PF conclui que blogueiro maranhense não cometeu crime apontado por Alexandre de Moraes - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Censura 19/08/2026 17:17

PF conclui que blogueiro maranhense não cometeu crime apontado por Alexandre de Moraes

PF conclui que blogueiro maranhense não cometeu crime apontado por Alexandre de Moraes

Relatório sigiloso da Polícia Federal contradiz fundamento usado pelo ministro do STF para ordenar busca e apreensão contra jornalista Luís Pablo

Um documento produzido pela inteligência da Polícia Federal revela que o blogueiro do Maranhão Luís Pablo não praticou o crime de violação de sigilo funcional — justamente a conduta que serviu de base para a decisão do ministro , do Supremo Tribunal Federal (STF), de determinar uma operação de busca e apreensão contra o jornalista e sua fonte.

O relatório vai além: afirma que também não é possível “apontar com máxima certeza” que Luís Pablo tenha recebido dinheiro em troca de publicações sobre o ministro .

Publicações sobre carro oficial de Dino motivaram a investigação

Luís Pablo administra um blog dedicado à política maranhense. A partir de novembro de 2025, ele passou a publicar reportagens questionando o uso de um veículo oficial do Tribunal de  do Maranhão por Dino e seus familiares. O ministro nega qualquer irregularidade no uso do automóvel.

As matérias, no entanto, desencadearam uma reação judicial. Em março deste ano, por determinação de Moraes, uma operação policial foi realizada contra o jornalista. Na ocasião, dois celulares, um notebook e um pen drive foram apreendidos — equipamentos que permitiram aos investigadores identificar e rastrear a fonte do blogueiro.

Moraes alegou risco à integridade física de Dino

Na decisão que autorizou a operação, o ministro Alexandre de Moraes justificou a medida alegando haver risco à integridade física do colega de Corte, diante “do suporte material (envio de informações e discussões sobre a redação e teor das matérias publicadas) e financeiro prestado a Luís Pablo, com indício de tentativas de exclusão de mensagens eletrônicas relevantes para a investigação”.

Apesar do que aponta o relatório da PF, Moraes sustentou em sua decisão ter identificado indícios relevantes de que Luís Pablo cometeu o crime de perseguição contra Dino, citando como fundamento uma representação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que se manifestou favoravelmente às diligências.

Como o caso chegou a Moraes

A investigação foi aberta a pedido do próprio Dino. Inicialmente, o ministro sorteado para relatoria foi Cristiano Zanin. Porém, o presidente do STF, Edson Fachin, determinou a redistribuição do caso, entendendo que ele guardava analogia com o  e com o das milícias digitais — ambos já sob a relatoria de Moraes.

Fonte identificada como ex-secretário de estado

Com o material apreendido na primeira operação, a Polícia Federal descobriu que a fonte de Luís Pablo era o ex-secretário Raimundo Cutrim. Cutrim também é alvo de outro inquérito, este relacionado ao assassinato de um funcionário da secretaria de Educação do Maranhão — caso sob a relatoria de Dino, que governou o estado entre 2015 e 2022.

A identificação da fonte levou a PF a solicitar autorização para uma segunda operação de busca e apreensão, executada na semana passada.

Relatório diferencia claramente o jornalista de sua fonte

O documento sigiloso, ao qual a reportagem teve acesso, analisa detalhadamente as mensagens trocadas entre Raimundo Cutrim e Luís Pablo. As conversas mostram o ex-secretário enviando imagens e documentos ao blogueiro por WhatsApp. Os dois também se encontraram pessoalmente.

Os investigadores, no entanto, são categóricos: o jornalista não participou de atos de perseguição. Na avaliação da PF, Luís Pablo tem postura tendenciosa contrária a Flávio Dino e se dedica a produzir matérias que o colocam “como influente político contrário ao governo do Maranhão”.

O delegado Alberto Knoll, responsável pelo encaminhamento do relatório ao STF, fez questão de distinguir a situação do jornalista da de sua fonte. “Não se trata de acusar o jornalista do cometimento de tal crime, já que o mesmo, em tese, está acobertado pelo direito à liberdade de imprensa, amplamente reconhecido em nossos tribunais”, escreveu.

Já sobre o ex-secretário Raimundo Cutrim, o delegado afirmou que “a conduta de possível agente público que acessa dados restritos e os divulga de forma irregular para publicação através de veículo de imprensa, essa sim pode ser enquadrada no crime tipificado no art. 325 do Código Penal (violação do sigilo funcional).”

Compra de terreno e conexão com ex-secretário de Habitação

Alberto Knoll destacou ainda uma transação imobiliária envolvendo Luís Pablo. Trata-se da compra de um terreno, cuja uma das parcelas foi paga pelo advogado Diogo Lima — que exerceu o cargo de secretário de Habitação de São Luís durante a gestão de Edivaldo Holanda Júnior (PDT), aliado político de Dino. Mesmo assim, o delegado não associou a conduta do jornalista ao crime de perseguição.

Os investigadores encontraram no computador de Luís Pablo diversos diálogos com Diogo Lima. Nas conversas, o jornalista encaminha matérias críticas a Flávio Dino, e o advogado opina sobre os textos, chegando a sugerir alterações na redação. Lima também foi alvo das buscas autorizadas por Moraes na semana passada.

Transferência de R$ 100 mil e imóvel rural

Em uma das trocas de mensagens, os dois discutem uma transferência para a conta bancária de Danilo Cutrim Bezerra, veterinário que vendeu um terreno ao blogueiro. Apesar da semelhança com o sobrenome da fonte, Raimundo Cutrim, a PF ressalva que não foi possível confirmar parentesco entre eles. “Verificou-se ainda que o sobrenome Cutrim tem elevada incidência no Estado do Maranhão, segundo fontes do IBGE, sendo utilizado por aproximadamente 14.778 pessoas”, diz o relatório.

As mensagens revelam que Diogo Lima enviou fotos de um comprovante de depósito de R$ 100 mil, transferidos de sua conta para Danilo Cutrim. Segundo a própria Polícia Federal, os recursos foram utilizados para quitar parte de um imóvel rural de R$ 461 mil adquirido pelo jornalista. A propriedade, conforme a investigação, foi paga por meio de depósitos provenientes de múltiplas fontes pagadoras, incluindo Lima.

“Meu irmão não tem palavras [sic], mesmo sabendo que você é um cara que posso contar pra tudo, mas você me surpreende. Você é um cara de coração enorme, Deus te abençoe sempre”, escreveu Luís Pablo ao receber o comprovante.

“Oh meu irmão. Vc é muito querido pra mim [sic]. Não ia deixar vc perder seu sonho”, respondeu Lima.

Notas fiscais da Assembleia Legislativa do Maranhão

O relatório da PF também registrou a existência de notas fiscais emitidas em nome da Assembleia Legislativa do Maranhão para o Blog Luís Pablo, com valores que variavam entre R$ 12 mil e R$ 17,5 mil.

Questionado pela equipe de reportagem sobre a origem desses recursos, Luís Pablo explicou tratar-se de pagamentos por banners de anúncio publicados em seu blog. “Todo mês mando. Foi suspenso no mês passado em razão das  e da legislação eleitoral”, afirmou o jornalista. “Não é só para mim. São vários veículos de comunicação, entre blog, rádio e TV. [O valor] É pago pela agência de marketing que é contratada pela Assembleia”.

Ricardo Rosado de Holanda
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