Pix e Zelle: qual é a diferença entre os sistemas de pagamentos brasileiro e americano que incomoda os EUA - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Bancos 07/06/2026 04:58

Pix e Zelle: qual é a diferença entre os sistemas de pagamentos brasileiro e americano que incomoda os EUA

Pix e Zelle: qual é a diferença entre os sistemas de pagamentos brasileiro e americano que incomoda os EUA

A grande repercussão política, nas redes sociais, das declarações do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), dadas na quarta-feira, em entrevista à rádio TMC, que comparam o Pix com o sistema de pagamentos americano Zelle, chamou a atenção para como o movimento global de digitalização das transações poderá reconfigurar esse segmento de mercado dos serviços financeiros.

No início da semana, a divulgação do relatório de conclusão da investigação administrativa sobre as práticas comerciais do Brasil pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que propôs sobretaxa de 25%, já tinha jogado o tema nos holofotes.

Especialistas viram no caso uma adesão do governo de Donald Trump ao lobby das operadoras de cartão, que perdem com a digitalização de transações financeiras.

Embora Eduardo Bolsonaro tenha comparado o Zelle com o Pix, há uma série de diferenças entre eles. O primeiro é uma plataforma privada — controlada por uma empresa pertencente a alguns dos maiores bancos americanos. O Pix é uma infraestrutura pública, criada pelo Banco Central (BC), à qual as instituições privadas se conectam. Tem como vantagens a rapidez e a facilidade nas transações, gratuitas para pessoas físicas, e é um sucesso entre consumidores.

O Zelle disputa mercado com outras plataformas privadas, como Cash App, da Block, empresa do cofundador do antigo Twitter Jack Dorsey, e pela Venmo, da PayPal.

Segundo Beny Fard, sócio da B8 Partners e especialista em negócios internacionais, essas plataformas cumprem papéis semelhantes ao Pix, porque permitem transferências instantâneas entre pessoas, mas são estruturalmente diferentes. As americanas funcionam como redes privadas.

No caso do Zelle, o app está restrito a cerca de 2,4 mil instituições que integram seu sistema. As transferências podem levar alguns minutos para serem concluídas, segundo a empresa.

— O que incomoda Washington é que o Pix corrói a receita de empresas como Visa e Mastercard no Brasil. Em 2025, os Estados Unidos abriram uma investigação comercial contra o Brasil citando o Pix como prática desleal, e chegaram a propor tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. O argumento americano é econômico: cada transação feita via Pix é uma transação que não passa pelos cartões americanos — disse Fard.

De acordo com Enrico Romanielo, sócio de direito concorrencial do Veirano Advogados, o Zelle é completamente diferente do Pix também em sua estrutura jurídica:

— O Zelle é mais limitado, funciona como uma camada de mensageria integrada a bancos participantes. O Pix foi criado e é amplamente regulamentado e fomentado pelo poder público, obrigatório para boa parte do mercado.

Elogio de Nobel

Na imprensa americana, o Zelle e seus concorrentes aparecem mais por causa de problemas do que pela popularidade e a inclusão financeira. No ano passado, o economista americano Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008, elogiou o PixEm texto no Substack, disse que o Pix seria “uma versão pública do Zelle”.

Segundo o jornal The Wall Street Journal, o Zelle se popularizou entre venezuelanos. Embora o uso fora dos EUA não seja permitido, comerciantes da Venezuela utilizam contas em bancos americanos para fazer transações. Já o New York Times tem registrado casos de fraudes.

Em janeiro, a Cash App firmou acordo judicial, concordando em pagar US$ 255 milhões, para encerrar um processo movido pelo Escritório de Proteção do Consumidor Financeiro (CFPB, na sigla em inglês), agência do governo americano que supervisiona o varejo financeiro. Ainda na gestão do democrata Joe Biden, no fim de 2024, o CFPB processou o Zelle e três de seus sócios — Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo — por terem desviado US$ 800 milhões dos clientes.

Como no Brasil, as plataformas americanas têm sido alvo de golpes. Por aqui, o Pix tem o Mecanismo Especial de Devolução (MED), para acompanhar o “caminho do dinheiro” em ocorrências de golpes e fraudes, que inclui o “botão de contestação”. Nos EUA, Zelle, Casa App e Venmo têm se esquivado de tentativas de responsabilização por transferências indevidas.

Para Rocelo Lopes, chefe do braço de moedas digitais da fintech RezolveAi, o sistema brasileiro é mais transparente:

— O Zelle manda instantaneamente a transação, mas não tem chaves diferentes, não mostra o nome do banco. E, controlado por bancos privados, nem todo sistema financeiro americano faz parte. O Pix traz mais informação e proteção, antes mesmo de gerar a transferência. No site do BC, dá para ver quais chaves estão cadastradas.

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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