EUA descartam ação militar após classificarem PCC e CV como terroristas: ‘Nossa lei é clara’ - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Crime organizado 05/06/2026 08:05

EUA descartam ação militar após classificarem PCC e CV como terroristas: ‘Nossa lei é clara’

EUA descartam ação militar após classificarem PCC e CV como terroristas: ‘Nossa lei é clara’

A classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pelos Estados Unidos, que passa a valer oficialmente nesta sexta-feira (5), não contempla operações militares no Brasil, segundo a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Amanda Roberson, em entrevista exclusiva ao R7.

Um dos principais questionamentos levantados após o anúncio da medida, a possibilidade de os EUA utilizarem a classificação para justificar ações contra as facções em território brasileiro foi descartada pela representante do governo de Donald Trump.

Roberson disse que a legislação utilizada para o enquadramento não trata de operações militares.

“A nossa lei é muito clara. Essa lei das designações não contempla nenhum tipo de ação militar. É o Departamento de Guerra dos Estados Unidos que tem responsabilidade pelas ações militares”, afirmou.

A porta-voz também disse que a medida dificilmente será revertida no futuro. Segundo ela, a legislação dos Estados Unidos prevê mecanismos de revisão das designações após alguns anos, mas a reversão desse tipo de enquadramento não costuma acontecer.

“A lei contempla uma revisão depois de um período de alguns anos, mas não é muito comum que a decisão seja revertida”, afirmou.

Roberson disse que, neste momento, o governo americano está concentrado na implementação da medida e no uso das novas ferramentas que passam a estar disponíveis para atingir as estruturas financeiras e operacionais das duas maiores facções criminosas brasileiras.

Entre as consequências estão o bloqueio de bens eventualmente localizados nos Estados Unidos, restrições e cancelamentos de vistosdeportações de integrantes identificados em território americano e a criminalização de qualquer tipo de apoio material ou financeiro às organizações.

“Agora, com essas ferramentas, vamos tentar estrangular suas fontes de recursos, de apoio, para já acabar com as terríveis ações que eles estão tomando, não só no Brasil, mas em outros países e nos Estados Unidos”, declarou.

A porta-voz afirmou que a atuação do PCC e do CV dentro dos Estados Unidos foi um dos principais fatores que levaram o governo Trump a adotar a classificação. Segundo ela, as autoridades americanas identificaram atividades das facções em um a cada quatro estados do país. Como exemplos, citou Nova York, Nova Jersey, Flórida e Massachusetts.

Outro ponto que vem gerando dúvidas é o possível impacto da medida sobre o sistema de pagamentos instantâneos Pix. Questionada sobre o tema, Roberson evitou dar uma resposta definitiva.

Segundo ela, ainda é cedo para avaliar casos específicos porque a fase de implementação está apenas começando. “É impossível, neste momento, falar sobre casos individuais”, disse.

O anúncio oficial da medida ocorreu dias depois de uma reunião na Casa Branca de Trump com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República. O parlamentar disse que pediu ao presidente americano para enquadrar PCC e CV como terroristas.

Questionada sobre eventual influência de lideranças políticas brasileiras na decisão, Roberson respondeu que a classificação foi resultado de uma avaliação interna do governo americano voltada exclusivamente para questões de segurança nacional.

“A prioridade para o presidente Trump é a segurança dos Estados Unidos e também a nossa economia. Então, ele toma suas decisões de maneira independente”, afirmou.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

R7 — O que de fato vai mudar com a classificação das facções e quais novas ferramentas o governo dos Estados Unidos passa a ter à disposição que não tinha antes?

Amanda Roberson — Desde o início de seu mandato, o presidente Donald Trump está utilizando todas as ferramentas à sua disposição para proteger a segurança nacional dos Estados Unidos, e essas últimas designações contra o PCC e o CV são parte dessa estratégia. Já sabemos que, além de atuar no Brasil, esses grupos também estão conduzindo suas atividades aqui dentro dos Estados Unidos. Nós temos evidências de suas atividades em um a cada quatro estados. Então, realmente foi necessário tomar essa medida para proteger as comunidades americanas.

R7 — Como esses grupos estão atuando dentro dos Estados Unidos e quais ações já foram identificadas pelo governo americano?

Amanda Roberson — Sabemos que eles estão atuando em estados como Nova York, Nova Jersey, Flórida e também em Massachusetts, para dar um exemplo. No ano passado, as autoridades policiais dos Estados Unidos prenderam 18 brasileiros imigrantes em situação irregular, também membros do PCC, que estavam traficando fentanil e armas. É só um exemplo. Sabemos que, como estes grupos são grandes e sofisticados, [eles] mantêm redes de financiamento ilícito que podem se estender até os Estados Unidos.

R7 — É possível comparar a atuação do PCC e do CV com grupos terroristas mais conhecidos ao redor do mundo?

Amanda Roberson — Claro, sabemos que aqui na nossa região, o hemisfério ocidental, há cartéis, organizações terroristas que estão traficando não só drogas, mas também pessoas, armas, mantendo redes financeiras ilícitas. Quero destacar que esses dois grupos brasileiros, o PCC e o CV, fazem parte de um grupo de 17 organizações que foram designadas [como terroristas] aqui, só no hemisfério ocidental, desde o início do mandato do presidente Trump.

R7 — Existe temor por parte dos EUA de que haja dificuldade no compartilhamento de informações por causa da resistência do governo brasileiro ao anúncio?

Amanda Roberson — Os Estados Unidos e o Brasil estão coordenando há muito tempo na área de segurança. Nós temos mais de nove agências governamentais funcionando, trabalhando lá no Brasil junto com autoridades brasileiras. E essa coordenação vai continuar. Agora, incentivamos o governo brasileiro também a tomar medidas mais rigorosas contra esses grupos que há muito tempo estão causando violência não só dentro do Brasil, mas em outros países e, inclusive, nos Estados Unidos.

Nós temos muitas, várias linhas de cooperação. Por exemplo, as nossas agências, os nossos funcionários do Departamento do Tesouro estão em comunicação constante com as autoridades brasileiras para examinar informações financeiras e identificar possíveis violações das designações. Essa cooperação vai continuar. Também estamos coordenando muito no controle do tráfico de drogas. Só no ano passado, por exemplo, em 2025, confiscamos mais de 70 toneladas de cocaína em ações conjuntas entre oficiais brasileiros e americanos. Sabemos que essa coordenação vai continuar, porque é vital para a segurança da nossa região.

R7 — A classificação poderia permitir alguma operação militar dos Estados Unidos no Brasil sem aviso prévio ou sem anuência do país?

Amanda Roberson — A nossa lei é muito clara. Essa lei das designações não contempla nenhum tipo de ação militar. É o Departamento de Guerra dos Estados Unidos que tem responsabilidade pelas ações militares. No momento, as consequências dessas designações focam em restrições de vistos para membros desses grupos e no bloqueio de todos os seus bens aqui nos Estados Unidos. Também proíbe pessoas aqui nos Estados Unidos de realizar qualquer tipo de transação com esses grupos e classifica como crime fornecer qualquer tipo de apoio ou recurso a esses grupos.

R7 — Como o governo americano vai proteger e diferenciar empresas legítimas e bancos que não têm ligação com o crime, mas que podem ser usados pelas facções para movimentar recursos?

Amanda Roberson — Agora que entramos na parte da implementação dessas designações, há diferentes entidades do governo dos Estados Unidos — o Departamento do Tesouro, por exemplo — que trabalham com autoridades brasileiras para investigar possíveis violações dessas designações. É importante lembrar que as designações se enfocam em atividades, pessoas ou entidades que atuavam intencionalmente, conscientemente, prestando apoio aos grupos. Então, essa é uma consideração que os oficiais levam em conta quando investigam casos individuais.

R7 — Qual é a expectativa de efetividade da decisão, comparando-a com outras organizações que já foram classificadas da mesma forma no passado?

Amanda Roberson — Já estamos tomando medidas para desmantelar cartéis que operam em todo o hemisfério, nos diferentes países: Colômbia, Equador, México, Paraguai. Também estamos vendo os resultados das nossas ações. Então, vamos continuar. O presidente Trump deixou claro desde o primeiro dia de seu mandato que sua prioridade é defender a segurança dos Estados Unidos, não permitir que esses grupos expandam sua rede de influência aqui.

R7 — Como será feito o filtro nos processos de vistos na prática, especialmente para diferenciar os membros das facções de pessoas comuns que apenas vivem em áreas dominadas por eles?

Amanda Roberson — É importante lembrar como funcionam os nossos processos de solicitações de vistos. Quando uma pessoa solicita um visto americano, o funcionário, a equipe lá na embaixada ou no consulado no exterior, faz uma revisão, uma checagem nos nossos sistemas, para verificar se essa pessoa não apresenta nenhum tipo de ameaça à segurança dos Estados Unidos. Então, o processo continua sendo igual. Agora, é importante também destacar que a lei das designações também permite deportações de pessoas que podem já estar dentro dos Estados Unidos, caso elas sejam identificadas como membros desses dois grupos.

R7 — Como funcionará o processo judicial quando membros das facções forem presos? Eles serão processados e julgados pelos tribunais americanos?

Amanda Roberson — Depende de cada caso. Como funciona o nosso sistema aqui nos Estados Unidos? Igual ao Brasil, nós temos leis que operam em diferentes situações. Agora, em alguns casos, pode haver extradições. Em outros casos, a pessoa poderia enfrentar a Justiça aqui nos Estados Unidos. Realmente depende do caso. Cada caso é individual, mas sabemos que essas novas designações vão ser implementadas aqui nos Estados Unidos, conforme o nosso sistema judiciário.

R7 — A decisão americana teve algum tipo de influência política de grupos do Brasil, considerando a divisão eleitoral no país entre a oposição e o atual governo?

Amanda Roberson — A prioridade para o presidente Trump é a segurança dos Estados Unidos e também a nossa economia. Então, ele faz suas decisões, com respeito, de maneira independente. Claro que ele fala com líderes, com políticos de todos os países do mundo, mas as decisões sobre nossa segurança nacional são feitas somente pelo presidente Trump e por sua equipe.

R7 — Existe a possibilidade de que a medida seja revertida ou revisada no futuro, ou é uma classificação definitiva?

Amanda Roberson — A lei contempla uma revisão depois de um período de alguns anos, mas não é muito comum que a decisão seja revertida. No momento, nós estamos focando na implementação. Sabemos que estes grupos têm laços enormes, profundos na região. Então, agora, com essas ferramentas, vamos tentar estrangular suas fontes de recursos, de apoio, para acabar com suas terríveis ações não só no Brasil, mas em outros países e nos Estados Unidos.

R7 — A decisão pode afetar ou trazer consequências para o Pix?

Amanda Roberson — É impossível, neste momento, falar sobre casos individuais. Agora que estamos entrando na fase da implementação, o Departamento do Tesouro e as autoridades irão examinar possíveis violações. Mas o que sabemos é que o setor financeiro brasileiro é bastante sofisticado. Compreende suas responsabilidades de conformidade com as leis americanas. Então, vamos continuar trabalhando, coordenando com as autoridades brasileiras para compartilhar essas informações.

R7 — Há uma previsão ou estimativa de tempo para conseguir eliminar a presença do PCC e do Comando Vermelho em todo o território dos Estados Unidos?

Amanda Roberson — Esperamos eliminar esses grupos dos Estados Unidos o mais rápido possível. Vamos dedicar os recursos necessários. O presidente Trump já deixou muito claro que ele vai utilizar todas as ferramentas, os recursos, para garantir a segurança dos Estados Unidos. Então, realmente vamos continuar trabalhando dessa maneira até eliminar esses grupos do nosso país.

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista