Fábrica de calçados fecha no Rio Grande do Sul depois de procurar trabalhadores por mais de dois anos, oferecer cursos gratuitos, manter mais de dez vagas abertas e continuar com apenas 15 empregados - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Empresas 17/08/2026 12:16

Fábrica de calçados fecha no Rio Grande do Sul depois de procurar trabalhadores por mais de dois anos, oferecer cursos gratuitos, manter mais de dez vagas abertas e continuar com apenas 15 empregados

Fábrica de calçados fecha no Rio Grande do Sul depois de procurar trabalhadores por mais de dois anos, oferecer cursos gratuitos, manter mais de dez vagas abertas e continuar com apenas 15 empregados

A Calçados Madar encerrou sua unidade produtiva no Norte do Rio Grande do Sul após afirmar oficialmente que precisava manter entre 20 e 25 trabalhadores, mas conseguiu reunir apenas 15 de maneira contínua.

O fechamento reacende um debate incômodo no mercado de trabalho: realmente faltam pessoas dispostas a trabalhar ou empresas e pequenas cidades enfrentam dificuldades cada vez maiores para tornar determinadas vagas atraentes?

Em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, máquinas que poderiam produzir centenas de pares de calçados por dia deixaram de operar depois de uma dificuldade que parece contraditória em um país onde milhões de pessoas procuram emprego.

A Calçados Madar fechou sua unidade em Caiçara depois de afirmar que simplesmente não conseguiu formar uma equipe considerada mínima para manter a operação.

O caso rapidamente ultrapassa os limites de uma fábrica. De um lado está uma empresa que diz ter procurado trabalhadores por anos, oferecido treinamento e contado com apoio público.

Do outro está uma pergunta que inevitavelmente incomoda: se havia vagas disponíveis durante tanto tempo, por que elas não foram preenchidas?

Empresa diz que precisava de até 25 pessoas e só conseguia manter 15

Fábrica de calçados funcionava em Caiçara/RS, na região do Médio Alto Uruguai, no Norte gaúcho, e mantinha cerca de 15 trabalhadores antes de encerrar as atividades por dificuldade para ampliar a equipe.
Fábrica de calçados funcionava em Caiçara/RS, na região do Médio Alto Uruguai, no Norte gaúcho, e mantinha cerca de 15 trabalhadores antes de encerrar as atividades por dificuldade para ampliar a equipe.

A Prefeitura recebeu em 19 de junho de 2026 a comunicação oficial de encerramento da unidade.

Segundo a empresa, seriam necessários entre 20 e 25 profissionais para manter a linha produtiva funcionando adequadamente, mas o contingente permaneceu próximo de apenas 15 trabalhadores.

Na notificação, a Madar classificou o problema como uma situação de “extrema escassez de mão de obra” e afirmou que o fechamento ocorreu exclusivamente pela dificuldade de manter trabalhadores suficientes.

A própria empresa também deixou registrado que não atribuía responsabilidade à prefeitura, que havia ajudado na divulgação de vagas e em tentativas de recrutamento.

O problema, porém, não começou em 2026. Em abril de 2024, o Jornal Exclusivo já mostrava que a unidade tinha os mesmos 15 empregados e mantinha mais de dez vagas abertas. Naquela época, produzia entre 250 e 300 pares por dia, mas pretendia chegar a até 500 pares diários

Nem cursos gratuitos foram suficientes

Para tentar ampliar a equipe, a empresa chegou a oferecer cursos gratuitos de costura e formação para funções específicas da indústria calçadista. As vagas tinham carteira assinada, jornada de segunda a sexta-feira e, segundo a reportagem da época, remuneração compatível com a função e acima do salário mínimo.

Ainda assim, a equipe não cresceu de maneira sustentável. Dois anos depois, o número citado no fechamento continuava praticamente igual.

Isso transforma o encerramento em algo maior do que uma decisão empresarial comum: foram anos procurando pessoas, treinando candidatos e tentando elevar uma produção que nunca conseguiu atingir o volume pretendido.

E é exatamente neste ponto que surge a divisão.

Faltou trabalhador ou faltou uma vaga capaz de convencer o trabalhador?

A empresa afirma que faltou mão de obra. Mas até agora não foram divulgados publicamente o salário pago em 2026, os benefícios oferecidos, o nível de rotatividade, as dificuldades de transporte ou os motivos que levavam candidatos a rejeitar ou abandonar as vagas.

Sem essas informações, duas interpretações começam a disputar espaço. Uma sustenta que pequenas cidades brasileiras já enfrentam um problema real de falta de trabalhadores para funções industriais.

A outra argumenta que, quando uma vaga permanece aberta durante anos, talvez seja necessário perguntar também se salário, deslocamento, função e perspectivas profissionais são suficientes para atrair pessoas.

Nenhuma das duas respostas pode ser apresentada como fato neste caso. O que existe é uma contradição difícil de ignorar.

Rio Grande do Sul perdia empregos enquanto a fábrica dizia não encontrar gente

O desconforto aumenta quando o caso é colocado ao lado dos números do setor. A indústria calçadista do Rio Grande do Sul encerrou 2025 com aproximadamente 74,5 mil empregos diretos, após perder cerca de 4,4 mil postos de trabalho em apenas um ano, segundo dados divulgados pela Abicalçados.

Ou seja, enquanto milhares de empregos desapareciam no setor gaúcho, uma pequena fábrica afirmava não conseguir reunir sequer os poucos trabalhadores adicionais necessários para continuar funcionando no Norte do estado.

A unidade agora devolve ao município o imóvel público onde funcionava, e Caiçara perde uma operação industrial que durante anos tentou crescer.

Permanecerá, porém, uma pergunta muito mais ampla do que o fechamento de uma única empresa: quando uma fábrica encerra atividades dizendo que faltou gente para trabalhar, quem realmente falhou, o trabalhador, a empresa ou um mercado de trabalho que já não consegue fazer os dois lados se encontrarem?

Deu em CPG
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista