Aposentadoria já não cobre as contas de milhões no Brasil: número de idosos trabalhando cresce 53% em dez anos e expõe a dura realidade de quem precisa seguir na ativa depois dos 60 - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Aposentados 13/06/2026 14:27

Aposentadoria já não cobre as contas de milhões no Brasil: número de idosos trabalhando cresce 53% em dez anos e expõe a dura realidade de quem precisa seguir na ativa depois dos 60

Aposentadoria já não cobre as contas de milhões no Brasil: número de idosos trabalhando cresce 53% em dez anos e expõe a dura realidade de quem precisa seguir na ativa depois dos 60

 

O Brasil está diante de uma mudança que passa pelas ruas, pelos aplicativos, pelos pequenos comércios e pelos serviços informais: cada vez mais idosos continuam trabalhando, mesmo depois dos 60 anos.

O que parecia exceção virou retrato nacional. E o dado mais forte assusta: a ocupação de pessoas 60+ cresceu 53% em dez anos.

A cena é conhecida por milhões de famílias. A aposentadoria já não fecha as contas, o custo de vida pesa, os remédios encarecem, o aluguel aperta e muitos brasileiros mais velhos seguem buscando renda onde conseguem. Nem sempre com carteira assinada. Nem sempre com proteção.

Muitas vezes, na informalidade.

O avanço que muda o rosto do mercado de trabalho

O número de idosos ocupados no Brasil avançou de forma constante entre 2016 e 2025, passando de 5,7 milhões para 8,7 milhões de trabalhadores com 60 anos ou mais, enquanto a presença dos jovens no mercado cresceu em ritmo muito menor.
O número de idosos ocupados no Brasil avançou de forma constante entre 2016 e 2025, passando de 5,7 milhões para 8,7 milhões de trabalhadores com 60 anos ou mais, enquanto a presença dos jovens no mercado cresceu em ritmo muito menor.

Um levantamento da Nexus, com base na PNAD Contínua, mostra que a quantidade de brasileiros com 60 anos ou mais trabalhando passou de 5,7 milhões para 8,7 milhões em uma década. Na prática, o país ganhou cerca de 3 milhões de trabalhadores idosos no período.

O salto chama atenção porque foi mais rápido que o próprio envelhecimento da população nessa faixa etária. Enquanto o grupo 60+ cresceu 37%, o número de ocupados nessa idade avançou 53%.

Isso revela um movimento maior do que uma simples mudança demográfica. O Brasil não está apenas ficando mais velho. O Brasil está ficando mais velho e trabalhando por mais tempo.

Hoje, um em cada quatro brasileiros com 60 anos ou mais está ativo no mercado de trabalho. A taxa de ocupação chegou a 25%, o maior patamar registrado entre 2016 e 2025 no levantamento.

Mais trabalho, mas pouca proteção

A informalidade segue muito mais alta entre trabalhadores com 60 anos ou mais no Brasil: mesmo com queda para 53% em 2025, a chamada geração prateada ainda aparece bem acima da média geral da população ocupada.
A informalidade segue muito mais alta entre trabalhadores com 60 anos ou mais no Brasil: mesmo com queda para 53% em 2025, a chamada geração prateada ainda aparece bem acima da média geral da população ocupada.

O número poderia parecer positivo à primeira vista. Afinal, mais pessoas idosas ativas podem significar autonomia, experiência e participação econômica. Mas a parte mais delicada aparece quando se olha para o tipo de ocupação.

Mais da metade dos trabalhadores 60+ está na informalidade. São 53% atuando sem a proteção típica de um emprego formal, em atividades como bicos, trabalhos autônomos, consultorias sem contrato, serviços por conta própria ou ocupações sem carteira assinada.

Esse percentual é bem maior que a média geral do país, que ficou em 38% no levantamento. Ou seja, o trabalhador idoso tem mais chance de estar fora da proteção formal do que a média nacional.

Esse é o ponto que transforma o dado em alerta. O avanço da ocupação 60+ não significa, necessariamente, que o mercado abriu boas vagas para idosos. Em muitos casos, mostra que a renda da família não fecha sem mais uma fonte de dinheiro.

Jovens crescem pouco, idosos avançam muito

A comparação com os jovens torna o cenário ainda mais impressionante. No mesmo período, o número de jovens ocupados cresceu apenas 8%, passando de 12,2 milhões para 13,1 milhões.

Enquanto isso, o contingente de trabalhadores 60+ disparou 53%. A diferença mostra uma alteração profunda na composição da força de trabalho brasileira.

O paradoxo também aparece no desemprego. O Brasil tinha 1,8 milhão de jovens desocupados, volume 8,3 vezes maior que o número de pessoas 60+ na mesma situação, estimado em 218 mil.

Mas isso não quer dizer que os idosos estejam vivendo um cenário confortável. A taxa de desemprego da geração 60+ caiu de 4% em 2016 para 2% em 2025, mas esse número baixo pode esconder uma realidade dura: muitos idosos não conseguem esperar por uma vaga ideal e acabam aceitando qualquer forma de renda.

A aposentadoria já não encerra a vida profissional

A permanência dos idosos no trabalho tem várias explicações. Uma delas é o aumento da longevidade. As pessoas vivem mais, têm mais autonomia e muitas querem continuar produtivas.

Mas existe outro lado muito mais sensível: a necessidade de completar renda. Aposentadoria, pensão ou ajuda familiar nem sempre acompanham o peso das despesas mensais. Saúde, alimentação, moradia e transporte pressionam justamente uma faixa etária que costuma ter gastos fixos elevados.

IBGE já havia mostrado que, em 2024, cerca de um em cada quatro idosos trabalhava no país. Também apontou que a população idosa passou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024.

Outro detalhe importante é o tipo de inserção. Entre os idosos ocupados, o trabalho por conta própria representava 43,3%. Esse dado ajuda a entender por que tantos brasileiros mais velhos aparecem em atividades autônomas, pequenos serviços e ocupações sem vínculo tradicional.

O impacto social por trás dos números

A explosão de idosos trabalhando também expõe um debate incômodo sobre etarismo, previdência, renda e qualidade das vagas. Muitas empresas ainda resistem a contratar profissionais mais velhos, mesmo quando eles acumulam experiência.

Com menos espaço no emprego formal, parte desse público acaba empurrada para o trabalho informal. Isso pode significar flexibilidade, mas também insegurança, renda instável e ausência de garantias.

FGV também identificou crescimento forte da chamada geração prateada no mercado, com avanço expressivo dos ocupados 60+ entre 2012 e 2024. O dado reforça que essa não é uma mudança passageira, mas uma tendência estrutural.

O Brasil está entrando em uma fase em que o envelhecimento da população vai alterar consumo, previdência, saúde, trabalho e renda familiar. E a presença crescente dos idosos no mercado é uma das faces mais visíveis dessa transformação.

Um país mais velho, trabalhando mais e com menos segurança

O crescimento dos idosos trabalhando não pode ser lido apenas como sinal de disposição ou vitalidade. Ele também revela um país onde muita gente chega à terceira idade sem poder parar.

O dado dos 53% de alta na ocupação 60+ impressiona porque mostra uma mudança rápida, profunda e desigual. Há idosos trabalhando por escolha, por propósito e por autonomia. Mas também há milhões trabalhando porque a conta não fecha.

É por isso que o tema importa agora. O Brasil está envelhecendo, mas ainda não resolveu como garantir renda, proteção e dignidade para quem passou décadas trabalhando.

E, enquanto essa resposta não vem, cada vez mais brasileiros com mais de 60 anos seguem nas ruas, nos balcões, nos aplicativos e nos pequenos negócios, tentando transformar experiência em sobrevivência.

 

Deu em CPG

 

 

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista