Drogas 27/05/2026 17:03
O cigarro voltou? Pneumologista alerta para nova geração de fumantes

Durante anos, fumar deixou de ser sinônimo de status para virar sinônimo de alerta. O cigarro desapareceu de bares, restaurantes e ambientes fechados, impulsionado por campanhas antitabagismo e pela Lei Antifumo, que fez do Brasil referência mundial no combate ao tabagismo.
Mas, nos últimos anos, uma sensação tem chamado atenção de médicos e até de quem frequenta bares e festas: a volta do cigarro à “moda”.
Se antes a fumaça tóxica parecia distante da rotina social, hoje ela reaparece em versões coloridas, aromatizadas e tecnológicas. “Infelizmente, temos notado um retrocesso preocupante”, afirma a pneumologista Bianca Espíndula, da Hapvida.
“O Brasil vinha sendo exemplo mundial no combate ao tabagismo, mas os dispositivos eletrônicos mudaram esse cenário e acabaram funcionando como uma porta de entrada para as novas gerações”, explica a médica.
Segundo apontamento do Ministério da Saúde, houve um crescimento de 25% no número de fumantes no Brasil entre 2023 e 2024. Ainda de acordo com o Governo, mais de 174 mil pessoas morrem a cada ano por doenças causadas pelo tabaco.
O impacto total do tabagismo no SUS é de R$ 153 bilhões por ano, sendo que apenas 5% desse valor é arrecadado em impostos com a venda de cigarros.
O debate ganha relevância neste 31 de maio, Dia Mundial Sem Tabaco, data criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) justamente para alertar sobre os impactos do cigarro e da nicotina à saúde.
Com design tecnológico, cores chamativas e sabores adocicados, o cigarro eletrônico é apontado como principal atrativo. “Isso tirou o estigma do cigarro tradicional e criou uma falsa sensação de que o vape é inofensivo”, diz Bianca.
Em bares, festas e até ambientes fechados, o consumo voltou a ganhar certa naturalidade, algo impensável anos atrás. “O maior risco da aceitação social é justamente transformar o tabagismo em algo comum novamente. Quando o cigarro reaparece nas rodas de amigos, nos filmes, séries e redes sociais, a barreira da prevenção enfraquece”, alerta a especialista.
Segundo ela, isso faz com que adolescentes e jovens experimentem cada vez mais cedo a nicotina e criem dependência antes mesmo de compreender os impactos à saúde.
O alerta não é apenas brasileiro. Em abril deste ano, o Reino Unido aprovou uma legislação histórica que proíbe a venda de cigarros para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009, numa tentativa de criar a primeira geração livre do tabaco.
A medida surge justamente em meio ao crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens em diversos países.
Um dos pontos que mais preocupam os especialistas é a ideia de que fumar socialmente não faz mal. “É fundamental deixar claro que não existe nível seguro para consumo de nicotina”, afirma a pneumologista.
Mesmo quem fuma apenas em festas ou fins de semana já provoca danos importantes ao organismo. “O pulmão sofre inflamação desde as primeiras exposições. E, no caso dos vapes, muitos dispositivos possuem concentrações altíssimas de nicotina, equivalentes a maços inteiros de cigarro tradicional”.
A médica da Hapvida explica, ainda, que o vapor inalado também contém metais pesados e substâncias tóxicas capazes de provocar lesões pulmonares graves. “Hoje já lidamos com a EVALI, uma lesão pulmonar aguda associada aos cigarros eletrônicos e que pode levar jovens rapidamente à UTI”, alerta.
E mesmo quem nunca fumou também pode pagar a conta. De acordo com Bianca, o fumo passivo continua subestimado. “A fumaça do cigarro e o vapor exalado pelos eletrônicos carregam substâncias cancerígenas em altas concentrações. Não é apenas um cheiro ruim: é inalação de veneno”, afirma.
As crianças estão entre as mais vulneráveis ao fumo passivo. “Elas sofrem muito com crises de asma, bronquite, pneumonias e infecções de ouvido quando convivem com fumantes em ambientes fechados”, explica a médica.
Embora muitos jovens acreditem que os efeitos só apareçam no futuro, o organismo costuma reagir rapidamente ao cigarro. Entre os primeiros sinais estão: falta de fôlego; cansaço físico; tosse persistente; infecções respiratórias frequentes; perda de paladar e olfato; envelhecimento precoce da pele; dentes amarelados e mau hálito.
“Os jovens costumam achar que são invencíveis, mas o corpo avisa cedo”, ressalta a médica.
Deu em Saúde em Dia

Descrição Jornalista
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