Alimentos 03/03/2022 09:15
Guerra na Ucrânia: por que o Brasil depende tanto dos fertilizantes da Rússia?
Em linhas gerais, o Brasil importa 85% dos fertilizantes que utiliza, e a Rússia responde por 23% dessas importações. A eventual falta de potássio é a que mais preocupa o setor e "certamente vai haver desabastecimento mundial" desse nutriente, dizem analistas.

“Para nós, a questão do fertilizante é sagrada.” Assim o presidente Jair Bolsonaro (PL) justificou no domingo (27/2) a opção do Brasil por uma posição “de equilíbrio” na guerra entre Rússia e Ucrânia.
Enquanto isso, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem repetido que ainda não há motivo para pânico com relação à oferta de fertilizantes e que o país tem alternativas no mercado para recorrer e estoques para chegar à próxima safra — que começa a ser plantada em outubro.
Mas qual é de fato o grau de dependência do Brasil dos fertilizantes russos? E isso foi sempre assim ou é um fenômeno recente?
Existem mesmo outras fontes de importação, caso o comércio com a Rússia venha a ser interrompido devido às sanções impostas ao país euroasiático? E a produção nacional, pode ser ampliada para suprir as necessidades do setor rural?
Em linhas gerais, o Brasil importa 85% dos fertilizantes que utiliza, e a Rússia responde por 23% dessas importações. A eventual falta de potássio é a que mais preocupa o setor e “certamente vai haver desabastecimento mundial” desse nutriente, dizem analistas.
Entenda em detalhes abaixo como a invasão da Ucrânia pela Rússia pode afetar o agronegócio brasileiro, num momento em que a população já sofre com o alto preço dos alimentos.
O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo (atrás de China, Índia e Estados Unidos) e o maior importador mundial desses insumos.
Em 2021, dos mais de 40 milhões de toneladas de fertilizantes consumidos no país, 85% foram importados. A parcela das importações na demanda interna de adubos e fertilizantes tem crescido ano a ano: em 2017, os importados representavam 76% do total, segundo dados da Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos).

“O solo brasileiro precisa muito de fertilizantes porque ele é naturalmente pobre em nutrientes”, explica José Carlos Polidoro, pesquisador da Embrapa Solos.
“É diferente do hemisfério Norte — dos EUA, da Europa — que são regiões de solos férteis. Nossos solos são de baixa fertilidade, principalmente no Cerrado, onde estão nossos melhores solos para agricultura — têm muita água, são solos profundos, planos, mas têm essa limitação natural de nutrientes, que é algo próprio da natureza tropical”, diz Polidoro.
A soja é a principal cultura consumidora de fertilizantes no país. Somada com o milho, a cana-de-açúcar e o algodão, essas quatro culturas absorvem mais de 90% do fertilizante produzido ou importado pelo Brasil, destaca o pesquisador da Embrapa.
Somente em 2020, a demanda brasileira por fertilizantes cresceu 12% em relação ao ano anterior e, em 2021, aumentou novamente em 14%, acompanhando uma tendência mundial de avanço do consumo de fertilizantes, além de sucessivas safras recordes de grãos no país.
Esse aumento de demanda se refletiu nas importações de fertilizantes vindos da Rússia, que praticamente dobraram no último ano, passando de US$ 1,8 bilhão em 2020, para US$ 3,5 bilhões (R$ 18 bilhões) em 2021.

A Rússia responde sozinha por 23% das importações brasileiras de fertilizantes, que somaram US$ 15,2 bilhões (R$ 78,4 bilhões) no ano passado.
Para se ter uma ideia, o valor importado em fertilizantes da Rússia é quase 70% maior do que o segundo colocado nas importações, a China, de onde importamos US$ 2,1 bilhões em fertilizantes em 2021.

Assim, os dois países aliados respondem juntos por 26% da importação brasileira de fertilizantes, um grau de dependência relevante e que explica o olhar atento do país ao conflito no Leste Europeu.
“A Rússia atualmente é o maior exportador de NPK mundial”, observa Marcelo Mello, diretor de fertilizantes da consultoria StoneX.
NPK é a sigla para nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K), os três macronutrientes mais importantes para a nutrição das plantas.
O nitrogênio é obtido a partir do gás natural, combustível do qual a Rússia é o segundo maior produtor do mundo e o maior exportador. O fósforo e o potássio, por outro lado, são produtos minerais, dos quais o país de Vladimir Putin tem minas abundantes.
“A Rússia sempre foi um importante fornecedor de fertilizantes para o Brasil e o volume importado cresceu nos últimos anos porque estávamos com uma demanda imensa e eles tinham a capacidade de nos vender”, explica Mello.
Deu em BBC

Descrição Jornalista
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