General Girão (PL-RN), que estava no local e passou a questionar a legalidade da ação. Girão exibiu sua identificação parlamentar e perguntou: “Qual o problema do senhor?” Rolff respondeu que explicava a um manifestante, identificado apenas como César, que o boneco “pode configurar crime contra a honra”. O deputado rebateu: “Então que entre com processo. Esse boneco existe desde 2014.”

Diante da afirmação de Rolff de que o boneco poderia ser apreendido como “materialidade” de um crime, Girão perguntou: “Quem deu a ordem para o senhor?” A resposta do delegado foi direta: “Eu mesmo.”

Para os crimes contra a honra do presidente da República, o artigo 145, parágrafo único, do Código Penal condiciona a persecução a uma requisição do ministro da Justiça. A declaração de Rolff não prova, isoladamente, que inexistisse algum procedimento anterior, mas indica que a decisão de intervir no protesto partiu dele. Nenhuma requisição, mandado ou ordem superior foi mencionada ou apresentada no local.

Quando um manifestante perguntou “mas cadê o mandado?”, Rolff respondeu: “Eu não preciso de mandado porque o crime está acontecendo na rua […] ele vai acontecer na hora que o comboio passar.” A justificativa reuniu dois tempos incompatíveis: primeiro, o delegado afirmou que o crime já estava ocorrendo; depois, que ocorreria quando Lula passasse. Pela própria descrição feita em campo, a conduta que ele pretendia evitar ainda não havia se consumado.

O episódio terminou sem apreensão. Girão argumentou que as duas viaturas paradas na via representavam risco de acidente, e a equipe da PF deixou o local. Os manifestantes passaram então a cantar “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”. Três dias depois, o deputado protocolou no Ministério Público Federal uma representação por abuso de autoridade. Até a publicação desta reportagem, não havia notícia de procedimento disciplinar aberto contra Rolff por causa da abordagem.

De Bagé ao núcleo da proteção presidencial

Rolff Keven Santos Ferreira é bacharel em Direito pela Universidade de Brasília e participou do concurso da Polícia Federal aberto em 2021. Após concluir o curso de formação, foi nomeado delegado de terceira classe em janeiro de 2023. Fontes internas situam sua primeira passagem funcional no Rio Grande do Sul, na região de Bagé, antes da transferência para Brasília.

Delegado da PF Rolff Keve. Foto: divulgação redes sociais.

Em 7 de abril de 2026, o Ministério da Justiça designou Rolff para a função de coordenador de Doutrina e Capacitação da DPP, código FCE 1.10. Portanto, no momento da abordagem em Natal, ele não era apenas um delegado destacado para acompanhar a agenda presidencial: ocupava uma função de comando na área encarregada de estabelecer métodos e treinar integrantes da diretoria.

A DPP foi incorporada à estrutura da PF pelo Decreto nº 11.759, de 30 de outubro de 2023, e começou a funcionar no mês seguinte. Entre suas atribuições estão a proteção de dignitários, de familiares do presidente e do vice-presidente e de autoridades federais em situações excepcionais, além do apoio à segurança de Lula e Geraldo Alckmin em articulação com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

A passagem de Rolff pelo núcleo presidencial, porém, é anterior. Em julho de 2024, ele integrou a comitiva oficial enviada a Paris para a abertura dos Jogos Olímpicos, da qual também fazia parte a primeira-dama Rosângela da Silva (Janja). O grupo contou com 13 pessoas além dela, e Rolff era um dos integrantes. A informação consta da resposta da Casa Civil ao Requerimento de Informação nº 2.942/2024, apresentado pelo deputado Capitão Alberto Neto (PL-AM).

O documento relaciona 14 integrantes, entre eles Rolff e a primeira-dama, e informa gasto de quase R$ 350 mil com diárias, passagens e seguro-viagem internacional no âmbito da Secretaria de Administração. A resposta não individualiza no próprio ofício a função desempenhada por cada viajante nem o custo de cada um; remete esses dados ao Painel de Viagens do governo federal. O registro permite afirmar que Rolff estava na comitiva, mas não, por si só, quanto de seu deslocamento custou ou qual atividade específica exerceu em Paris.

A viagem ajuda a reconstruir sua ascensão dentro da proteção presidencial: pouco mais de um ano depois de ingressar na PF, Rolff já acompanhava uma missão oficial da primeira-dama no exterior; em abril de 2026, passou a comandar a área de doutrina e capacitação da DPP; quatro meses depois, apareceu em vídeo tentando retirar um símbolo de protesto do trajeto do presidente.

O Pixuleco entrou no radar da PF

O caso de Natal não foi a única vez, em 2026, em que o Pixuleco provocou uma reação da Polícia Federal. Na mesma semana da abordagem, a corporação convocou o policial federal aposentado Danilo Campetti, atualmente candidato a deputado estadual, para prestar esclarecimentos sobre imagens do boneco ao lado dele em um ato realizado em 1º de março, na Avenida Paulista. Campetti participou da equipe que prendeu Lula em 2018 e negou ter organizado a exibição.

Depois da repercussão, a PF fez uma distinção formal. Em nota enviada à CNN Brasil, a corporação afirmou que não havia instaurado investigação criminal nem Processo Administrativo Disciplinar para apurar suposto crime contra a honra do presidente. Segundo a PF, havia apenas um expediente administrativo destinado ao esclarecimento dos fatos.

O Pixuleco nasceu em 2015, no auge das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Criado por movimentos de rua de Alagoas, o boneco tinha cerca de 15 metros de altura e representava Lula vestido de presidiário, numa referência às investigações da Operação Lava Jato. Sua primeira aparição ocorreu em Brasília, em 16 de agosto daquele ano. Depois, iniciou uma turnê por atos políticos em diferentes capitais.

O nome quase foi outro. “Pensei em chamá-lo de Luleco, mas aí apareceu o ‘Pixuleco’, associado a propina, e tomou uma força gigantesca”, contou o criador Paulo Gusmão à revista Veja. O termo havia ganhado projeção durante a Lava Jato como referência ao dinheiro de propina. A palavra e a imagem se fundiram: Lula, o uniforme de presidiário, a bola de ferro presa ao pé e o apelido saído do vocabulário do escândalo político.

O Pixuleco é, essencialmente, uma charge inflável. Retira a caricatura do papel, dá a ela quinze metros de altura e a coloca no meio da rua. Encarna um ethos brasileiro carnavalesco que reduz autoridades à condição de personagens grotescos, expostos ao deboche público. A fórmula nunca ficou restrita a Lula. Dilma ganhou a “Pixuleca”, com nariz de Pinóquio, faixa presidencial caída e uma estrela do PT quebrada. Durante o governo Bolsonaro, surgiu um boneco do presidente com camisa de força e os filhos no colo; mais tarde, ele também seria representado como presidiário no “Bolsoleco”. Mudaram os governantes, os grupos políticos e os adereços; permaneceu a velha linguagem brasileira da caricatura, da charge e do carnaval político.

O Pixuleco original continuou reaparecendo. Foi levado a Curitiba durante a Lava Jato, acompanhou atos depois da prisão de Lula, voltou às ruas durante o governo Bolsonaro e foi novamente inflado na Avenida Paulista em setembro de 2024, já no terceiro mandato do petista. Antes de 2026, atravessara os governos Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula como uma alegoria política incômoda, mas reconhecível dentro da paisagem dos protestos brasileiros.

A reação de irritação dos governantes do momento é normal. Isso nunca muda. O que mudou não foi o Pixuleco. Foi a reação do Estado diante de uma forma de caricatura política que circulava havia mais de uma década.

O que a PF ainda precisa explicar

A Investigação enviou à Polícia Federal perguntas sobre a identificação de Rolff, sua função na DPP, a existência de ordem superior ou requisição formal para a abordagem em Natal e a eventual abertura de apuração interna. A corporação não respondeu até a publicação desta reportagem.

Também permanece sem resposta qual protocolo permite a integrantes da segurança presidencial avaliar, no local e antes da passagem do presidente, se faixas, palavras de ordem ou bonecos usados em manifestações podem configurar crime contra a honra. A pergunta é especialmente relevante porque o próprio delegado atribuiu a decisão a si mesmo.

Esta reportagem identifica o homem filmado em Natal e documenta sua posição na DPP e sua passagem pela comitiva oficial de Janja em Paris. Uma próxima apuração de A Investigação mostrará, em detalhes, como funciona a estrutura mobilizada pela PF em agendas presidenciais e reunirá outros casos de abordagens contra críticos de Lula em diferentes cidades do país.

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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