Uma especialista em comportamento ouviu a geração Alpha e grupos 50+ (e teve uma surpresa) - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Comportamento 31/10/2026 17:17

Uma especialista em comportamento ouviu a geração Alpha e grupos 50+ (e teve uma surpresa)

Uma especialista em comportamento ouviu a geração Alpha e grupos 50+ (e teve uma surpresa)

Publicitária e especialista em estudos do comportamento, Rita Almeida ficou surpresa ao comparar os resultados de duas pesquisas que ela própria conduziu: AdoRlescêcia (2026), focada nos adolescentes e lançada no começo deste ano; e a Revolução da Longevidade (2023), que entrevistou pessoas que já passaram dos 50 anos (entenda a metodologia da pesquisa abaixo).

De um lado, ela encontrou uma nova geração insegura, acanhada, temerosa com o futuro e trocando o tempo de festas para ficar nas redes sociais dentro do quarto. Por outro, se deparou com um grupo de pessoas mais velhas – a quem ela chama de “longevos” – estimuladas, fazendo planos e buscando desfrutar a vida o máximo que conseguem.

“Onde a gente esperava a paradeira, a gente está vendo pulsão de vida”, disse a publicitária em conversa com o Estadão.

Rita é líder do Lab Humanidades, uma área de estudos de comportamento da agência publicitária AlmapBBDO, responsável pelas pesquisas.

“Eles (os adolescentes) estão sonhando concreto, dada toda essa insegurança que a gente falou. Em compensação, os longevos são puro sonho. Eles acham que tudo ainda dá para construir”, destaca.

Outros achados dão a medida das diferenças: viajar, estudar e morar fora é “o maior sonho” de apenas 4% dos adolescentes, aponta o AdoRlescência. Já 46% do público acima dos 60 anos afirmam “estar viajando igual ou mais que há 10 anos”, mostra o Revolução da Longevidade.

No levantamento com os jovens, 31% dizem sair com os amigos no tempo livre e apenas 11% falam em ir para festas. Entre os “longevos”, 66% “receberam amigos em casa no último mês”, segundo o estudo feito com este grupo.

E fazer faculdade é o maior sonho de apenas 6% dos adolescentes entrevistados. Enquanto 68% dos 60+ afirmam que “manter a mente ativa é o principal pilar do bom envelhecimento”.

Diante das diferenças, Rita identificou que tanto jovens como os mais velhos sofrem de etarismo no ambiente de trabalho. Daí a importância de ambos os grupos se aproximarem.

“Ao estudar os longevos e os adolescentes, reafirmei uma crença que tinha há muito tempo: a longevidade só vai ser possível se a gente adquirir uma mentalidade de intergeracionalidade. Seja no trabalho, seja na vida”, diz.

Veja os principais trechos da entrevista.

Vocês mencionaram ter a expectativa de encontrar uma adolescência mais pujante, com pulsão de vida, e um grupo da terceira idade já na fase da desaceleração. Os resultados foram diferentes. Quais os principais pontos que explicam essas diferenças?

É cultural. Na hora que a gente pensa em envelhecer ou na longevidade no Brasil, pensa em desacelerar, parar de trabalhar, de desejar, de sonhar. E, de um jeito ou de outro, fomos com uma expectativa parecida para o campo, falar com as pessoas acima de 50 anos do Brasil.

Fomos para a rua falar com os 50+ e encontramos uma população dessa idade correndo. Cheia de planos, de sonhos, contando para a gente que estava viajando. Onde a gente esperava a paradeira, está vendo pulsão de vida.

Em relação aos adolescentes, a gente foi esperando o quê? “Eles só querem balada.” A gente foi com esse espírito e encontrou um adolescente que não era nada disso. Predominava o medo, a insegurança, a ansiedade e a depressão. E a gente vê que os índices de ansiedade e depressão, pelo menos segundo o SUS, aumentaram 2.200% na última década.

É muita gente.

É uma epidemia. E entendemos que está difícil para ele pensar no futuro, sendo o futuro tão incerto. A inteligência artificial tira todo mundo do lugar, há medo do desemprego. Os adolescentes ficam perdidos em relação a qual horizonte vão encontrar para poder se planejar.

Eles também têm medo de os pais perderem o emprego – 45% deles têm medo disso – e, ao mesmo tempo, há um grande agradecimento aos pais. Uma gratidão pelo fato de saberem que os pais vivem em um mundo volátil e difícil de se segurar. Mas, ao se esforçar de maneira absurda, os pais deixam de lado algumas coisas que seriam muito importantes para os seus filhos.

Vocês encontraram no estudo que os atuais adolescentes carregam um sentimento de solidão (76% dizem isso), sentem incapacidade de serem compreendidos (68% respondem que as emoções não são levadas a sério); e também sentem pressão por resultados. Qual é o papel das redes sociais na modelagem dessa personalidade, que aparece como a atividade de maior frequência quando eles responderam sobre o que fazem no tempo livre.

É, mais do que tudo, a comparação. Você está o tempo todo se comparando. Não só em termos estéticos, mas também em performance. Seja no treino físico, seja nas notas. Os adolescentes que já estão criando business (negócios) e tudo mais. Sempre a expectativa é muito mais alta do que eles acham que poderão atingir. A rede social é muito nociva nesse sentido, da comparação.

E a outra coisa que se teme muito é o tamanho que um erro pode tomar na rede social. Antes, um erro ficava em âmbito mais íntimo, da família, dos amigos próximos da escola. Hoje, um erro pode ser espetacular. Isso gera neles um medo de errar. E eles estão justamente no momento de tentar. E não é possível tentar se você não admitir que pode ser que erre. Esse medo precisaria muito deixar de existir. É outra consequência das redes sociais.

Pesquisa do Lab Humanides aponta que mais da metade dos adolescentes (52%) tem como principal atividade de tempo livre o uso de redes sociais. Foto: Pixarno/Adobe Stock

É curioso porque as redes sociais parecem ser aversivas, mas, mesmo assim, eles continuam muito inseridos nelas. Há outras razões que os fazem permanecer nesse ambiente que é tóxico para eles?

A razão disso são os pais. Os adolescentes ficam mais em casa do que fora de casa. Esse é o pensamento do Jonathan Haidt (autor do livro A geração ansiosa), que fala que a porta da rua é fechada enquanto a da internet é escancarada. Os pais têm medo da segurança porque, especialmente nos grandes centros, a gente vive uma vida muito insegura. (Os pais) Têm medo tanto de assaltos quanto de más companhias também.

Quando a gente pergunta para os adolescentes: ‘Você gostaria de ter mais liberdade para quê?’, tudo o que citam é fora de casa: para ver os amigos, ir a festas, não ter hora para voltar. Eles estão precisando disso. O adolescente não está fora de casa com os amigos, onde quer estar, tendo as experiências que gostaria de ter.

Se ele não está encontrando esse acolhimento dentro de casa com os pais, é na rede social que encontra esse acolhimento? Para onde ele vai buscar esse cuidado?

Vale a pena falar sobre o acolhimento. Porque existe muito amor. 98% dos adolescentes falam que amam seus pais em algum nível. Mas existe uma questão que quebra essa relação, que é o fato de os pais não ouvirem. Praticamente 70% dos adolescentes sentem que não são ouvidos nem validados pela sociedade adulta e tampouco pelos seus pais dentro de casa. Quando se trata de emoção, de sentimento, eles se sentem pouquíssimo ouvidos. Porque a tendência dos pais é dizer: “Você está exagerando, isso não é nada”.

Isso alimenta a insegurança também?

Total. Ele se sente invalidado. Não tem nada pior do que isso.

Agora vamos fazer a ponte para os mais longevos. Vocês encontraram no estudo que eles estão mais dispostos a viajar, receber mais amigos e até a comprar imóveis ou reformar a casa que já têm. Quais fatores explicam esses comportamentos?

São muitos fatores que se somam. O primeiro deles é a realidade. Antes, a expectativa de vida média do brasileiro era de 55 anos. Hoje é para mais de 70 anos. Você ganha vida e precisa saber o que fazer com ela. Há ganhos importantes, como mais liberdade, mais autenticidade, mais coragem para falar o que realmente sente, para fazer escolhas. E continua com uma pulsão de se relacionar socialmente, namorar. O Brasil é um País altamente desigual e, quando entra a variável financeira, isso pode mudar muito. Mas a tendência é de que as pessoas vejam que viver até mais tarde é bom. E pode descobrir outras possibilidades.

Estudo aponta que os mais velhos apresentam maior disposição e vontade de fazer novos planos. Foto:

Vocês citam que os adolescentes têm mais medo do futuro do que os mais velhos. O que explica essa diferença de perspectiva sobre o tempo?

Para os mais novos, isso (o futuro) assusta. Parece longe, mas assusta. E os mais velhos já vivem isso e estão vendo que a realidade pode ser melhor do que a imaginada; veem que não vai acabar. Existe, sim, um medo. Na nossa amostra, 45% das pessoas mais velhas têm medo de perder a autonomia, seja através de alguma doença ou questões financeiras. E, curiosamente, só 18% declararam que guardam dinheiro para o futuro. Não é uma coisa que eles vislumbram como uma preparação ou um antídoto para esse medo.

Quando questionam os mais velhos sobre os pilares de um bom envelhecimento, quais as respostas mais frequentes?

Laços sociais, se manter atualizado, saúde física e mental, e importância do autocuidado. E isso foi verdade nas classes C/D também. A questão do autocuidado é interessante. E, quando você compara esses capitais caros e importantes para os longevos, eles deixam escapar dois deles que são importantes. Um é o financeiro; o outro é o do conhecimento. No mundo de transformação, se você não tiver uma vida de longo período de estudo — ou seja, estudar a vida inteira, ter essa perspectiva —, não é possível acompanhar.

O mundo exige essa reciclagem cada vez mais instantânea, ainda mais com a IA.

A grande discussão no mercado de trabalho é que um dos problemas com o longevo é que o mercado de trabalho não abre as portas. Uma grande quantidade continua trabalhando, mas a informalidade no Brasil é imensa. Ninguém admite pessoas com mais de 50 anos. E isso é um grande erro porque, até para o jovem, é importante ver o mais velho numa situação de trabalho para entender que a vida dele continua também.

E a resposta mais presente sobre os sonhos dos adolescentes é ter carreira sólida, certo?

Exato. O maior problema do longevo para o mercado de trabalho é que ele não acompanha a tecnologia. Vejo de outro jeito: o quanto uma pessoa longeva já acompanhou de tecnologia e, de um jeito ou de outro, se aprofundou nela. A IA realmente é um degrauzão, que não sei como vai ser. Mas acho que a gente poderia olhar mais para o quanto a longevidade já experimentou de transformações e está aqui, em pé, fazendo o que tem de fazer ainda.

Sobre os sonhos dos adolescentes, isso me surpreendeu muito. Achei que fossem ter sonhos como viajar, estudar fora, morar fora. Os dez primeiros sonhos que apresentaram para nós eram ligados a carreira, universidade, mercado de trabalho e solidez financeira.

E o que isso significa?

Muitos especialistas falam da importância do sonho. Se você não sonha, não consegue realizar uma transformação ou algo maior do que o que faz hoje. O psicanalista Alexandre Coimbra fala que sonhar não é planejar. Sonhar é viajar para mundos em que você nem está, quem sabe um dia nem chegue, mas que você possa imaginar.

É isso o que os adolescentes não conseguem nesse momento: sonhar. Estão sonhando concreto, dada toda essa insegurança. Em compensação, os longevos são puro sonho. Acham que tudo ainda dá para construir.

Como é que a geração mais nova pode aprender com a geração mais velha e vice-versa?

Ao estudar os longevos, e depois os adolescentes, reafirmei uma crença que tinha já: de que a longevidade só será possível se adquirirmos uma mentalidade da intergeracionalidade, seja no trabalho, seja na vida. O longevo pode muito estar junto com a geração Z, com os adolescentes, porque essa troca vai se multiplicar. E eles são muito abertos para isso. Os longevos são mais abertos do que os jovens.

Quanto a geração mais experiente pode ajudar quem está começando agora no mercado de trabalho, já que os mais jovens são tão ansiosos sobre isso?

O mais interessante é que existe um etarismo tanto relacionado à geração Z quanto aos longevos. A gente ouve falar toda hora que a geração Z não quer nada com nada, só querem ser promovidos, ganhar muito entregando menos, não sabem o que é trabalhar e tal. E que os longevos não acessam a tecnologia, se comunicam de um jeito diferente. Mas isso é razão para não abrir as portas? Existe um etarismo em relação às duas pontas. E a solução é esquecer esses preconceitos todos e se abrir para ouvir o outro, porque a escuta é um grande negócio.

Os próprios jovens que se queixam de não serem ouvidos também não parecem abertos a ouvir os mais velhos?

Não estão abertos. Até por uma projeção, porque, na hora que você escuta o mais velho, você se vê naquele lugar. E os mais velhos, esses, sim, estão abertos para criar com os mais jovens e promover a intergeracionalidade. Por isso digo que só precisa de portas abertas quando eles estiverem.

Estudo a Teoria U, feita no MIT (sigla em inglês para Instituto de Tecnologia de Massachusetts) pelo (economista) Otto Scharmer. Dentro da Teoria U tem um processo de escuta com quatro níveis: 90% do tempo a gente fica no primeiro nível, em que você só confia no que você já sabe. Aí vai descendo, você ouve com o coração, depois com empatia, e depois com intuição.

Mas é muito difícil a gente escutar hoje. Isso é para o adolescente, para os pais dos adolescentes, para os CEOs, para toda a população. Vamos escutar mais. Isso vai transformar a nossa sociedade.

Metodologia das pesquisas

No estudo Revolução da Longevidade, a pesquisa foi realizada com 1.055 pessoas, das classes A, B, C, D e E, de regiões diversas do Brasil. Nas classes A, B e C, os participantes da pesquisa tinham entre 20 e 85 anos. Das classes D e E, entre 50 e 85 anos e moravam todos em Paraisópolis, em São Paulo.

Já no estudo Adorlescência (2026), o levantamento foi feito com 2.800 pessoas das classes ABC. Sendo:

  • 1.600 adolescentes de 13 a 17 anos
  • 1.200 pessoas da população adulta, sendo 299 pais de adolescentes.

Foram feitas também 85 entrevistas no modo qualitativo

  • 6 discussões em grupo, sendo 12 grupos com adolescentes e 4 com pais de adolescentes.

As regiões onde foi realizado o levantamento não foram especificadas.

Deu em Estadão

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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