Internet 06/06/2024 06:55
Deu no The New York Times: Indígenas na Amazônia recebem internet da Starlink
A empresa de Elon Musk fechou uma parceria com o governo brasileiro em 2022; mais velhos reclamam de "vício" dos mais novos nas redes.

Em maio de 2022, o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, anunciou uma parceria com a empresa Starlink, de Elon Musk, para levar internet a áreas remotas da Amazônia.
A promessa, à época, era conectar 19 mil escolas na região, além de monitorar o crescente desmatamento da floresta.
Segundo informa o atual presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Carlos Baigorri, porém, isso não aconteceu. Nem uma coisa nem outra. Ele deu a declaração em entrevista ao jornal americano The New York Times.
O próprio Times informa, em outra reportagem, que a internet via satélite da Starlink chegou sim à região, mas não foi para as escolas nem para o monitoramento ambiental. A internet chegou para tribos indígenas.
Até mesmo para algumas isoladas, ou seja, que não tinham contato com o “homem branco”.
Uma equipe do jornal americano viajou para as profundezas da floresta amazônica e presenciou como a chegada da web afetou o povo Marubo – positiva e negativamente.
Os Marubos vivem há muito tempo em malocas espalhadas por centenas de quilômetros ao longo do rio Ituí. Para chegar lá, os americanos tiveram que fazer uma viagem de 7 dias.
Os Marubos falam sua própria língua, tomam chá de ayahuasca para se conectar com os espíritos da floresta e mantém macacos-aranha como animais de estimação. Esses são costumes que a tribo adota há séculos, mas que estão perdendo força entre as novas gerações, por causa da internet.
O serviço de alta velocidade da Starlink chegou ao local em setembro de 2023. Em 9 meses, os indígenas passaram a conviver com desafios muito parecidos com os da nossa sociedade:
Não que tudo listado acima seja um problema. Mas virou para os indígenas, como explica Tsainama Marubo, de 73 anos:
“Os jovens ficaram preguiçosos por causa da internet. Eles estão aprendendo os costumes dos brancos.”
Ela disse que os mais novos não estão mais interessados em seguir as tradições da tribo, como fazer tinturas e joias. Alguns deixaram até mesmo de caçar e pesca Eles também estão menos concentrados e perdendo o foco facilmente.

Apesar das críticas, a mesma Tsainama Marubo disse que não abre mão da internet. De jeito nenhum. A tecnologia trouxe outros tantos benefícios à aldeia.
Os indígenas conseguem conversar agora com pessoas à distância, com entes queridos, conseguem enviar pedidos de ajuda em caso de emergências e ainda têm acesso mais fácil à informação.
Vale destacar que os Marubos não são considerados uma tribo isolada há muitas décadas. Eles eram até a chegada dos seringueiros à região. Apesar disso, eles mantiveram os mesmos costumes e tradições – que começaram a derreter agora, com apenas 9 meses de acesso à internet.
Assim como já aconteceu conosco, os indígenas estão descobrindo agora o dilema fundamental da grande rede global de computadores: ela se tornou essencial, mas tem um custo. Agora, cabe a eles debater maneiras de conciliar a modernidade com a sua própria identidade e cultura.
Isso se eles quiserem. A decisão deve ser dos Marubos e de mais ninguém.


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