Economia 08/07/2026 05:35
Empresas pedem aos EUA retirada de tarifas enquanto governo Lula insiste em negociação política com Trump

O primeiro dia da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) foi marcado por pedidos de empresas para que seus negócios sejam classificados como exceção ao tarifaço de 25% ameaçado pelo governo Donald Trump e argumentos do setor produtivo de que a sobretaxa recairia sobre o consumidor americano, além de elevar custos a empresas e reduzir investimentos no país.
A sessão é considerada a última etapa pública da investigação comercial aberta pelos EUA antes da decisão final, prevista para o dia 15.
O governo enviou uma observadora da embaixada do Brasil em Washington para acompanhar a sessão, mas o Itamaraty não trata a audiência como canal de negociação, e sim um espaço para ouvir sociedade civil e empresariado.
O governo Lula aposta na negociação para resolver o impasse, por meio de nova reunião com o representante comercial, Jamieson Greer, além da oferta de redução de alíquotas para setores cujos mercados são dominados pelos americanos.
Mesmo assim, setores do governo mostram pessimismo. A avaliação é que, de olho nas eleições de outubro, o governo Trump não teria interesse em dar vitória política a Lula.
Em viagem aos EUA, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participa hoje do segundo dia de audiência, após apresentar documento de 86 páginas ao USTR pedindo a suspensão das tarifas, a exclusão do Pix da disputa comercial e a abertura de negociação bilateral entre Brasil e EUA.
No texto, sustenta que a sobretaxa fortaleceria politicamente o presidente Lula e que sanções individuais contra autoridades brasileiras seriam mais eficazes.
Já o Planalto avalia que, se as tarifas não forem impostas, o pré-candidato do PL tentará capitalizar o mérito, dizendo que atuou junto à gestão Trump. Se isso ocorrer, auxiliares de Lula afirmam que farão a disputa da narrativa.
Para tentar driblar a influência de fatores políticos, o governo apresentou um pacote de medidas que pretende adotar para contemplar os seis temas citados na conclusão da investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana.
As iniciativas são chamadas de “mapa do caminho” e contemplam comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
A ideia é reduzir tarifas para importação de produtos de setores dominados pelos EUA, como máquinas, equipamentos de saúde e tecnologia da informação. O texto contém propostas, mas não trata do Pix, um dos pontos citados.
Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta que se as novas tarifas ameaçadas por Trump entrarem em vigor — a de 25%, e a de 12,5% referente a uma investigação sobre trabalho forçado à qual o Brasil respondeu ontem — cerca de 4.187 produtos exportados pelo país serão afetados, o equivalente a US$ 14,9 bilhões em exportações.
O diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, defendeu a manutenção da isenção tarifária para o café verde e o café torrado e moído, além da inclusão do café solúvel na lista de exceções. O argumento é que o café solúvel é usado na fabricação de bebidas prontas para consumo e ajuda a manter a estabilidade de preços ao consumidor.
Para Matos, os integrantes do USTR indicaram maior abertura para compreender os impactos das medidas sobre a cadeia produtiva americana:
— Há uma janela de oportunidade. É otimismo com moderação, mas há um contexto que não existia ano passado.
Andressa Silva, diretora executiva da Associação Brasileira da Indústria de Arroz (Abiarroz), avaliou o ambiente como receptivo e defendeu que o produto fique de fora:
— A pergunta foi por que o arroz produzido nos EUA não substitui o brasileiro. Explicamos que isso ocorre por preferência e perfil dos consumidores atendidos. Falamos sobre potenciais impactos sobre pequenas e médias empresas americanas que atendem a comunidade latina e do potencial aumento de custo ao consumidor americano.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) disse que a política brasileira para o etanol está em linha com regras internacionais, com a tarifa de importação de 18% compatível com regra da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A Amcham Brasil, Câmara de Comércio Americana no Brasil, centrou sua argumentação na perspectiva dos EUA, mostrando que a sobretaxa teria efeitos negativos para a economia americana, com aumento de custos e perda de competitividade do setor produtivo, relatou Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
O professor de Economia e Finanças da FGV Gustavo Pessoa participou como representante da sociedade civil. Ele avalia que boa parte das manifestações foi favorável ao Brasil, mas citou o discurso de Jenna Stanton, diretora de Política e Assuntos Públicos da Associação de Pecuaristas dos EUA como um dos mais contundentes.
Ela associou produtos brasileiros ao desmatamento, à corrupção e ao trabalho ilegal e defendeu que a carne passasse a ser tarifada.
Já Rodrigo Ouro Preto Santos, vice-presidente da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI) reforçou que o país tem legislação atualizada e cumpre as regras da OMC. Ele citou o plano de combate ao estoque de pedidos de patentes INPI. A fila, diz ele, encolheu de mais de 147 mil pedidos, em 2019, para 527 no início do ano.
Até gigantes americanas como Coca-Cola, Tesla e eBay recomendaram a não adoção de tarifas sobre produtos brasileiros, em comentários enviados no dia 1º ao USTR.
O argumento central é que as tarifas poderiam prejudicar o fornecimento, a produção e o comércio de seus itens nos EUA.
Deu em O Globo

Descrição Jornalista
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