Economia 08/05/2026 11:03
O que será tratado nos 30 dias de negociação entre Brasil e EUA

As divergências entre as delegações brasileira e norte-americana sobre as tarifas econômicas impostas pelos Estados Unidos desde julho de 2025 não foram resolvidas durante o encontro entre Donald Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado nessa quinta-feira (7/5).
Apesar do impasse, Lula afirmou estar otimista com o andamento das negociações. Segundo o petista, ele discutiu com Trump a criação de um grupo de trabalho entre os dois países para tentar resolver o conflito comercial. A proposta prevê que equipes técnicas apresentem uma solução em até 30 dias.
De acordo com especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o prazo, embora curto para avanços concretos na derrubada do tarifaço, pode representar uma “janela de oportunidade” política para ambos os governos em meio a cenários eleitorais estratégicos.
“Esses 30 dias são uma janela de oportunidade para Lula, que, em um contexto eleitoral, precisa mostrar ao eleitor brasileiro que consegue negociar com Trump em igualdade”, afirma o especialista em investimentos e negócios internacionais Beny Fard.
Enquanto isso, o presidente americano precisa apresentar resultados comerciais concretos e uma “pauta positiva” antes das eleições de “midterms” em novembro.
O trabalho das delegações deve se concentrar na retirada ou, pelo menos, na redução das tarifas norte-americanas impostas ao aço e alumínio brasileiro, que seguem com sobretaxa de até 50%.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), cerca de 29% das exportações brasileiras aos EUA ainda estão submetidas a alíquota.
Na avaliação de Beny Fard, especialista em investimentos internacionais, existe um obstáculo central para o avanço das negociações.
Os Estados Unidos sustentam que o Brasil cobra uma média de 12% sobre os produtos americanos, enquanto o governo brasileiro apresenta dados de que a média tarifária é de apenas 2,7%.
“Essa divergência de quase 10 pontos percentuais, ligada à metodologia utilizada, pode inviabilizar qualquer acordo. Os dois lados estariam negociando com base em números que não estão alinhados nem possuem reconhecimento mútuo”, explica.
O grupo de trabalho também deve discutir o encerramento da investigação comercial aberta pelos EUA com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, que questiona supostas “práticas comerciais brasileiras”.
A gestão Trump vê o sistema de pagamentos instantâneos Pix como uma possível “prática desleal”, sob a alegação de que o modelo reduz espaço de empresas norte-americanas de cartões de crédito, como Visa e Mastercard.
O Brasil, por outro lado, defende o Pix como uma “inovação soberana” e uma infraestrutura digital estratégica da qual não pretende abrir mão. O governo brasileiro não reconhece a legitimidade da investigação e argumenta que ela contraria as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Na avaliação de Laci Marcos Dias, professor universitário de direito processual civil, a delegação brasileira, entretanto, poderia aceitar discutir aspectos técnicos do funcionamento do sistema para reduzir resistências e evitar “lobby indevido” contra o país.
Apesar das tensões, o Brasil não chega enfraquecido à mesa de negociação.
“Sem dúvidas, as principais cartas do Brasil são o tamanho do mercado interno, a força do agronegócio e a dependência que os EUA têm dos nossos minérios, ferro e terras raras”, afirma Laci Marcos Dias.
Para ele, existe margem para avanço da pauta e até para um eventual recuo parcial do tarifaço, embora o resultado dependa da condução política dos dois governos.
O movimento estratégico foi evidenciado pelo presidente Lula após o encontro com Trump nessa quinta. Durante coletiva de imprensa, ele destacou que o Brasil não tem preferência de países para fechar parcerias sobre minerais críticos e terras raras.
“Não temos preferência. O que queremos é fazer parceria com empresas americanas, chinesas, francesas. Quem quiser ajudar o Brasil a desenvolver mineração, processamento e produção ligada às terras raras será bem-vindo”, declarou o petista.
Segundo Lula, o tema foi debatido diretamente com Trump durante a reunião na capital norte-americana.
Para o professor de Relações Internacionais Lucas Portela, a disputa global por commodities estratégicas pode ampliar o peso brasileiro nas negociações. “Os EUA sabem que o Brasil tem margem para ampliar relações com China, Brics e outros parceiros, o que aumenta seu peso estratégico na negociação”, afirma.
Atualmente, a China domina 90% do processamento global desses minerais e costuma restringir as exportações em momentos de conflito, como ocorreu recentemente no Estreito de Ormuz. Nesse cenário, o Brasil poderia representar para os EUA uma parceria confiável para garantir o suprimento desses materiais, considerados essenciais.
Segundo o internacionalista, o Brasil chega à mesa de negociação em uma posição de “equilíbrio pressionado”.
“Não está fraco, porque tem mercado, alimentos, energia, minerais e relevância geopolítica. Mas também não está em vantagem plena, porque está negociando para reduzir danos já criados por tarifas e pressões norte-americanas”, explica Portela.

Descrição Jornalista
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