Eleições 06/07/2026 06:30
Nos EUA, Flávio vai à audiência pública com o USTR para tratar do tarifaço

O senador e pré-candidato ao Palácio do Planalto Flávio Bolsonaro (PL-RJ), acompanhado por representantes do agronegócio brasileiro, participa, nesta segunda-feira (6/7), em Washington, de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Aliados do primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro sinalizaram à reportagem que esse movimento é “crucial” para mostrar a força de Flávio.
A percepção no entorno do parlamentar é que ele pode se reunir com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, antes da audiência e conseguir alguma vantagem sob o tarifaço.
Enquanto isso, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha, segundo interlocutores sinalizaram ao Correio, com um cenário de incerteza sobre a decisão norte-americana prevista para o dia 15.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é que as negociações entraram em uma fase decisiva, mas que fatores políticos passaram a pesar tanto quanto os argumentos técnicos apresentados por Brasília.
O desfecho poderá afetar setores exportadores, influenciar o rumo das negociações bilaterais e aprofundar a disputa política em torno da relação entre a família Bolsonaro e a administração de Donald Trump.
Integrantes da gestão petista afirmam que a investigação dos EUA encontra dificuldades para sustentar, do ponto de vista comercial, a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.
A leitura é que, diferentemente de outros parceiros comerciais dos Estados Unidos, o Brasil mantém uma relação amplamente superavitária para os norte-americanos, o que reduziria o espaço para justificar sanções baseadas em práticas consideradas desleais.
Apesar disso, auxiliares do presidente Lula avaliam que a disputa deixou de ser apenas econômica. Na visão do Planalto, parte do governo de Donald Trump passou a tratar o caso sob uma ótica ideológica, sobretudo em razão da proximidade das eleições presidenciais brasileiras.
A percepção é que diferentes alas da administração americana atuam de forma distinta: enquanto os órgãos técnicos mantêm diálogo com o governo brasileiro, setores políticos enxergam o processo como instrumento de pressão sobre o cenário eleitoral no Brasil.
Nesse contexto, a atuação do senador Flávio Bolsonaro junto às autoridades dos EUA é vista com preocupação pelo Planalto. A avaliação reservada é que a ofensiva do parlamentar acabou vinculando ainda mais a discussão comercial à disputa política brasileira.
Interlocutores do governo entendem que, ao pedir o adiamento ou a suspensão das tarifas sob o argumento de que elas poderiam fortalecer Lula, o senador assumiu também parte do risco de um eventual fracasso das negociações, caso os Estados Unidos mantenham as medidas anunciadas.
Cartada decisiva
De acordo com especialistas, a viagem de Flávio representa uma tentativa de reposicionar sua campanha e reduzir os impactos dos desgastes recentes.
Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), a estratégia busca alterar o foco do debate público após episódios que afetaram a candidatura, como o caso Dark Horse e a repercussão do vídeo de Michelle Bolsonaro. Para ele, a aposta agora recai sobre temas econômicos e de política internacional.
“A viagem busca mudar o eixo da campanha. Uma tentativa de virar a página dos desgastes recentes. Depois do caso Dark Horse e da crise provocada pelo vídeo de Michelle Bolsonaro, a candidatura de Flávio aposta nas agendas econômica e internacional como forma de sair da defensiva”, afirmou Medeiros.
Apesar da estratégia, Medeiros alerta que a iniciativa também aumenta a cobrança por resultados. Segundo ele, a expectativa criada pela viagem pode se voltar contra a candidatura caso não haja avanços concretos.
“O risco é a expectativa criada. Se a viagem terminar sem qualquer avanço concreto, a campanha de Lula vai colocar em xeque a liderança de Flávio junto à Casa Branca. Flávio precisa voltar ao Brasil acompanhado de algum resultado perceptível para produzir ganhos duradouros”, concluiu.
Nos bastidores, integrantes do Executivo afirmam ainda que a estratégia adotada pela oposição no relacionamento com Washington teria colocado o Brasil “na linha de tiro” da administração norte-americana desde o ano passado.
A leitura é que as iniciativas voltadas para internacionalizar o embate político acabaram produzindo efeitos contrários aos esperados e ampliaram a contaminação entre a agenda comercial e a disputa eleitoral.
Ao mesmo tempo, o governo mantém a aposta na negociação técnica.
Na quarta-feira passada, representantes brasileiros apresentaram ao USTR um “mapa do caminho” com medidas destinadas a reforçar garantias de que as políticas investigadas não produzem discriminação contra empresas americanas nem provocam distorções comerciais.
Segundo fontes do Planalto, a proposta busca ampliar compromissos já assumidos pelo Brasil e servir de base para a continuidade das tratativas, independentemente da decisão prevista para este mês.

Descrição Jornalista
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