Nos EUA, Flávio vai à audiência pública com o USTR para tratar do tarifaço - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Eleições 06/07/2026 06:30

Nos EUA, Flávio vai à audiência pública com o USTR para tratar do tarifaço

Nos EUA, Flávio vai à audiência pública com o USTR para tratar do tarifaço

O senador e pré-candidato ao Palácio do Planalto Flávio Bolsonaro (PL-RJ), acompanhado por representantes do agronegócio brasileiro, participa, nesta segunda-feira (6/7), em Washington, de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).

Aliados do primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro sinalizaram à reportagem que esse movimento é “crucial” para mostrar a força de Flávio.

A percepção no entorno do parlamentar é que ele pode se reunir com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, antes da audiência e conseguir alguma vantagem sob o tarifaço.

Enquanto isso, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha, segundo interlocutores sinalizaram ao Correio, com um cenário de incerteza sobre a decisão norte-americana prevista para o dia 15.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é que as negociações entraram em uma fase decisiva, mas que fatores políticos passaram a pesar tanto quanto os argumentos técnicos apresentados por Brasília.

O desfecho poderá afetar setores exportadores, influenciar o rumo das negociações bilaterais e aprofundar a disputa política em torno da relação entre a família Bolsonaro e a administração de Donald Trump.

Integrantes da gestão petista afirmam que a investigação dos EUA encontra dificuldades para sustentar, do ponto de vista comercial, a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.

A leitura é que, diferentemente de outros parceiros comerciais dos Estados Unidos, o Brasil mantém uma relação amplamente superavitária para os norte-americanos, o que reduziria o espaço para justificar sanções baseadas em práticas consideradas desleais.

Apesar disso, auxiliares do presidente Lula avaliam que a disputa deixou de ser apenas econômica. Na visão do Planalto, parte do governo de Donald Trump passou a tratar o caso sob uma ótica ideológica, sobretudo em razão da proximidade das eleições presidenciais brasileiras.

A percepção é que diferentes alas da administração americana atuam de forma distinta: enquanto os órgãos técnicos mantêm diálogo com o governo brasileiro, setores políticos enxergam o processo como instrumento de pressão sobre o cenário eleitoral no Brasil.

Nesse contexto, a atuação do senador Flávio Bolsonaro junto às autoridades dos EUA é vista com preocupação pelo Planalto. A avaliação reservada é que a ofensiva do parlamentar acabou vinculando ainda mais a discussão comercial à disputa política brasileira.

Interlocutores do governo entendem que, ao pedir o adiamento ou a suspensão das tarifas sob o argumento de que elas poderiam fortalecer Lula, o senador assumiu também parte do risco de um eventual fracasso das negociações, caso os Estados Unidos mantenham as medidas anunciadas.

Cartada decisiva

De acordo com especialistas, a viagem de Flávio representa uma tentativa de reposicionar sua campanha e reduzir os impactos dos desgastes recentes.

Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), a estratégia busca alterar o foco do debate público após episódios que afetaram a candidatura, como o caso Dark Horse e a repercussão do vídeo de Michelle Bolsonaro. Para ele, a aposta agora recai sobre temas econômicos e de política internacional.

“A viagem busca mudar o eixo da campanha. Uma tentativa de virar a página dos desgastes recentes. Depois do caso Dark Horse e da crise provocada pelo vídeo de Michelle Bolsonaro, a candidatura de Flávio aposta nas agendas econômica e internacional como forma de sair da defensiva”, afirmou Medeiros.

“É exatamente essa aposta que Flávio Bolsonaro faz ao ir até lá. Ele também tenta impedir que Lula fique sozinho no discurso da defesa da soberania nacional. Ao viajar aos EUA, procura transmitir a imagem de quem busca uma solução concreta para o tarifaço e para as discussões envolvendo o Pix”, disse.

Apesar da estratégia, Medeiros alerta que a iniciativa também aumenta a cobrança por resultados. Segundo ele, a expectativa criada pela viagem pode se voltar contra a candidatura caso não haja avanços concretos.

“O risco é a expectativa criada. Se a viagem terminar sem qualquer avanço concreto, a campanha de Lula vai colocar em xeque a liderança de Flávio junto à Casa Branca. Flávio precisa voltar ao Brasil acompanhado de algum resultado perceptível para produzir ganhos duradouros”, concluiu.

Nos bastidores, integrantes do Executivo afirmam ainda que a estratégia adotada pela oposição no relacionamento com Washington teria colocado o Brasil “na linha de tiro” da administração norte-americana desde o ano passado.

A leitura é que as iniciativas voltadas para internacionalizar o embate político acabaram produzindo efeitos contrários aos esperados e ampliaram a contaminação entre a agenda comercial e a disputa eleitoral.

Ao mesmo tempo, o governo mantém a aposta na negociação técnica.

Na quarta-feira passada, representantes brasileiros apresentaram ao USTR um “mapa do caminho” com medidas destinadas a reforçar garantias de que as políticas investigadas não produzem discriminação contra empresas americanas nem provocam distorções comerciais.

Segundo fontes do Planalto, a proposta busca ampliar compromissos já assumidos pelo Brasil e servir de base para a continuidade das tratativas, independentemente da decisão prevista para este mês.

Ricardo Rosado de Holanda
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