Malvinas, ‘mão de Deus’ de Maradona, e Beckham: a rivalidade histórica entre Argentina e Inglaterra - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Futebol 14/07/2026 15:22

Malvinas, ‘mão de Deus’ de Maradona, e Beckham: a rivalidade histórica entre Argentina e Inglaterra

Malvinas, ‘mão de Deus’ de Maradona, e Beckham: a rivalidade histórica entre Argentina e Inglaterra

É uma rivalidade no futebol que remonta a gerações: Inglaterra Argentina disputam na quarta-feira (15/7), em Atlanta, uma vaga na final da Copa do Mundo de 2026.

A Inglaterra busca seu segundo campeonato mundial, 60 anos após seu único título. A Argentina está atrás do tetracampeonato — pois venceu os Mundiais de 1978, 1986 e 2022. Este será o primeiro jogo do astro argentino Lionel Messi contra a Inglaterra.

Em Copas do Mundo, a rivalidade começou em 1962 e, desde então, tem sido marcada por gols espetaculares, controvérsias e cartões vermelhos.

Mas não se trata apenas de uma rivalidade dentro de campo. As tensões políticas, especialmente em torno da Guerra das Malvinas — que os ingleses chamam de Falkland — na década de 1980, dominam a relação entre as duas nações. Jogadores e torcedores argentinos ainda fazem referência ao conflito em canções de futebol.

Pode surpreender muitos que, dos cinco jogos da Copa do Mundo disputados entre as duas seleções, a Inglaterra esteja em vantagem. Foram três vitórias inglesas, uma argentina e um empate (que acabou com a Argentina vencendo nos pênaltis).

Como o último encontro entre as duas seleções na Copa do Mundo aconteceu em 2002 e a guerra já acabou há 44 anos, muitas das gerações mais jovens de ambos os países nem se lembram da rivalidade.

Dentro do campo: 5 jogos em Copas

Jogo 1 — 1962: Inglaterra 3-1 Argentina (Rancagua, Chile — fase de grupos)

O primeiro confronto entre os dois times foi um episódio tranquilo comparado com o que viria depois.

Na fase de grupos, gols de Ron Flowers, Bobby Charlton e Jimmy Greaves colocaram a Inglaterra em uma vantagem inalcançável de 3 a 0, com um gol de consolação da Argentina no final da partida.

Ambas as equipes terminaram a fase de grupos com uma vitória, uma derrota e um empate, mas a Inglaterra levou a melhor sobre a Argentina graças a um saldo de gols superior — e avançou para o mata-mata. Os argentinos foram eliminados.

A seleção inglesa acabou eliminada pelo Brasil nas quartas de final.

Jogo 2 — 1966: Inglaterra 1-0 Argentina (Wembley, Inglaterra — quartas de final)

Será que foi nesse momento que a rivalidade futebolística entre os dois times realmente nasceu? Provavelmente.

As duas equipes se enfrentaram nas quartas de final em uma partida na qual a Argentina, até hoje, insiste ter sido prejudicada, alegando que Geoff Hurst estava impedido ao marcar um gol.

Mas isso foi apenas a ponta do iceberg em termos de controvérsia, com o capitão da Argentina, Antonio Rattin, sendo expulso após 33 minutos por duas infrações em um intervalo de três minutos.

A primeira foi por uma falta em Bobby Charlton, a segunda foi por continuar a discutir com o árbitro alemão Rudolf Kreitlein.

A partida foi interrompida por quase oito minutos porque Rattin se recusou a deixar o campo.

A Inglaterra resistiu em um jogo extremamente tenso. Ao final do confronto, o técnico da Inglaterra, Alf Ramsey, chamou a seleção argentina de “animais” e pediu que seus jogadores não trocassem camisas com os adversários.

Copa do Mundo de 1966: Inglaterra contra Argentina. 25 de julho de 1966

Crédito,Getty Images Partida da Copa de 1966 teve confusão entre jogadores argentinos e ingleses

Em 2009, George Cohen, zagueiro da seleção inglesa campeã da Copa do Mundo de 1966, refletiu sobre a partida em um artigo no jornal The Guardian.

“Dar carrinhos não tem problema”, disse ele. “Mas o que incomodava eram algumas coisas desprezíveis, como cuspir, puxar os pelos da nuca e puxar a orelha. Eles estavam tentando nos intimidar. O problema foi que, quando perceberam que não iam conseguir o que queriam, partiram para alguns dos piores excessos que eu já vi.”

“Considero uma grande pena que eles não tenham jogado da maneira que eram capazes. Poderíamos até ter perdido, mas eles deveriam ter entrado em campo e mostrado do que eram capazes.”

“Houve muita confusão no túnel depois do jogo. Ninguém tinha permissão para sair, então não vimos nada.”

Acredita-se que essa partida tenha contribuído para a introdução dos cartões vermelho e amarelo, que foram usados pela primeira vez na Copa do Mundo de 1970, no México. Anteriormente, os árbitros tinham que se basear em advertências verbais.

Rattin, que representou a Argentina de 1959 a 1969 e disputou as Copas do Mundo de 1962 e 1966, morreu no sábado (11/7) aos 89 anos.

Jogo 3 — 1986: Argentina 2-1 Inglaterra (Cidade do México, México — quartas de final)

Esse foi o jogo da famosa “mão de Deus”.

A partida das quartas de final foi disputada apenas quatro anos depois da Guerra das Malvinas, que envolveu os dois países (leia mais sobre a guerra abaixo nesta reportagem). Não se tratava apenas de uma rivalidade futebolística; as tensões políticas também eram enormes.

A imprensa e o público argentinos interpretaram a partida como uma forma de expressar seu ressentimento em relação ao conflito, enquanto os britânicos também se aproveitaram da situação, usando linguagem nacionalista para acirrar a animosidade entre os países.

Maradona fazendo gol com a mão

Crédito,Getty Images Maradona ficou famoso pelo gol que fez usando a mão em 1986 contra a Inglaterra

jornalista mexicana da BBC Lourdes Heredia, que estava no jogo no Estádio Azteca e tinha 17 anos na época, lembra: “Meu pai estava preocupado que as tensões entre as torcidas da Argentina e da Inglaterra pudessem se alastrar. Minha mãe não hesitou. Uma oportunidade única na vida.”

O jogo proporcionou um momento que nenhum torcedor inglês daquela época jamais esquecerá, quando o craque Diego Maradona deu um leve soco na bola que colocou a Argentina em vantagem contra a Inglaterra.

O camisa 10 argentino saltou para disputar uma bola com o goleiro inglês Peter Shilton, mas, passando desapercebido pelo árbitro, optou por socar a bola para o gol vazio. Em entrevistas posteriores, Maradona disse que foi “a mão de Deus” que fez o gol.

E minutos depois, o mesmo Maradona marcou provavelmente o maior gol da história das Copas do Mundo, driblando metade da seleção inglesa, contornando Shilton e finalizando com precisão para ampliar a vantagem da Argentina.

“Quando eu morava e trabalhava na Argentina, as pessoas sempre mencionavam o gol de mão”, disse Heredia. “Mas isso é esquecer que o segundo gol foi simplesmente espetacular, quase inacreditável.”

Gary Lineker descontou no final, mas foi em vão, e a Inglaterra foi eliminada em meio à polêmica. Maradona só se desculpou em 2005. Um pedido de desculpas que Shilton rejeitou.

A Argentina acabou vencendo a Alemanha Ocidental na final e conquistou a sua segunda Copa.

Jogo 4 — 1998: Argentina 2-2 Inglaterra (4-3 para a Argentina nos pênaltis) — (St. Étienne, França — oitavas de final)

Essa é uma partida que o astro inglês David Beckham jamais esquecerá.

A partida será sempre lembrada pelo chute que ele deu no argentino Diego Simeone, da Argentina, e pela consequente expulsão.

Antes disso, Gabriel Batistuta (Argentina) e Alan Shearer (Inglaterra) haviam feito gols de pênaltis, e Michael Owen (Inglaterra) marcou um dos maiores gols da história da Copa do Mundo inglesa, dando à Inglaterra uma vantagem de 2 a 1.

Owen ultrapassou a defesa argentina para marcar um gol espetacular em jogada individual. Antes do intervalo, a Argentina empatou com uma cobrança de falta de Javier Zanetti.

Após a expulsão de Beckham, a Inglaterra resistiu bravamente e até pensou que tinha vencido quando Sol Campbell cabeceou para o fundo das redes aos 36 do segundo tempo, mas o gol foi anulado por um empurrão.

A partida foi para os pênaltis — e os ingleses David Batty e Paul Ince erraram suas cobranças. A Argentina saiu vitoriosa, mas acabou eliminada na fase seguinte pela Holanda.

Simeone e Beckham na Copa de 1998 na França

Crédito,Getty Images Beckham (direita) acabou expulso por falta em Simeone na Copa de 1998 na França

Para atiçar ainda mais a rivalidade, Simeone admitiu um ano depois: “Digamos apenas que o árbitro caiu na armadilha.”

“Também foi difícil para ele evitar essa situação, porque eu me saí bem e em momentos como esse há muita tensão. Poderíamos dizer que minha queda transformou um cartão amarelo em um cartão vermelho. Mas, na verdade, a punição mais apropriada era um cartão amarelo.”

Jogo 5 — 2002: Argentina 0-1 Inglaterra (Sapporo, Japão — fase de grupos)

Do lado da Inglaterra, essa partida ficou marcada como a redenção de Beckham.

O então capitão da Inglaterra marcou o único gol da partida de pênalti, depois de Owen ter sido derrubado por Mauricio Pochettino — que hoje é técnico dos Estados Unidos.

Após terem empatado apenas com a Suécia na estreia da fase de grupos, essa foi uma vitória crucial para os ingleses.

Um empate sem gols entre Inglaterra e Nigéria na última partida garantiu a classificação da equipe, enquanto a Argentina, que empatou em 1 a 1 com a Suécia, foi eliminada na fase de grupos pela primeira vez desde 1962. A tabela foi semelhante, com a Inglaterra em segundo lugar, e os argentinos em terceiro, eliminados.

Beckham na Copa de 2002 contra a Argentina

Crédito,Getty Images Inglaterra venceu a Argentina com gol de Beckham em 2002, no último confronto entre as duas seleções em Copas

O jornalista da BBC Sport Phil McNulty relembra: “O futurista Sapporo Dome foi o palco da redenção de Beckham e da Inglaterra na Copa do Mundo de 2002, no Japão.”

“As tensões persistentes entre as equipes após o cartão vermelho de Beckham contra a Argentina na França quatro anos antes, juntamente com uma dolorosa derrota nos pênaltis nas oitavas de final, tornaram esta uma ocasião extremamente tensa.”

“E foi a Inglaterra — liderada por Sven-Goran Eriksson, com Marcelo Bielsa como seu adversário direto — que saiu vitoriosa por 1 a 0, com um gol de pênalti convertido por Beckham um minuto antes do intervalo, em uma decisão controversa após o futuro técnico do Tottenham, Pochettino, ter cometido pênalti em Owen.”

Na sequência, a Inglaterra venceu a Dinamarca nas oitavas de final, antes de ser eliminada pelo Brasil — e por uma cobrança de falta ousada de Ronaldinho — nas quartas de final.

Fora de campo: a Guerra das Malvinas/Falklands de 1982

As Ilhas Malvinas — conhecidas em inglês como Falkland Islands — são um Território Ultramarino Britânico, ou seja, um grupo de ilhas com autogovernança no Oceano Atlântico Sul. O chefe de Estado das ilhas é o Rei Charles 3º, do Reino Unido.

O governo britânico é responsável pela defesa do território e de sua população, composta majoritariamente por nativos das ilhas de ascendência britânica.

Embora as ilhas estejam muito distantes do Reino Unido, o território está sob domínio britânico desde 1833. A maioria dos habitantes das ilhas se considera britânica.

Mas essa situação é contestada há décadas pela Argentina, que reivindica a soberania sobre o território. O país acredita que as ilhas lhe pertencem por direito.

Mapa das Malvinas/FalklandsTerritório no Oceano Atlântico é contestado pela Argentina

Em 1982, as ilhas foram invadidas por forças argentinas, determinadas a retomar o arquipélago do controle britânico.

Em 2 de abril daquele ano, forças argentinas avançaram sobre as Ilhas Malvinas. Ao assumir o controle dos prédios governamentais e capturar forças britânicas pegas de surpresa, a Argentina hasteou sua bandeira no alto dos edifícios da capital, Stanley.

O governo ditatorial argentino da época acreditava que o Reino Unido não teria disposição para tentar recuperar as ilhas pela força. Mas a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher anunciou no Parlamento que uma força-tarefa com mais de 100 navios da Marinha Real seria enviada para recapturar o território.

Uma frota de navios de guerra e mercantes partiu da Grã-Bretanha, incluindo dois porta-aviões equipados com caças, helicópteros e tropas.

Bandeiras argentinas em prédios de Stanley, capital das Malvinas/Falklands, em abril de 1982

Crédito,Getty Images Tropas argentinas hastearam bandeiras em Stanley, capital das Malvinas

Em 2 de maio, o navio argentino General Belgrano foi afundado fora da zona de guerra por um submarino britânico, o HMS Conqueror.

Isso obrigou as forças argentinas, com medo de perder mais navios, a manter a maioria dos seus restantes no porto, limitando sua capacidade de combate à força aérea.

Apenas dois dias após o ataque ao Belgrano, o navio britânico de guerra HMS Sheffield foi atacado e acabou afundando.

Soldados britânicos se rendendo a tropas argentinas nas Malvinas/Falklands em 1982

Crédito,Getty Images Soldados britânicos foram obrigados a se render aos argentinos após a invasão das ilhas

Em 21 de maio de 1982 — seis semanas após a invasão argentina —, as forças britânicas desembarcaram nas praias da ilha, e uma série de batalhas ocorreu nos dias e semanas seguintes.

Mais bem treinadas e equipadas, as tropas britânicas retomaram a capital Stanley. Em 14 de junho, a guerra chegou ao fim. As tropas argentinas se renderam, e a bandeira do Reino Unido foi novamente hasteada sobre os prédios do governo na capital.

Ao longo de 74 dias, morreram 649 soldados argentinos, 255 militares britânicos e três moradores da ilha.

Nos anos 1990, Argentina e Reino Unido normalizaram suas relações. Mas mesmo décadas após o conflito, ainda há tensões diplomáticas entre os dois lados.

A Marinha Real Britânica ainda defende as ilhas e uma base militar permanece lá. A Argentina ainda mantém sua reivindicação sobre o território.

A tensão contínua entre os dois países sobre a posse do território levou a uma votação em 2013, na qual os habitantes das ilhas votaram sobre seu próprio futuro — com 1.513 votos a favor da permanência das Malvinas como um Território Ultramarino Britânico e três votos contra.

Em 2024, o presidente da Argentina, Javier Milei, disse em entrevista à BBC que reconhece que as Ilhas Malvinas estão atualmente “nas mãos do Reino Unido”, mas prometeu recuperar as ilhas por vias diplomáticas. Ele disse na entrevista que não existe uma “solução imediata”.

Deu em BBC
Ricardo Rosado de Holanda
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