Psicologia 27/05/2026 15:10
Anedonia: entenda a condição rara que faz com que as pessoas não gostem de ouvir música

Poucos sabem, mas existe uma explicação científica para aquelas pessoas que simplesmente não gostam de ouvir música. O fenômeno é conhecido como anedonia musical — uma condição rara em que o cérebro não experimenta prazer ao escutar melodias, ritmos ou canções, mesmo que não haja qualquer deficiência auditiva ou cognitiva.
Enquanto para a maioria das pessoas a música desperta emoções intensas, memórias afetivas e até reações físicas, como arrepios, indivíduos com anedonia musical escutam sons organizados apenas como estímulos neutros.
Eles reconhecem que aquilo é música, conseguem identificar estilos e compreender estruturas harmônicas, mas não sentem prazer algum.
A anedonia musical é considerada uma forma específica de anedonia — termo usado na psicologia para descrever a incapacidade de sentir prazer. Diferente da anedonia associada à depressão, nesse caso o fenômeno é isolado: a pessoa pode sentir prazer com comida, esportes, arte, relações sociais ou outras experiências, mas não com música.
Estudos indicam que cerca de 3% a 5% da população apresenta esse perfil. Não se trata de “falta de gosto” ou de rejeição cultural, mas de uma resposta neurológica distinta ao estímulo sonoro.
Para identificar pessoas com anedonia musical, pesquisadores desenvolveram um instrumento padronizado chamado Barcelona Music Reward Questionnaire (BMRQ). O questionário avalia o quanto a música é percebida como recompensadora em cinco dimensões:
Resposta emocional
Regulação do humor
Vínculo social
Movimento físico (como dançar)
Desejo de buscar novas experiências musicais
Indivíduos com anedonia musical costumam apresentar pontuações baixas em todas essas categorias. Em outras palavras, a música não os emociona, não altera seu humor, não cria laços sociais, não provoca vontade de se mover e tampouco desperta curiosidade por novos sons.
Exames de neuroimagem reforçam essa explicação. Estudos com ressonância magnética funcional mostram que, ao ouvir música, essas pessoas apresentam menor ativação do chamado circuito de recompensa — área cerebral associada ao prazer gerado por estímulos como comida, sexo, jogos ou arte.
Em indivíduos sem a condição, a música ativa fortemente regiões como o núcleo accumbens e o estriado ventral, liberando dopamina. Já nos anedônicos musicais, essa conexão entre áreas auditivas e centros de prazer é enfraquecida. O som é processado normalmente, mas não “conversa” com o sistema que gera sensação de recompensa.
Curiosamente, essas mesmas pessoas respondem de forma típica a outros estímulos prazerosos, o que confirma que não se trata de um bloqueio emocional geral, mas de uma especificidade neurológica ligada à música.
As causas da anedonia musical ainda não são totalmente conhecidas, mas evidências apontam para uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Pesquisadores suspeitam que diferenças na conectividade cerebral possam ser herdadas, enquanto experiências de vida e exposição cultural também influenciam a forma como o cérebro associa sons a emoções.
A condição não é considerada uma doença nem requer tratamento. Ela apenas revela que o prazer musical, tão universal em aparência, não é biologicamente garantido. O que para muitos é uma das experiências mais intensas da vida, para outros é apenas um ruído organizado — sem emoção, sem arrepio, sem trilha sonora.
Deu em Revista Fórum

Descrição Jornalista
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