Afinal, as pausas para hidratação promovidas durante as partidas da Copa do Mundo são ou não eficazes?
A FIFA, entidade máxima do futebol e organizadora do torneio, afirma que esses dois momentos de paralisação dos jogos (que acontecem sempre na metade de cada um dos tempos) visam o bem-estar dos jogadores frente às altas temperaturas do Canadá, do México e, sobretudo, dos Estados Unidos.
Mas, para os críticos, as pausas para hidratação são nada além de “tempos técnicos”, usados pelos treinadores para orientar seus times (e para vender publicidade, claro), em vez de algo pensado nas saúde dos atletas.
Harry Brown, especialista em fisiologia ambiental da Universidade de Sydney (Austrália), defendeu em texto publicado pela revista Nature nesta segunda-feira (6) que “as pausas para resfriamento devem ser motivadas pelo risco de estresse térmico e planejadas em função de um resfriamento eficaz, e não por horários de transmissão ou pressões comerciais”, com a exibição de anúncios e vaias de torcedores.
O contexto, por isso, importa: em situações de calor extremo, como enfrentadas por alguns jogos da Copa 2026, as pausas se mostram especialmente importantes.
Para outras, no entanto, elas se tornam apenas protocolares. Um exemplo envolve o jogo entre o México e a Inglaterra, que aconteceu no último domingo (5) no Estado Azteca, na Cidade do México.
Tendo iniciado às 22h (no horário de Brasília), o jogo aconteceu sob temperatura amena, de 15ºC e, ainda assim, contou com as interrupções.
O que a FIFA tem feito?
Pesquisadores que investigam o efeito do calor na saúde e no desempenho do corpo humano, como Brown, têm criticado a postura assumida pela FIFA. Para eles, o órgão tem assumido uma postura incoerente no que diz respeito à sua postura teórica e prática.
Isso porque as diretrizes médicas da entidade não dão margem para más interpretações: as pausas para resfriamento têm como objetivo prevenir doenças relacionadas ao calor e devem ser utilizadas quando o estresse térmico ambiental ultrapassar a temperatura de bulbo úmido e globo de 32 °C.
Mas, na prática, o que se tem visto são interrupções independentes das condições climáticas, mesmo em estádios climatizados. Para muitos críticos, a medida não se trata mais de uma pausa para hidratação, mas sim de um tempo preenchido por instruções táticas, no qual os jogadores recebem orientações enquanto continuam, ironicamente, debaixo de um sol de rachar.
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Embora possa parecer justo tratar todos os jogos da mesma maneira e seguir o protocolo das hidratações, a generalização da prática pode “minar a confiança nas medidas de segurança contra o calor”, explicou Brown. “Se as pausas forem sempre utilizadas, independentemente do risco, elas deixam de ser significativas e passam a parecer rotineiras”.
E o alerta tem embasamento. Em junho de 2025, uma pesquisa conduzida por Brown e outros pesquisadores foi publicada no Journal of Science and Medicine in Sport (JSAMS). Com a participação de 12 voluntários, eles simulam partidas de futebol de 90 minutos em um ambiente com 40 °C de calor e 41% de umidade.
Nessas condições, eles testaram diferentes abordagens de resfriamento, entre pausas passivas, resfriamento ativo e períodos de recuperação mais longos. Os resultados indicaram que pausas curtas durante o jogo, utilizando toalhas embebidas em gelo e bebidas frias, combinadas com uma pausa ligeiramente mais longa no intervalo, reduziram consideravelmente a temperatura corporal central e o esforço cardiovascular. Pausas sem resfriamento ativo, por outro lado, ofereceram pouco benefício.
Como a hidratação ocorre em outras modalidades?
A ciência por trás das pausas de hidratação não se restringe apenas ao futebol. Brown destacou que “os mesmos princípios se aplicam a trabalhadores da construção civil em um canteiro de obras quente ou a trabalhadores agrícolas no campo”, já que em todas essas situações o “combo” repouso, hidratação e resfriamento ativo reduzem o estresse fisiológico.
Algumas modalidades esportivas já adotam respostas ao estresse térmico mais vinculadas à ciência. No torneio de tênis Australian Open, por exemplo, os organizadores utilizam uma escala de estresse térmico de cinco níveis. Essa métrica combina o risco fisiológico do estresse térmico com medições ambientais, e a resposta é ajustada de acordo. Isso pode significar desde a implementação de medidas de resfriamento à beira da quadra até a suspensão da partida.
Outro exemplo positivo, compartilhado por Brown, é a postura que a Federação Internacional de Rugby – regulador internacional do esporte – adota. Desde 2025, a entidade adapta as intervenções para resfriamento dos corpos dos atletas com base tanto nas condições climáticas quanto no risco individual de cada jogador.

