Meio Ambiente 23/07/2021 07:30
Impune, tragédia do óleo nas praias completa 2 anos ainda afetando vida marinha
Toneladas de petróleo sujaram praias de 11 estados brasileiros a partir de agosto de 2019. Até agora, ninguém foi responsabilizado

Um dos maiores crimes ambientais da história no Brasil, o derramamento de óleo que sujou praias em 11 estados vai completar três anos sem que ninguém tenha sido responsabilizado, com danos ambientais que persistem e o país ainda construindo um sistema de monitoramento e resposta para lidar com esse tipo de tragédia.
Até hoje, pouco se sabe sobre a origem das toneladas de material que chegaram com as ondas e marés por meses a partir de agosto de 2019, matando animais, afetando o turismo e dezenas de comunidades pesqueiras – que tiveram a renda e o modo de vida fragilizados às vésperas da chegada de uma pandemia que agravaria o cenário.
Análises feitas por diferentes órgãos de pesquisa indicam que se tratava de petróleo proveniente da Venezuela.
O mistério maior é sobre como o óleo chegou ao nosso litoral. Uma das teorias é de que o material seja fruto de um vazamento acidental ocorrido durante operação de transferência do produto entre navios em alto-mar, a pelo menos 500 km da costa brasileira.
É difícil ter certeza, porque essas são atividades realizadas sem registro, para tentar driblar os bloqueios econômicos impostos à ditadura venezuelana, e com os localizadores dos navios desligados.
A investigação aberta pela Polícia Federal – até agora, inconclusiva – chegou a apontar navios suspeitos em 2020, mas eles negaram envolvimento e não houve desdobramentos. Além da PF, o Ministério Público Federal, a Marinha e uma CPI na Câmara apuraram o crime, mas também não apresentaram conclusões sobre possíveis responsáveis.
Mais de 5 mil toneladas de óleo foram recolhidas por servidores e por voluntários ao longo de mais de 2 mil km de litoral, em 130 municípios de 11 estados, do Maranhão ao Rio de Janeiro. Desde o meio de 2020 que o óleo não se faz visível nas praias, mas seus resquícios continuam a poluir o habitat de milhares de espécies marinhas.
Um artigo publicado nesta semana por pesquisadores brasileiros na revista científica Marine Pollution Bulletin mostrando o resultado da análise de amostras recolhidas de outubro de 2019 a janeiro de 2020 em praias afetadas em Alagoas e Sergipe identificou níveis de metais pesados, como mercúrio, cobre e chumbo, acima dos considerados normais pela legislação ambiental brasileira.
Apesar de a falta de um monitoramento prévio das condições das águas impedir medição mais concreta dos efeitos desses resquícios de petróleo na natureza, o fato de os índices terem caído depois das primeiras análises indica que o vazamento teve papel relevante nessa poluição.
“Não vermos mais o óleo não significa que o problema acabou, o problema está ali”, afirma o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Emerson Soares, que é um dos coordenadores do estudo. A análise seguirá sendo feito até o ano que vem, em busca de medições mais robustas sobre os efeitos ambientais da tragédia.
Deu em Metrópoles
Foto: Veja

Descrição Jornalista
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