Amazônia 14/03/2022 12:00
Como sucesso do açaí ameaça biodiversidade da Amazônia
O estudo, publicado no jornal acadêmico Biological Conservation, analisou 47 áreas na região da foz do rio Amazonas no Estado.

O açaí ganhou o mundo nas últimas décadas. A produção dessa fruta típica da região amazônica disparou, rendendo milhões de dólares para os produtores e gerando emprego e renda para muitas famílias ribeirinhas.
Mas toda essa demanda está cobrando um preço da Amazônia, segundo um novo estudo conduzido por cientistas brasileiros.
A pesquisa apontou que o cultivo do açaí está levando a uma perda significativa da biodiversidade.
Árvores-símbolo da Amazônia, como a samaúma e o jatobá, estão desaparecendo da paisagem e dando lugar a campos de monocultura da fruta.
O processo é tão intenso que já ganhou até nome de cientistas da área: é a “açaização” da Amazônia.
“Ao longo dos últimos 20 anos, áreas da floresta onde o açaí era cultivado lado a lado com outras espécies foram totalmente tomadas pelas palmeiras da fruta”, afirma o biólogo paraense Madson Freitas, principal autor do estudo, à BBC News Brasil.
Autoridades dizem que criaram regras para proteger a biodiversidade amazônica, e os produtores afirmam seguir as normas e negam que causem prejuízo à floresta.
Mas os cientistas dizem que o cultivo de açaí está provocando mudanças profundas na Amazônia que podem desestabilizar todo o ecossistema.

CRÉDITO,GETTY IMAGES Legenda da foto, Nos últimos dez anos, houve um aumento de quase 15.000% nas exportações do açaí no Brasil
A pequena fruta escura é rica em antioxidantes e fibras e tem alto valor energético, e, hoje, pode ser encontrada em forma de polpa congelada em várias cidades do Brasil e também em países como Estados Unidos e Emirados Árabes.
O Brasil concentra cerca de 85% da produção mundial de açaí, com uma média de 1,5 milhão de toneladas entre 2015 e 2020.
Em 2020, a produção nacional foi de 1,7 milhões de toneladas, quase 5% a mais do que no ano anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Em relação a 2015, o aumento foi de 38%.
Só o Estado do Pará é responsável por 95% desse total. São cerca de 212 mil hectares dedicados ao cultivo da fruta em terra firme ou áreas de várzea, segundo o Conab.
De acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), entre 2011 e 2020, as exportações de açaí no Brasil aumentaram quase 15.000%.
De cerca de 40 toneladas em 2011, o país chegou a 5.363 toneladas em 2020, um recorde.
Ainda assim, a maior parte da fruta produzida fica no território nacional: menos de 1% do que foi colhido em 2020 foi exportado.
O Pará respondeu por 94% dos embarques, gerando cerca de US$ 13,2 milhões (R$ 68,7 milhões). Ao todo, o Estado passou de uma produção de 756,4 mil toneladas em 2010 para 1,3 milhão em 2019.

CRÉDITO,GETTY IMAGES Legenda da foto, Açaí é fonte importante de renda para ribeirinhos no Pará
O estudo, publicado no jornal acadêmico Biological Conservation, analisou 47 áreas na região da foz do rio Amazonas no Estado.
A pesquisa começou em 2013 e englobou áreas mapeadas em um trecho de 376 mil km² no leste da Amazônia, onde está o maior núcleo de produção e colheita de açaí no Brasil.
A região é coberta por florestas de terra firme e estuarinas e manguezais ao longo das margens dos rios Pará, Guamá e Tocantins, e áreas de várzea na Ilha do Marajó, próxima a Belém.
O primeiro sinal de problema foi a ausência notada pelos pesquisadores de espécies de árvores típicas de várzea em áreas onde há monoculturas do açaí.
Muitas dessas plantas fornecem sombra para outras espécies e servem de abrigo para a fauna local, como pássaros e insetos, além de ajudar na reciclagem de nutrientes do ecossistema amazônico.
O biólogo Madson Freitas, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), diz que muitas dessas espécies foram derrubadas por agricultores e ribeirinhos que cultivam açaí.
Elas são retiradas para abrir espaço para o plantio dos açaizeiros e deixar o sol incidir sobre os pés da fruta — a sombra pode retardar seu crescimento.
Os pesquisadores afirmam que o aumento do manejo para atender a demanda do mercado levou a uma mudança significativa na floresta de várzea.
O estudo aponta que, em áreas onde há mais de 600 touceiras (moitas) de açaí por hectare, a riqueza funcional caiu cerca de 50%.
Essa é uma medida usada no meio científico para calcular a quantidade de espaço preenchido pelas espécies de uma comunidade.
Ou seja: esse espaço ocupado pelas demais espécies despencou pela metade desde que essa área passou a ser explorada para o cultivo do açaí.
Há regiões identificadas pela pesquisa onde deveria haver em tese cerca de 70 espécies de plantas por hectare, mas em seu lugar os cientistas encontraram praticamente uma monocultura da fruta, com até 1 mil touceiras por hectare.
“Árvores grandes e altas como a samaúma, conhecida popularmente como rainha da floresta, e outras como o jatobá e o cedro, estão desaparecendo dessa região”, relata o biólogo.
Freitas explica que cada espécie tem uma função específica na engrenagem da floresta, e a ausência de algumas pode desestabilizar o sistema.
“Todas as plantas são importantes, tanto do ponto da diversidade quanto dos serviços ecossistêmicos prestados por cada uma delas”, diz o cientista.
As plantas mais altas, como a samaúma, por exemplo, fornecem sombra e fazem a reciclagem de nutrientes do solo. Sem elas, o solo se torna mais ácido.
“O açaí tolera a acidez, mas outras plantas, não. Isso significa que, depois de derrubadas, essas plantas dificilmente conseguirão crescer novamente naquele lugar”, diz o pesquisador.
Árvores altas também são abrigo para as colmeias de espécies típicas de abelhas. Esses insetos fazem a polinização de diversas espécies, inclusive do açaí.
“Chega a ser contraditório, porque, com as colmeias, o próprio açaí se torna mais produtivo”, afirma Freitas.
“Em áreas onde há monocultivo de açaí e quase nenhuma outra espécie, os cachos produzem 30% menos frutos do que em áreas onde há mais diversidade.”
Os cientistas afirmam que a perda de diversidade e dos benefícios que isso gera torna todo o sistema socioecológico mais vulnerável, “como com qualquer economia local sustentada por uma monocultura de uma commodity internacional.”
Deu na BBC

Descrição Jornalista
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