Enquanto 14,8 milhões de trabalhadores esperam o fim da escala 6×1, Flávio Rocha, dono da Riachuelo, afirma que os custos do varejo vão subir até 20%, diz que as empresas vão repassar tudo ao preço ou demitir em massa e chama o debate de ‘populismo’ em ano eleitoral - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Empresas 02/06/2026 11:36

Enquanto 14,8 milhões de trabalhadores esperam o fim da escala 6×1, Flávio Rocha, dono da Riachuelo, afirma que os custos do varejo vão subir até 20%, diz que as empresas vão repassar tudo ao preço ou demitir em massa e chama o debate de ‘populismo’ em ano eleitoral

Enquanto 14,8 milhões de trabalhadores esperam o fim da escala 6×1, Flávio Rocha, dono da Riachuelo, afirma que os custos do varejo vão subir até 20%, diz que as empresas vão repassar tudo ao preço ou demitir em massa e chama o debate de ‘populismo’ em ano eleitoral

 

A PEC que acaba com a escala 6×1 foi aprovada na Câmara dos Deputados na quarta-feira (27) com 461 votos a favor e apenas 19 contrários.

Agora o texto está no Senado. Enquanto 14,8 milhões de trabalhadores aguardam a promulgação, o setor empresarial segue na ofensiva contra a mudança e um dos nomes mais conhecidos do varejo brasileiro entrou no debate com números que rapidamente dividiram opiniões.

Flávio Rocha, herdeiro do Grupo Guararapes e dono da Riachuelo, afirmou no sábado (23), durante painel do Fórum Brasil 2026, no Guarujá (SP), que o fim da escala 6×1 vai elevar os custos do varejo entre 18% e 20%, pressionar a inflação e forçar as empresas a escolher entre duas saídas: repassar tudo ao preço ou demitir.

O que Flávio Rocha disse no Guarujá

A declaração foi feita no mesmo evento onde o apresentador Luciano Huck gerou polêmica ao criticar o Bolsa Família dias antes. Rocha participou de um painel sobre economia e trabalho e foi direto ao ponto.

“No caso do varejo, o impacto é maior, porque o setor é mais dependente de mão de obra. Então, imaginamos que o custo vá subir na casa de 18% a 20%”, afirmou o empresário. “Isso vai precisar ser repassado aos preços, para preservar margens, ou levará à redução do número de empregados.”

Segundo Rocha, estudos internos da Riachuelo apontam impacto médio de 13% nos custos gerais das empresas com a mudança da jornada.

No varejo, por ser um setor com alta dependência de pessoal, o efeito seria ainda mais severo. O empresário alertou que o maior risco recai sobre as pequenas e médias empresas, que hoje respondem pela maior parte dos empregos formais do país e, segundo ele, não teriam fôlego para absorver o aumento de custos sem cortar vagas ou fechar as portas.

Rocha defendeu maior flexibilidade para setores que precisam operar em mais dias da semana, como indústrias, restaurantes e salões de beleza.

Para ele, uma regra única e nacional engessaria atividades que dependem de horários variáveis para funcionar. O empresário chegou a reconhecer que o debate sobre jornada e qualidade de vida é legítimo, mas afirmou que o tema está sendo conduzido com “populismo” em ano eleitoral, sem análise adequada dos impactos econômicos reais.

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O que a PEC aprovada realmente muda

A PEC 221/19, aprovada pela Câmara, determina a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, e garante dois dias de descanso por semana, sendo um preferencialmente aos domingos. A implementação acontece em etapas:

A jornada cai de 44 para 42 horas nos primeiros 60 dias após a promulgação. Chega a 40 horas depois de 14 meses. O texto ainda permite que acordos coletivos ajustem a distribuição das horas dentro da semana.

Segundo o Ministério do Trabalho, dos 50,3 milhões de vínculos registrados no eSocial, 14,8 milhões operam hoje na escala 6×1.

Os outros 29,7 milhões já trabalham 40 horas semanais ou menos. O ministro Luiz Marinho usou esse dado como argumento central: se dois terços das empresas já adaptaram seus modelos, o impacto de universalizar a mudança seria administrável.

O que o Ipea diz sobre os números de Flávio Rocha

Os números apresentados por Rocha no Guarujá estão bem acima das estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Em nota técnica publicada em fevereiro de 2026, o instituto calculou que a redução da jornada para 40 horas elevaria o custo do trabalhador celetista em média 7,84%. Quando esse aumento é diluído no custo operacional total das empresas, o impacto real cai muito.

Na indústria e no comércio, o custo adicional ficaria abaixo de 1% do custo operacional. Nos setores de serviços com alta dependência de mão de obra, como vigilância e limpeza, o impacto poderia chegar a 6,5%, ainda muito abaixo dos 18% a 20% projetados pela Riachuelo.

O economista Felipe Pateo, autor do estudo do Ipea, foi além e criticou diretamente os cálculos apresentados por entidades empresariais. Segundo ele, a projeção de aumento de 21% no custo do trabalho divulgada pela Confederação Nacional do Comércio “não demonstra de forma transparente” como chegou a esse número.

“Matematicamente, não tem como esse aumento ser maior do que 10%, porque é exatamente o tempo de horas que o empregador vai precisar compensar”, explicou.

O Ipea também comparou o impacto da medida a reajustes históricos do salário mínimo, como os de 12% em 2001 e 7,6% em 2012, que não geraram queda no nível de emprego. Para o instituto, o mercado de trabalho brasileiro tem capacidade de absorver a mudança, desde que haja um período adequado de transição para setores mais sensíveis e para pequenas empresas.

Os números que o empresariado não costuma citar

Uma pesquisa da Unicamp, coordenada pela economista Marilane Teixeira, aponta que a redução da jornada de 44 para 40 horas tem potencial de criar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil, já que as empresas precisariam contratar mais pessoas para cobrir o mesmo volume de horas. O mesmo estudo projeta ganho de 4% na produtividade com a medida.

Levantamento do Dieese encomendado pela Contraf-CUT calcula que, só no setor bancário, a jornada de quatro dias poderia criar mais de 108 mil vagas novas, equivalente a 25% do total de empregados no setor hoje.

Datafolha mostrou em março de 2026 que 71% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1, número que subiu em relação aos 64% registrados em 2024. Entre os próprios trabalhadores que hoje cumprem a escala 6×1, 68% são favoráveis à mudança.

Por que o debate ainda não está encerrado

Mesmo com a PEC aprovada na Câmara por placar histórico, o Senado ainda pode alterar o texto antes de promulgá-lo. Senadores já aprovaram requerimento para realizar uma sessão temática sobre os impactos econômicos e sociais da medida antes de votar.

O cenário político adiciona uma camada ao debate. Com eleições presidenciais em 2026, a pauta da escala 6×1 virou termômetro eleitoral.

O governo Lula abraçou o tema publicamente no Dia do Trabalhador, reconhecendo o peso político de uma proposta com 71% de aprovação popular. O empresariado, por sua vez, intensificou o lobby no Senado, apostando em alterações no texto que flexibilizem a aplicação setorial da medida.

Flávio Rocha não é o único empresário no campo contrário. O dono da Havan, Luciano Hang, já havia chamado a proposta de “populismo” em 2024.

Mas a voz do dono da Riachuelo ganhou peso extra por ter sido dita no mesmo Fórum Brasil 2026 que concentrou as declarações mais polêmicas da semana e num momento em que a votação na Câmara estava marcada para quatro dias depois.

O que as duas declarações têm em comum, a de Huck sobre o Bolsa Família e a de Rocha sobre a escala 6×1, é o lugar onde foram feitas: um evento fechado de empresários no litoral paulista, a poucos dias de votações decisivas no Congresso.

O que separa os dois casos é que, no da escala 6×1, os números do Ipea chegaram antes da polêmica e o debate de dados já estava posto quando Rocha subiu ao palco.

 

 

Deu em CPG

 

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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