Esta startup diz fazer plantas crescerem mais rápido usando som - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Tecnologia 27/07/2026 09:16

Esta startup diz fazer plantas crescerem mais rápido usando som

Esta startup diz fazer plantas crescerem mais rápido usando som

As plantas não têm ouvidos, mas isso não significa que sejam “surdas”. Cientistas já têm uma série de provas de que elas conseguem perceber vibrações no ambiente e responder a esses estímulos.

Em um experimento bastante conhecido, por exemplo, pesquisadores mostraram que o som de uma lagarta mastigando uma folha faz com que plantas produzam substâncias químicas de defesa contra herbívoros.

É justamente nessa capacidade que aposta a Haivya, startup de agricultura de precisão sediada na Califórnia, nos EUA, que quer usar o som para acelerar o crescimento das plantas.

A empresa desenvolveu uma tecnologia que utiliza sinais acústicos cuidadosamente programados para influenciar o desenvolvimento das lavouras. Segundo seus testes, o método aumenta a produtividade, acelera o crescimento, reduz o consumo de água e até altera características bioquímicas de diferentes espécies, sem o uso de produtos químicos ou engenharia genética.

Como funciona a tecnologia?

Batizada Protocolo de Cultivo e Comunicação Bioacústica (BCCP, na sigla em inglês), a tecnologia utiliza sequências de frequências sonoras desenvolvidas especificamente para cada espécie e para cada fase do desenvolvimento da planta.

Em entrevista à revista New Scientist, Andrea Ott-Dahl, fundadora da Haivya, explica o sistema não consiste em tocar música para as plantas. Em vez disso, ele utiliza “sons e frequências em camadas”, reproduzidos em qualquer alto-falante, com intensidade inferior a 80 decibéis — o equivalente ao som de uma sirene de viatura policial ou de um restaurante barulhento.

O protocolo começa ainda na germinação e acompanha toda a vida da planta. Conforme ela cresce, as frequências são modificadas para estimular diferentes respostas. Na fase inicial, por exemplo, o foco é fortalecer o sistema radicular (raízes). Depois, o objetivo passa a ser aumentar a formação de flores ou frutos, dependendo da cultura.

Ott-Dahl afirma que justamente essa adaptação dos sinais sonoros ao longo do ciclo diferencia o BCCP de experimentos anteriores com bioacústica vegetal. Em vez de simplesmente expor as plantas ao som, a empresa desenvolve protocolos voltados para objetivos específicos, como mais produtividade, mudanças estruturais ou alterações bioquímicas.

Testes em diferentes espécies

A Haivya afirma ter testado a tecnologia em sete espécies pertencentes a quatro famílias botânicas. Em um dos experimentos, plantas geneticamente idênticas foram expostas a duas esquemas de sons diferentes.

Um deles aumentou a produtividade em 42%; o outro elevou esse número para 59%, além de reduzir o ciclo de crescimento em 14,2%, diminuir o consumo de água e aumentar em 21,5% a potência bioquímica das plantas em comparação com o grupo controle, segundo um comunicado.

De acordo com a empresa, todas as espécies avaliadas apresentaram algum tipo de melhoria, incluindo sistemas radiculares mais desenvolvidos, maior ramificação lateral, floração mais uniforme e aumento de produtividade que variaram entre 29% e mais de 100%, dependendo da espécie e da configuração do protocolo de sons.

Entre os exemplos destacados estão: a soja, que apresentou 46% mais vagens em estágio inicial de desenvolvimento, e atingiu a maturidade reprodutiva mais rapidamente e de forma mais uniforme do que as plantas controle; o manjericão, cuja produção de biomassa aumentou 45,6%, e teve seu florescimento acelerado; e a pimenta jalapeño, que registrou um aumento de 171% na quantidade de frutos.

Outro resultado curioso envolveu pimentões. Segundo a empresa, foi possível alterar temporariamente sua pigmentação apenas modificando os protocolos acústicos. Os frutos passaram a produzir mais antocianinas — pigmentos antioxidantes responsáveis pela coloração roxa — antes de retornarem à cor normal de amadurecimento. Em alguns casos, essa mudança ocorreu em apenas 24 horas.

A empresa também apresentou resultados obtidos em experimentos avaliados por pesquisadores externos.

Em um teste com 100 mudas de cannabis, analisado pela pesquisadora Allison Justice, da Universidade Clemson, nos Estados Unidos, uma das variedades apresentou um aumento de 25,6% no desenvolvimento das raízes.

Já outro ensaio, conduzido com 36 plantas e analisado por Robert Flannery, da Universidade da Califórnia em Davis, encontrou um aumento de 90% na biomassa comercializável, crescimento de 120,9% na produção de flores de alta qualidade e redução de 34% no consumo de água por unidade produzida.

Por que isso acontece?

A ciência ainda não sabem exatamente como as plantas transformam essas vibrações em respostas bioquímicas.

Uma das hipóteses levantadas é que canais iônicos presentes nas células vegetais possam responder às vibrações físicas, controlando a entrada e saída de íons como cálcio e potássio.

Esse mecanismo é um pouco semelhante ao funcionamento das células sensoriais responsáveis pela audição em animais. No entanto, essa explicação ainda não foi comprovada.

Não se sabe ao certo também se as mudanças de vibração têm efeito diretamente sobre as plantas, ou são capazes de provocar alterações no solo ou em outros componentes do ambiente.

Como o estudo da Haivya ainda não passou por uma revisão, serão necessárias novas pesquisas para validar seus resultados. Ainda assim, caso a tecnologia se confirme, ela poderá abrir caminho para um nova forma de aumentar a produtividade agrícola utilizando apenas estímulos acústicos.

Os resultados do novo estudo foram divulgados pela própria empresa em um artigo disponibilizado em julho no ResearchGate. Vale a menção que, embora chamem atenção, os resultados ainda não foram analisados por cientistas independentes e publicados em uma revista científica — o que amplia a necessidade de novas pesquisas nessa linha no futuro.

Deu em Galileu

Ricardo Rosado de Holanda
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