Comportamento 13/07/2026 12:02
Relações tóxicas: como reconhecer os sinais e superar os danos emocionais

Em Who’s Afraid of Virginia Woolf?, George e Martha se destroem em voz alta durante uma única noite. Em O Morro dos Ventos Uivantes, o sofrimento é mais longo e silencioso, com Heathcliff devolvendo, com crueldade calculada, tudo o que um dia sofreu, em uma espiral que atravessa gerações.
Em Big Little Lies, a violência convive com a aparência de uma vida perfeita entre Celeste e Perry. Já em Tell Me Lies, Stephen DeMarco manipula, seduz, chantageia e abandona com uma precisão que a série retrata de forma deliberadamente incômoda.
A arte soube retratar as relações tóxicas de diferentes maneiras e por meio de personagens diversos. Mas quase sempre de fora: mostrando o drama, os gritos, o rompimento, a despedida. O que raramente é contado é o que acontece por dentro. Na mente. No cérebro. No corpo. As marcas deixadas por um estresse contínuo que pode durar meses, anos ou até décadas.
Segundo as evidências científicas acumuladas, uma relação tóxica não é apenas um vínculo doloroso, mas também uma fonte de estresse crônico, com efeitos mensuráveis sobre a memória, a atenção, a autoestima e a capacidade de tomar decisões. E suas consequências nem sempre desaparecem quando a relação chega ao fim.
Nem toda relação difícil é tóxica. Conflitos, distanciamento emocional e períodos de crise fazem parte de qualquer vínculo. O que diferencia uma relação nociva é a presença constante de dinâmicas que corroem a identidade de um dos parceiros: manipulação, controle, desvalorização sistemática, imprevisibilidade afetiva e invalidação emocional contínua.
Nem sempre há agressões físicas. Às vezes, nem sequer há gritos. Mas existe uma assimetria de poder que se instala e acaba sendo normalizada com o tempo.
— As pessoas que vivem esse tipo de relação muitas vezes têm suas emoções anuladas ou seus sentimentos e percepções constantemente invalidados — explica Mercedes Conti Urabayen, psicóloga especializada em terapia cognitivo-comportamental. — Em alguns casos, elas podem desenvolver formas de dissociação como mecanismo de defesa para suportar situações emocionalmente insuportáveis.
Sensações frequentemente relatadas, como “eu me sentia desconectada de mim mesma” ou “era como se estivesse anestesiada”, têm uma explicação que vai muito além da metáfora.
Quando uma pessoa vive em estado permanente de alerta — sem saber se a chegada do parceiro trará carinho ou uma cobrança, se o silêncio representa indiferença ou o início de um conflito — seu sistema nervoso reage como diante de qualquer ameaça: ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e aumenta a produção de cortisol.
Em doses moderadas e por tempo limitado, essa resposta é adaptativa. Quando se prolonga, torna-se prejudicial.
Estudos demonstram que o estresse crônico está intimamente relacionado à desregulação do eixo HHA e ao excesso de cortisol, o que pode provocar alterações no sistema nervoso central, afetando regiões fundamentais para a memória e a regulação do humor.
Uma dessas regiões é o hipocampo, responsável pela formação e consolidação das memórias. A exposição prolongada aos glicocorticoides, como o cortisol, tem sido associada à redução do volume do hipocampo e a efeitos neurotóxicos sobre neurônios envolvidos nos processos de aprendizagem e memória.
Outra região afetada é a amígdala cerebral, responsável pelo processamento do medo e das respostas emocionais. Quando o estresse se torna crônico, tanto o hipocampo quanto a amígdala sofrem alterações estruturais, fenômeno observado tanto em animais submetidos a estresse social repetido quanto em seres humanos expostos a situações prolongadas de tensão.
Alejandro Andersson, diretor do Instituto de Neurologia Buenos Aires (INBA), destaca que essas mudanças não são apenas uma metáfora clínica, mas alterações comprovadas pela ciência.
— As relações tóxicas produzem mudanças estruturais e funcionais mensuráveis no cérebro. O resultado é um cérebro em estado permanente de alerta, com prejuízo da memória, dificuldade para raciocinar com clareza e uma resposta emocional hiperativada, o que torna muito difícil avaliar a situação de forma objetiva — afirma.
Uma terceira região comprometida é o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento, planejamento e regulação das emoções. Segundo Andersson, o estresse crônico provoca “uma retração funcional — e, com o tempo, estrutural — do córtex pré-frontal, especialmente das regiões ventromedial e dorsolateral”. Ao mesmo tempo, a amígdala hiperativada passa a exercer maior controle sobre o comportamento.
O efeito é preciso e devastador: a pessoa perde parte da capacidade de analisar racionalmente a própria situação. Não se trata simplesmente de “não querer enxergar”. O mesmo mecanismo que gera a sensação constante de perigo enfraquece as estruturas neurológicas que permitiriam reconhecer esse perigo. Forma-se, assim, um ciclo que se retroalimenta.
— Viver em estado constante de alerta pode aumentar a ativação dos sistemas cerebrais ligados ao processamento do medo e das ameaças, o que favorece uma maior predisposição à ansiedade — acrescenta Conti Urabayen.
O estresse também altera a forma como as memórias são registradas. Embora possa intensificar a lembrança de determinados aspectos de uma experiência, ele dificulta a integração do contexto, produzindo recordações fragmentadas. A amígdala hiperativada fortalece as memórias associadas ao medo, enquanto o hipocampo, inibido, perde parte da capacidade de contextualizá-las.
O impacto não é apenas biológico. Também afeta o funcionamento cotidiano. Uma pessoa que passa o dia revivendo o último conflito ou antecipando o próximo tem sua capacidade de atenção drasticamente reduzida para qualquer outra atividade.
— As emoções intensas interferem diretamente nos processos cognitivos. Quando o estresse emocional é elevado, a atenção tende a ficar concentrada na preocupação. Quem vive sendo hostilizado pelo parceiro pode passar boa parte do dia ruminando o que aconteceu ou imaginando novos conflitos. Isso reduz significativamente sua capacidade de atenção, e informações que não recebem atenção dificilmente serão registradas e armazenadas na memória — explica a psicóloga.
A isso se soma o controle, que em muitas relações tóxicas assume formas concretas e tecnológicas: mensagens incessantes durante o expediente, pressão para responder imediatamente e ansiedade quando o celular permanece em silêncio.
— Mesmo que a pessoa decida desligar o telefone, a preocupação com as possíveis consequências continua ocupando sua mente e prejudicando seu desempenho — conclui Conti Urabayen.
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Um dos mecanismos mais nocivos — e menos visíveis — de algumas relações tóxicas é a imprevisibilidade: nunca saber em que estado de espírito o outro estará, se haverá carinho ou distância, aprovação ou crítica. Essa oscilação nem sempre é acidental; muitas vezes, trata-se de uma forma deliberada de manipulação.
— Estar em um relacionamento com alguém que hoje demonstra amor e amanhã não gera um desgaste mental muito grande, favorecendo a dependência emocional, a necessidade constante de reafirmação e a sensação de que é preciso fazer tudo certo para garantir o afeto do outro. É uma forma de viver em permanente estado de alerta e ansiedade — explica Mercedes Conti Urabayen.
Essa busca incessante por validação não é capricho nem sinal de fraqueza. Trata-se de uma resposta adaptativa diante de um sistema de recompensas imprevisível. O cérebro tende a se apegar mais ao que surge de maneira irregular do que ao que é previsível. É o mesmo mecanismo envolvido em determinados comportamentos compulsivos.
Alejandro Andersson confirma esse processo sob a perspectiva da neurociência e o explica de forma mais precisa: “O reforço intermitente — a alternância imprevisível entre maus-tratos e afeto, punição e recompensa — é justamente o padrão que mais ativa e desregula o sistema dopaminérgico mesolímbico.
” É o mesmo princípio que torna as máquinas caça-níqueis tão viciantes: a imprevisibilidade da recompensa sensibiliza o núcleo accumbens e estimula uma busca compulsiva pelo próximo estímulo, mesmo quando ele é prejudicial.
Do ponto de vista neurobiológico, acrescenta o especialista, viver uma relação baseada em reforço intermitente “provoca alterações na expressão dos receptores dopaminérgicos D1 e D2 comparáveis às observadas em dependências químicas”. Isso ajuda a explicar por que romper uma relação desse tipo não depende apenas da vontade: significa atravessar um processo funcionalmente semelhante à abstinência.
Um estudo conduzido por Adelle Forth e colaboradores, da Universidade Carleton, no Canadá, publicado em 2021 no International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology e disponível no PubMed Central, analisou as consequências para a saúde física e mental de 457 pessoas que haviam mantido relacionamentos íntimos com indivíduos que apresentavam traços psicopáticos.
As vítimas relataram uma ampla variedade de consequências negativas, incluindo impactos emocionais, biológicos, comportamentais, cognitivos e interpessoais.
A gravidade dos traços psicopáticos do parceiro e o uso de estratégias de enfrentamento pouco adaptativas estiveram significativamente associados a sintomas mais intensos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão.
Esse fenômeno não se restringe a relações com pessoas que apresentam psicopatia. Décadas de estudos transversais, prospectivos e retrospectivos demonstram de forma consistente que viver com um parceiro violento ou controlador contribui significativamente para piores desfechos em saúde mental, sendo depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático as consequências mais frequentes.
Outro estudo, conduzido por Julia Richter e Christine Finn e publicado em 2021 na revista PLOS ONE, acompanhou mais de mil casais durante cinco anos e constatou uma relação recíproca entre autoestima e percepção de conflito no relacionamento amoroso. Os resultados mostram que conflitos persistentes e formas disfuncionais de interação estão associados à redução gradual da autoestima.
Um dos aspectos mais subestimados dos danos causados por uma relação tóxica é a sua persistência. Muitas pessoas conseguem sair desse vínculo acreditando que, com o tempo e a distância, tudo voltará ao normal. Nem sempre acontece assim.
— Mesmo depois do término da relação, os efeitos costumam permanecer por bastante tempo. É comum observar uma redução da autoconfiança e o medo de entrar novamente em uma relação semelhante. Fica uma sensação de fragilidade e de falta de recursos para enfrentar um novo relacionamento. Ao conhecer alguém, muitas vezes surge uma ansiedade latente e a preocupação de reviver tudo aquilo — alerta Conti Urabayen.
Segundo a psicóloga, as consequências mais duradouras são justamente a perda da autoconfiança, o sentimento de vulnerabilidade e a dificuldade de voltar a confiar em outra pessoa. Não se trata de paranoia, mas de uma resposta aprendida diante de um ambiente que foi sistematicamente imprevisível ou prejudicial.
Andersson acrescenta uma explicação biológica para essa persistência. Segundo ele, ao deixar esse tipo de relação, muitas pessoas experimentam aquilo que descreve como “uma síndrome de abstinência neurobiológica: ansiedade, insônia e uma busca compulsiva pela pessoa que causou o sofrimento, mesmo quando existe plena consciência do dano sofrido”.
E ressalta que isso não representa fraqueza nem contradição psicológica, mas o funcionamento de um sistema de recompensa desregulado.
Além disso, a amígdala cerebral dificilmente retorna imediatamente ao seu estado anterior. Ela tende a permanecer mais sensível, com um limiar de ativação reduzido. Isso explica, segundo o neurologista, por que muitas pessoas que conseguiram sair de relações tóxicas “continuam reagindo de forma desproporcional a pequenos estímulos, mesmo anos depois. Não é exagero: é uma amígdala recalibrada para a hipervigilância.”
Já o hipocampo oferece um cenário mais otimista. Trata-se de uma das poucas regiões do cérebro adulto com capacidade real de neurogênese — isto é, de produzir novos neurônios. Estudos em humanos e em modelos animais mostram uma recuperação parcial de seu volume quando o estresse crônico é interrompido, especialmente com exercícios aeróbicos, sono de qualidade e ambientes seguros.
Ainda assim, Andersson ressalta que, quando o estresse foi muito prolongado ou começou em fases críticas do desenvolvimento, parte das perdas pode ser permanente ou extremamente difícil de reverter.
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Parte da resposta está na própria neurobiologia do apego. Outra parte está no desgaste progressivo dos recursos internos que permitiriam reconhecer o abuso e se afastar dele.
Quando a autoestima foi destruída ao longo de meses ou anos, a saída raramente acontece de forma repentina.
— Uma das consequências mais frequentes desse tipo de relação é que a pessoa deixa de confiar na própria percepção. Ela começa a duvidar do que sente, do que lembra e daquilo que percebe. Muitas vezes porque passou muito tempo ouvindo que exagerava, confundia as coisas ou era sensível demais — afirma Carolina Ricciuti (M.N. 41.492), psicóloga especializada em abuso emocional narcisista e trauma relacional.
As relações tóxicas também se sustentam em crenças disfuncionais de que os relacionamentos são instáveis, inseguros e inevitavelmente associados à humilhação e ao sofrimento. Entre as mulheres, sentimentos de culpa e vergonha são fatores que frequentemente contribuem para a permanência em relações que deixam profundas marcas psicológicas.
A boa notícia é que esses danos não são irreversíveis.
O uso de estratégias saudáveis de enfrentamento esteve associado a menores níveis de depressão entre pessoas que viveram relacionamentos com parceiros que apresentavam traços psicopáticos, indicando que a forma como a experiência é elaborada influencia diretamente a recuperação.
Embora não exista um prazo universal para esse processo, compreender que a confusão, a ansiedade e a desconfiança não eram sinais de fraqueza, mas respostas naturais a um ambiente verdadeiramente nocivo, costuma representar um primeiro passo importante.
Nesse sentido, Ricciuti destaca algumas estratégias que podem favorecer a recuperação:
Mais do que qualquer técnica, a especialista considera essencial reaprender a ouvir a si mesmo. “Voltar a dar valor ao que o corpo sente e aos sinais emocionais que durante tanto tempo foram ignorados ou invalidados.”
Quando se trata de medir o progresso, os primeiros sinais de melhora nem sempre aparecem da maneira que se imagina.
— Muitas vezes eles surgem primeiro no corpo, e não no pensamento racional — explica Ricciuti. Depois de muito tempo vivendo sob estresse, tensão ou confusão emocional, o sistema nervoso começa, lentamente, a abandonar o modo de sobrevivência. Segundo ela, isso pode ser percebido por meio de sinais concretos:
No fim das contas, tanto a neurociência quanto a prática clínica mostram que o corpo não mente. A confusão, o esgotamento e a dificuldade de romper uma relação tóxica não são sinais de fragilidade, mas de um sistema nervoso fazendo exatamente aquilo para o qual foi programado: adaptar-se para sobreviver.
O passo seguinte — mais lento e mais difícil — é aprender que essa adaptação já não é mais necessária.
Deu em O Globo

Descrição Jornalista
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