“Síndrome do não arrotar” gera estufamento, gases e pressão no peito; especialista explica - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Saúde 31/10/2026 13:48

“Síndrome do não arrotar” gera estufamento, gases e pressão no peito; especialista explica

“Síndrome do não arrotar” gera estufamento, gases e pressão no peito; especialista explica

O problema acontece no chamado músculo cricofaríngeo, localizado no esôfago, logo atrás da laringe, onde ficam as cordas vocais.

Não existe um exame que comprove a existência da R-CPD, mas o diagnóstico clínico, por meio dos sintomas, já é suficiente para que os médicos iniciem o tratamento.

Guilherme Catani, otorrinolaringologista e professor adjunto da UFPR (Universidade Federal do Paraná), explica em entrevista à GALILEU que a condição não é nova: “a síndrome do não arrotar sempre existiu, mas só agora que os otorrinos começaram a prestar mais atenção nesse tipo de sintoma sem associá-lo a refluxo ou intolerâncias”.

A condição começou a ganhar mais visibilidade em 2019, com a publicação de um estudo na revista OTO Open (publicação oficial da Fundação da Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço).

Desde então, otorrinolaringologistas pelo mundo começaram a pesquisá-la e buscar tratamento ou, pelo menos, uma forma de diminuir o desconforto dos pacientes.

Dado o quão recente são as informações consolidadas sobre a condição, não existem dados sobre o número de pessoas com a síndrome no Brasil ou em outros países.

Por que algumas pessoas não arrotam?

Quando nos alimentamos, precisamos mastigar a comida e depois empurrá-la para dentro usando a língua, processo chamado de deglutição. O alimento vai para a garganta e a laringe, onde produzimos a voz, precisa abrir espaço para que ele passe até o estômago. Para fazer esse movimento, existem os músculos que formam o esfíncter do esôfago superior.

“Só que esse músculo que abre para a passagem do alimento precisa relaxar em alguns momentos para que os gases ingeridos em refrigerantes, por exemplo, ou produzidos no próprio corpo, consigam sair. É como uma válvula de escape”, explica Catani.

Em pessoas com a síndrome, no entanto, esse mecanismo de escape falha. “O músculo funciona para abrir o caminho da comida, mas, quando o ar precisa sair, ele não relaxa”, acrescenta.

Problemas associados a canetas emagrecedoras

Uma das principais preocupações sobre o assunto atualmente, segundo Catani, é com o aumento de pacientes fazendo uso das chamadas canetas emagrecedoras, como Mounjaro ou Ozempic.

“Esse tipo de medicação retarda o esvaziamento gástrico, o que naturalmente já acaba produzindo mais gases. Então, mesmo quem não tem a síndrome pode sentir estufamento ou borbulhamento na garganta”, explica.

Ter a R-CPD não é um impedimento para o uso das canetas no tratamento da obesidade, mas pode gerar grande desconforto nos pacientes. Com o aumento do uso, os pacientes precisam ficar atentos aos sintomas.

Tratamento inesperado

O tratamento da R-CPD é relativamente simples e envolve uma substância muito conhecida nos tratamentos estéticos: a toxina botulínica, popularmente conhecida como botox. Ela é aplicada diretamente no músculo cricofaríngeo, permitindo que ele relaxe e deixe o ar sair quando necessário.

O procedimento é realizado pela boca e pode ser feito com anestesia local ou geral. “A grande vantagem da anestesia geral é a precisão, porque conseguimos aplicar a toxina no local exato, diminuindo os riscos”, diz Catani.

Os riscos citados pelo médico envolvem a voz. Se colocada no local errado ou em maior quantidade do que o recomendado, a toxina pode atingir as cordas vocais, fazendo com que elas relaxem, o que causa rouquidão. Mesmo que isso aconteça, o efeito é passageiro, pois a substância não consegue fixar-se tão bem nas cordas vocais quanto no músculo.

O tratamento ainda é novo e está sendo estudado para possíveis melhoras, mas “o que tenho visto nos congressos é que, diferente da toxina aplicada no rosto, que precisa de retoque, o procedimento contra a R-CPD precisa ser feito uma vez só”.

Isso acontece porque o cérebro consegue aprender que, com o músculo relaxado, fica mais fácil do ar passar e, por isso, começa a enviar comandos para que o movimento seja feito automaticamente, como deveria acontecer.

Alguns pacientes fazem mais de uma aplicação, mas, para casos mais complicados, em que o procedimento não gera tanto alívio dos sintomas, há a possibilidade de intervenção cirúrgica. “Podemos seccionar algumas fibras desse músculo com laser para produzir o relaxamento, mas são raríssimos casos. A maioria precisa só de uma aplicação, e poucos vão solicitar uma segunda dose”, revela Catani.

“Eu sempre costumo perguntar aos pacientes a porcentagem de melhora dos sintomas que eles sentem após a aplicação. É claro que 100% de alívio é quase impossível, mas a grande parte deles relata uma melhora superior a 80%”, finaliza o médico.

Deu em Galileu

Ricardo Rosado de Holanda
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