Cientistas brasileiros usam ultrassom de alta frequência para estourar vírus da Covid-19 e do H1N1 sem danificar células humanas e apontam caminho para novos tratamentos contra dengue e zika - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
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PMN – Restituição Silidária – 2004 a 1905

Ciência 20/04/2026 11:35

Cientistas brasileiros usam ultrassom de alta frequência para estourar vírus da Covid-19 e do H1N1 sem danificar células humanas e apontam caminho para novos tratamentos contra dengue e zika

Em 17 de abril de 2026, pesquisadores brasileiros da Universidade de São Paulo publicaram um estudo mostrando que ondas de ultrassom de alta frequência podem inativar vírus como o SARS-CoV-2 e o H1N1 sem causar dano às células humanas, ao provocar alterações estruturais nas partículas virais até sua ruptura.

A equipe descreve o mecanismo como ressonância acústica e afirma que o método pode abrir uma nova possibilidade de tratamento para vírus envelopados, com testes in vitro em andamento contra outras infecções virais, como dengue, zika e chikungunya.

Como o ultrassom “quebra” o vírus sem ferir células humanas

O efeito observado acontece quando a energia das ondas sonoras se acopla à estrutura do vírus e força mudanças na sua forma até o envelope romper.

Odemir Martinez Bruno, do Instituto de Física de São Carlos da USP, explica que o fenômeno pode ser entendido como um “efeito pipoca”, em que a membrana protetora do vírus estoura e se deforma, impedindo a invasão de células humanas.

O estudo aponta que essa inativação por ultrassom se aplica especialmente a vírus envelopados, que dependem dessa membrana para manter sua integridade e infectividade.

Por que a geometria do vírus vira a peça central da técnica

Ultrassom de alta frequência por ressonância acústica inativa vírus envelopados sem danificar células humanas, aponta estudo da USP.
Acima, controle da experimentação; abaixo, efeito de eliminação do ultrassom contra vírus (imagem: Flávio Protásio Veras et al./Scientific Reports)
Imagem: Agência FAPESP

A descoberta chamou atenção por contrariar teorias clássicas, já que o comprimento de onda do ultrassom é muito maior do que o tamanho de um vírus, o que em tese reduziria a chance de interação direta. A explicação proposta é geométrica: partículas esféricas, como muitos vírus envelopados, absorvem melhor a energia do ultrassom.

Esse acúmulo de energia dentro da partícula viral é o que acelera a degradação do envelope do vírus, levando à ruptura mecânica sem exigir mudanças de temperatura ou pH do meio.

Por que variantes do vírus não mudariam o resultado

Um ponto destacado no estudo é que o processo depende do formato da partícula viral e não de mutações genéticas.

Na leitura dos autores, isso significa que variantes do vírus observadas durante a pandemia, como ômicron e delta, não deveriam afetar a eficácia do mecanismo, porque a ressonância acústica mira a estrutura física do envelope.

Ressonância acústica não é cavitação e isso muda tudo

A técnica descrita não tem como objetivo a descontaminação geral, e sim um efeito seletivo sobre o vírus. O ultrassom já é usado para profilaxia de equipamentos odontológicos e cirúrgicos, mas ali o fenômeno principal é a cavitação, que ocorre em baixas frequências e destrói qualquer material biológico.

No caso da ressonância acústica, o estudo descreve atuação em altas frequências, na faixa de 3 a 20 MHz, em que a energia sonora excita vibrações internas que levam à ruptura do envelope do vírus, sem representar risco às células humanas.

O que o estudo diz sobre próximos usos contra outros vírus

Os autores afirmam que a inativação por ultrassom de vírus envelopados abre uma possibilidade de tratamento para doenças virais em geral, especialmente porque antivirais químicos costumam ser difíceis de desenvolver. A equipe já realiza testes in vitro contra dengue, chikungunya e zika, mirando ampliar o alcance do método.

O texto também cita uma vantagem prática: como a estratégia não depende de atacar mutações do vírus, ela tende a ser vista como promissora contra diferentes infecções envelopadas, além de ser descrita como uma solução “verde”, sem geração de resíduos e sem favorecer resistência viral.

Quem participou e por que a pesquisa exigiu várias áreas

A investigação reuniu físicos teóricos e acústicos do IFSC USP e especialistas do Centro de Pesquisa em Virologia e do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias ligados à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, além de equipes da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e de pesquisadores da Unesp, com análises estruturais e toxicológicas usando microscopia e espalhamento de luz.

Houve ainda colaboração de Charles Rice, professor da Universidade Rockefeller e Nobel de Medicina de 2020, que forneceu vírus fluorescentes para visualização em tempo real.

Você acha que uma técnica física para estourar vírus com ultrassom tem mais chance de virar tratamento no futuro do que os antivirais tradicionais?

Fonte: Agência FAPESP

Ricardo Rosado de Holanda
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