Vaza Toga 5: CNJ fez devassa nacional para ampliar cerco de Moraes contra Tagliaferro - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Ditadura 25/08/2026 05:09

Vaza Toga 5: CNJ fez devassa nacional para ampliar cerco de Moraes contra Tagliaferro

Vaza Toga 5: CNJ fez devassa nacional para ampliar cerco de Moraes contra Tagliaferro

Novos documentos obtidos por A Investigação mostram que a Corregedoria Nacional de Justiça transformou a nomeação de Eduardo Tagliaferro como perito judicial em uma ordem para que tribunais de diferentes ramos do Judiciário revisassem seus cadastros e reavaliassem a permanência de profissionais sujeitos a ordens judiciais restritivas de liberdade ainda pendentes de cumprimento.

A determinação foi assinada pelo então corregedor nacional, Mauro Campbell Marques, em 14 de julho de 2026, menos de nove horas depois de o Metrópoles noticiar o caso.

Nossa reportagem obteve três cópias do mesmo Ofício Circular nº 7/2026/COGI, endereçadas a tribunais de três ramos distintos do Judiciário. Uma foi dirigida ao corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Paraná, desembargador Fernando Wolff Bodziak. Outra, ao presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal, desembargador Angelo Canducci Passarelli.

A terceira foi tornada pública pela própria Corregedoria Regional da Justiça Federal da 2ª Região, que reproduziu o texto de Campbell quase literalmente e o repassou aos juízes federais do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.

A determinação não ficou restrita à Justiça estadual: alcançou também a Justiça eleitoral e a Justiça federal, numa varredura nacional expedida em tempo recorde.

Eduardo Tagliaferro é especialista em perícia digital e ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do Tribunal Superior Eleitoral. Trabalhou no órgão durante a presidência de Alexandre de Moraes e teve acesso ao funcionamento interno da estrutura criada para enfrentar a chamada desinformação. Hoje vive na Itália.

Nunca assumiu publicamente a autoria de qualquer vazamento, mas confirmou a autenticidade de mensagens e documentos que circularam sobre o funcionamento interno da assessoria e apresentou denúncias formais sobre pedidos informais, relatórios produzidos retroativamente e uso da estrutura do TSE para abastecer decisões do próprio Moraes no Supremo. Para o ministro, não há dúvida de que o material teve origem no aparelho de Tagliaferro.

Luis Felipe Salomão, Alexandre de Moraes e Mauro Campbell Marques | Foto: Luiz Silveira/STF

As denúncias deram origem a reclamações disciplinares movidas pelos partidos Novo e PL contra dois desembargadores que atuavam como auxiliares de Moraes e trocavam mensagens informais com seu gabinete.

O então corregedor nacional Luís Felipe Salomão, antecessor de Campbell, arquivou sumariamente os procedimentos e descreveu as comunicações como uma “relação natural” entre um ministro e seus auxiliares diretos. Tagliaferro, que confirmou as mensagens e denunciou as práticas, acabou investigado, denunciado e transformado em réu.

A ação tramita originariamente no STF, embora ele não tenha prerrogativa de foro, e é relatada por Moraes — a autoridade diretamente atingida pelas acusações.

Parte decisiva desse cerco — a prisão, o pedido de extradição, o bloqueio de bens e, agora, a circular contra os peritos — está apoiada na alegada existência de um mandado de prisão preventiva decretado por Moraes em 31 de julho de 2025.

A Corregedoria Nacional invocou esse mandado para justificar a revisão nacional dos cadastros, mas informou apenas que tomara conhecimento da situação “por meio de veiculações na mídia”.

Três consultas feitas por esta reportagem ao Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões, por nome completo, nome parcial e CPF, não retornaram mandado pendente em nome de Tagliaferro.

Os dois códigos de autenticação impressos nos documentos — um na ordem de prisão, outro na decisão que a fundamenta — também não foram validados no sistema oficial do STF. A documentação que sustenta medidas com efeitos sobre a liberdade, o patrimônio e o trabalho de Tagliaferro não pôde, portanto, ser confirmada nos sistemas públicos consultados.

Uma certidão do STF, obtida pelos advogados de Tagliaferro depois que esta reportagem levantou a questão, aprofunda essa lacuna: o documento não registra, na data em que a prisão teria sido decretada, nem o pedido da PGR, nem a decisão, nem o mandado.

O episódio que levou a Corregedoria a mobilizar os tribunais no caso dos peritos tampouco nasceu de uma escolha pessoal de um juiz. Tagliaferro foi nomeado por sorteio automático do Sistema Auxiliares da Justiça pelo juiz José Hélio da Silva, da 1ª Vara Cível de Pouso Alegre (MG).

A designação ocorreu em 24 de junho, mas só veio a público três semanas depois, quando o Metrópoles noticiou o caso. Naquela mesma tarde, o magistrado revogou a nomeação, e a Corregedoria Nacional abriu contra ele um pedido formal de providências.

Os ministros Luis Felipe Salomão e Mauro Campbell na posse de Salomão na Presidência do STJ / Foto: Lucas Pricken/STJ

O procedimento foi posteriormente arquivado por Campbell, que reconheceu a “inexistência de qualquer conduta dolosa ou culposa” do juiz, já que Tagliaferro “constava regularmente com cadastro ativo no sistema do Tribunal local”.

Mesmo assim, a Corregedoria do TJMG abriu apuração própria e suspendeu o cadastro de Tagliaferro, impedindo novas nomeações no tribunal mineiro — o mesmo padrão que já aparecera no Paraná.

A circular nacional de 14 de julho identifica nominalmente Tagliaferro e dá prazo improrrogável de quinze dias para que os tribunais revisem seus cadastros, comuniquem a orientação a todos os magistrados e informem as providências adotadas. Campbell não agiu quando Moraes supostamente decretou a prisão; agiu quando o nome de Tagliaferro apareceu na imprensa.

A ordem acrescentou uma frente administrativa a um cerco que já vinha de antes. Desde agosto de 2025, Tagliaferro tem contas bancárias, cartões de crédito e chaves Pix bloqueados por ordem sigilosa de Moraes.

Depois, teve a defesa escolhida afastada da ação penal e passou a ser excluído dos cadastros em que ainda poderia trabalhar como perito.

O cerco atingiu, em sequência, seu dinheiro, sua defesa e sua profissão.

Deu em A Investigação,

Ricardo Rosado de Holanda
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Descrição Jornalista