Procuram-se trabalhadores: oito em cada dez empresas têm dificuldade para preencher vagas - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Emprego 06/07/2026 04:39

Procuram-se trabalhadores: oito em cada dez empresas têm dificuldade para preencher vagas

Procuram-se trabalhadores: oito em cada dez empresas têm dificuldade para preencher vagas

Com 385 posições em modelo híbrido ou remoto, a Solo Network não sabe mais o que é ter esse quadro completo.

No momento, a empresa paranaense especializada em serviços de cibersegurança e inteligência artificial (IA) busca profissionais para 21 vagas, de arquiteto de soluções e engenheiro de dados a gerente de contas e analista financeiro, com salários de R$ 10 mil a R$ 20 mil.

Contratações de especialistas em cibersegurança têm levado 45 dias, mas agora as vagas da área comercial demoram ainda mais para serem preenchidas: dois a três meses.

Com a taxa de desemprego nas mínimas, sobram vagas no país. Oito em cada dez empregadores no Brasil têm dificuldade para encontrar profissionais, quadro que se repete há cinco anos, segundo pesquisa da consultoria ManpowerGroup com 1.020 empresas.

O desafio é maior para quem precisa de profissionais de nível superior. A consultoria Robert Half calcula que a taxa de desocupação nesse grupo foi de 3,3% no primeiro trimestre do ano, quase a metade da geral (6,1%).

Líderes empresariais já tratam o problema como crônico, que cobra um custo operacional e limita o crescimento dos negócios, do varejo e dos serviços à indústria e à infraestrutura.

— Os qualificados já estão empregados. Estamos em amplo crescimento, então isso afeta nossa operação. Se tivéssemos mais vendedores, por exemplo, teríamos ainda mais entrada (no mercado). Os produtos são complexos, e a venda é consultiva, não é rápida — diz Zenilda Zanardini, diretora administrativa da Solo.

Oito em cada dez empresas identificaram falta de profissionais no Brasil — Foto: Criação O Globo
Oito em cada dez empresas identificaram falta de profissionais no Brasil — Foto: Criação O Globo

As vagas ociosas tendem a aumentar, apontam especialistas, que citam uma mudança estrutural no mercado de trabalho brasileiro provocada por fatores como demografia, vagas formais com baixos salários e novas aspirações dos trabalhadores, como jornada flexível.

O Brasil é o quarto entre 42 países com maior intenção de contratação nas empresas entre julho e setembro, segundo outra sondagem da ManpowerGroup. Dos 1.080 empregadores entrevistados no país, 52% ampliarão equipes.

O problema é maior nos grandes centros e nos setores que demandam mão de obra intensiva: comércio, tecnologia, saúde e infraestrutura. Na plataforma de vagas Gupy, o varejo concentrou o maior volume de vagas abertas no primeiro semestre, com destaque para supermercados.

‘Não tem gente’

A rede mineira de supermercados Verdemar, com 17 lojas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, tem 500 vagas abertas em um total de 5,5 mil, quase 10%. Falta operador de caixa, atendente de padaria, estoquista, repositor, embalador, caixa e fiscal.

— Estamos com dificuldade tremenda de preencher. Não tem gente para trabalhar em BH. São vagas de primeiro emprego, exigem pouca experiência, mas o varejo hoje não é atraente para muita gente, infelizmente — diz Alexandre Poni, sócio e diretor comercial da rede, acrescentando que salários na média do mercado e benefícios como plano de saúde não são suficientes.

Enquanto o Senado avalia a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas com dois dias de folga, já aprovada na Câmara, a Verdemar implementou em oito lojas um acordo com o sindicato para proporcionar mais descansos semanais: ciclos de três dias de jornada diária de 12 horas seguidos de duas folgas, dois dias de trabalho e outros dois de descanso, totalizando 15 trabalhados no mês.

Zenilda Zanardini, da Solo Network, tem dificuldade de contratar — Foto: Acervo pessoal
Zenilda Zanardini, da Solo Network, tem dificuldade de contratar — Foto: Acervo pessoal

Mesmo sem a redução de jornada da PEC, o esquema requer entre 15% e 20% mais empregados por loja. Melhorou a atração de mão de obra, mas o custo subiu:

— Nas lojas em que conseguimos implementar essa escala, os funcionários estão superfelizes, mas torcemos para que o fim da escala 6×1 tenha um prazo para nos adaptarmos, se aprovado. É altamente inflacionário — diz Poni.

Perfis mais flexíveis

A Livraria Leitura, com 136 lojas no país, tem dificuldade de recrutar principalmente nos cargos de entrada, como atendente e assistente de loja, com ensino médio. A saída tem sido flexibilizar os perfis procurados, contratando inclusive pessoas mais velhas. A empresa não tem um quantitativo de vagas em aberto, mas André Teles, um dos sócios, cita como um termômetro o número de candidatos por vaga.

— Era muito comum na abertura de uma seleção ter 15 ou 12 candidatos por vaga. Hoje, tem sido a metade. Como há menos inscritos, temos mais dificuldade em encontrar pessoas com o perfil para a vaga — conta Teles, que também se preocupa com o agravamento do gargalo com a PEC da redução da jornada semanal, já que suas lojas de shopping abrem 360 dias por ano e vão precisar de mais gente.

— Vemos esse problema em vários pontos do país, não é particular de uma região, nem mesmo de uma cidade.

A mineira AeC, de atendimento ao cliente (majoritariamente em call centers), começou ainda em 2012 a expandir sua operação para o Nordeste, que tem desocupação maior.

Livraria Leitura no Centro do Rio — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo
Livraria Leitura no Centro do Rio — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

— Hoje, temos 56 mil funcionários, sendo mais de 45 mil no Nordeste — afirma Alexandre Faria, vice-presidente de Pessoas e Serviços da AeC.

A estratégia passou por chegar à região pelas segundas maiores cidades de alguns estados, como Campina Grande (PB), Juazeiro do Norte (CE) e Mossoró (RN). A única capital é João Pessoa (PB). O alvo são os jovens em busca do primeiro emprego.

O recrutamento é digital e muitos são atraídos por horários flexíveis e a possibilidade de home office, particularmente mulheres, que são 70% das equipes. A retenção é feita com uma política de promoções constantes numa estrutura de vários níveis internos, diz Faria. A rotatividade na região, segundo ele, é de cerca de 30% da que a AeC tem em São Paulo, onde o mercado de trabalho está mais aquecido.

Nos setores que demandam mão de obra especializada, há o agravante de deficiências persistentes do país na formação técnica e superior. Petroleiras e seus fornecedores de serviços e equipamentos têm dificuldades para ocupar funções de nível técnico, principalmente nas áreas de soldagem, química e instrumentação, e de nível superior, como engenheiros de petróleo, civis, mecânicos e eletricistas, além de cientistas da computação e de dados e administradores.

Segundo o presidente executivo da Abespetro, Telmo Ghiorzi, o último levantamento realizado pela associação de fornecedores do setor com 35 empresas, em 2024, identificou 40 mil vagas abertas. Em toda a cadeia do petróleo, a entidade estima 64 mil vagas abertas.

As empresas do setor têm buscado parcerias com o Sistema S e universidades para aproximar a capacitação das necessidades da indústria, conta Ghiorzi. A Federação das Indústrias do Rio (Firjan) tem um programa para atualizar currículos, criar novas trilhas de formação e fortalecer a conexão entre a academia e as empresas no estado, maior produtor de petróleo do país.

Fenômeno demográfico

Para Karen Cubas, gerente da Universidade do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (UNIBP), a escassez de mão de obra no setor passa pela demografia. Profissionais mais velhos vêm se aposentando num momento de expansão acelerada de projetos offshore (em alto-mar), acima da capacidade de reposição.

Soma-se a isso a concorrência pelos jovens com outros setores, como tecnologia, energia verde e mercado financeiro, mesmo com salários altos. Um engenheiro recém-formado ganha entre R$ 8 mil e R$ 12 mil por mês no petróleo. Um técnico de instrumentação embarcado com cinco anos de experiência recebe entre R$ 15 mil e R$ 20 mil. Ganhos de soldadores, eletricistas e técnicos de manutenção vão de R$ 3,5 mil a R$ 6 mil.

A infraestrutura, aquecida pelas concessões, disputa esse mesmo tipo de profissional.

A Via Cristais, que opera 594 quilômetros da BR-040, entre BH e Cristalina (GO), faz parcerias com prefeituras para recrutar no interior, mas faltam profissionais de alta especialização como engenharia, geotecnia e drenagem. Enquanto funções operacionais costumam ser preenchidas em 30 dias, atrair profissionais de nível superior para a região das obras pode levar o dobro.

— São cargos bem especializados e específicos para o nosso negócio, precisam de conhecimento prévio — diz Érika Teofilo, gerente de Gente e Gestão da concessionária, ligada à Vinci Highways.

Eletricistas da EDP em campo — Foto: Divulgação/EDP
Eletricistas da EDP em campo — Foto: Divulgação/EDP

João Brito Martins, CEO da EDP América do Sul, multinacional portuguesa que atua em distribuição, transmissão, geração e comercialização de energia no Brasil, avalia que o desafio da mão de obra não se restringe a uma atividade ou faixa salarial:

— Vejo um problema transversal, de todas as posições, por diferentes razões — afirma, citando redução na formação de engenheiros e técnicos, por exemplo.

— Demora formar uma pessoa. No norte do Espírito Santo, onde somos distribuidora de energia, falta mão de obra. No período da colheita de café, há integrantes de nossas equipes que saem para passar dois meses colhendo café, porque paga mais. Sabem que têm a vantagem hoje para voltar, por terem a qualificação técnica.

Deu em O Globo
Ricardo Rosado de Holanda
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