Energia. 30/05/2026 11:31
Rússia quer construir novas usinas nucleares no Brasil e negocia acordo com governo Lula para ampliar presença da Rosatom em projetos de energia atômica, pequenos reatores e tecnologia nuclear pacífica

Segundo a Revista Veja, a Rússia negocia com o Brasil um novo acordo de cooperação em energia nuclear e busca ampliar a atuação da estatal Rosatom em projetos no país, incluindo a construção de novas unidades de geração atômica.
A informação foi dada pelo embaixador russo em Brasília, Alexei Labetsky, durante reunião da Comissão Intergovernamental Brasileiro-Russa de Comércio, Cooperação Econômica, Científica e Técnica.
De acordo com Labetsky, as conversas entre os dois governos continuam em andamento, mas ainda dependem de definições técnicas.
“As negociações sobre o tema estão em andamento, e há muitas questões técnicas”, afirmou o diplomata a jornalistas em Brasília.
Ele também disse que a Rosatom “está ativa aqui e tem boas perspectivas”, ao comentar a presença da empresa no mercado brasileiro.
A aproximação ocorre no momento em que o Brasil discute o futuro de seu programa nuclear, com a indefinição sobre Angra 3, a avaliação de fontes firmes de energia e o debate sobre pequenos reatores modulares.
No cenário externo, a Rússia procura manter contratos e abrir novas frentes para a Rosatom, mesmo sob sanções impostas por países ocidentais desde a invasão da Ucrânia.
A Rosatom é o principal braço estatal russo no setor nuclear.
A empresa atua em diferentes etapas da cadeia, como projetos de reatores, fornecimento de combustível, enriquecimento de urânio, produção de radioisótopos, operação de usinas e gestão de resíduos.
O ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Reshetnikov, afirmou que a estatal pode atender demandas das usinas brasileiras e fornecer radioisótopos usados em pesquisas científicas e na área da saúde.
Segundo ele, Moscou vê possibilidade de participação em unidades de energia projetadas pela Rússia, tanto de grande quanto de pequena capacidade.
No Brasil, o setor nuclear envolve geração elétrica, medicina, indústria, pesquisa, mineração, tecnologia e etapas do ciclo do combustível.
Por esse motivo, acordos nessa área passam por análise técnica, regulatória, econômica e diplomática, além das regras nacionais e dos compromissos internacionais assumidos pelo país.
Até agora, não há anúncio de contrato para construção de usinas russas no Brasil.
O que está em curso é a negociação de um novo acordo de cooperação e a manifestação pública de interesse da Rússia em participar de projetos futuros no setor nuclear brasileiro.
O tema já fazia parte da agenda bilateral antes das declarações mais recentes do embaixador russo.
Em 9 de maio de 2025, durante reunião com Vladimir Putin em Moscou, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o Brasil tinha interesse em ampliar relações com a Rússia na área de energia, especialmente em pequenas usinas nucleares.
Na ocasião, Lula afirmou que o governo brasileiro tinha “muito interesse” na experiência russa com esse tipo de tecnologia.
A declaração ocorreu em uma visita oficial a Moscou e reforçou a disposição dos dois países de tratar o tema dentro da agenda de energia, ciência e tecnologia.
Em 5 de fevereiro de 2026, Brasil e Rússia assinaram, em Brasília, a Declaração Conjunta da VIII Reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação.
O documento cita o interesse em intensificar projetos conjuntos em áreas de ciência, tecnologia e inovação, incluindo estudos nucleares.
A declaração também menciona a cooperação no uso pacífico da energia nuclear.
Entre os pontos registrados estão radioisótopos medicinais, geração de energia nuclear, ciclo do combustível e atualização da base jurídica bilateral para a parceria no setor.
O texto reafirma ainda o compromisso com o Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares.
A movimentação russa acontece enquanto o Brasil avalia alternativas para ampliar ou reorganizar sua estrutura nuclear.
O país opera Angra 1 e Angra 2, localizadas em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro.
As duas usinas formam a geração nuclear brasileira em operação comercial.
Angra 1 tem 640 megawatts de potência e entrou em operação comercial em 1985.
Angra 2, com 1.350 megawatts, iniciou a operação comercial em 2001.
Somadas, as duas unidades têm 1.990 megawatts de capacidade instalada.
A principal pendência do setor é Angra 3.
O projeto, iniciado há décadas e marcado por paralisações, segue sem decisão final sobre conclusão ou abandono.
O Tribunal de Contas da União informou, em fevereiro de 2026, que analisava documentos para a retomada das obras e estimou em R$ 20 bilhões o custo para concluir a usina.
Outras estimativas citadas em estudos e reportagens recentes apontam valores próximos entre concluir e abandonar o empreendimento.
Em fevereiro de 2026, a Reuters informou que o governo brasileiro esperava decidir até meados do ano se retomaria a construção de Angra 3 ou abandonaria o projeto, com base em cálculos que indicavam R$ 24 bilhões para conclusão e entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões para desistência.
Além de Angra 3, pequenos reatores modulares entraram no debate sobre o futuro da geração nuclear no país.
Essa tecnologia tem sido discutida para aplicações em áreas isoladas, projetos industriais de alta demanda energética e sistemas que exigem fornecimento contínuo de eletricidade.
A possível participação da Rosatom em novos projetos no Brasil também tem dimensão diplomática.
A estatal russa atua em projetos nucleares em países como China, Índia, Egito e Turquia, segundo informações publicadas sobre a carteira internacional da empresa e sua presença no mercado global.
Ao mesmo tempo, a Rússia enfrenta sanções econômicas de países ocidentais desde o início da guerra na Ucrânia.
No setor nuclear, porém, Moscou segue com contratos internacionais e mantém presença em obras e acordos fora da Europa Ocidental e da América do Norte.
Para o Brasil, a discussão envolve aspectos técnicos, financeiros e regulatórios.
A eventual contratação de tecnologia estrangeira para novas usinas exigiria estudos de viabilidade, licenciamento ambiental e nuclear, definição de financiamento, análise tarifária e enquadramento no planejamento energético nacional.
A Constituição brasileira estabelece que toda atividade nuclear no país deve ter fins pacíficos e estar sob controle do Estado.
Por isso, qualquer cooperação internacional precisa observar regras nacionais de segurança, fiscalização e salvaguardas, além dos compromissos do Brasil em acordos internacionais.
As declarações russas indicam interesse político e empresarial, mas não representam uma decisão brasileira sobre novos reatores.
Qualquer avanço dependeria de etapas formais entre os governos e de avaliações dos órgãos responsáveis pelo setor nuclear e pelo planejamento energético.
Outro ponto a ser definido é o alcance da cooperação.
Um acordo pode tratar de fornecimento de radioisótopos, combustível, pesquisa, capacitação e intercâmbio técnico, ou avançar para projetos de geração elétrica.
Cada uma dessas frentes exige procedimentos distintos e níveis diferentes de investimento.
A construção de usinas nucleares, em especial, demanda contratos de longo prazo, regras de segurança específicas, financiamento elevado e acompanhamento regulatório contínuo.
Também envolve decisões sobre propriedade, operação, suprimento de combustível, manutenção e gestão de rejeitos.
Por enquanto, o dado concreto é que Brasil e Rússia mantêm negociações para atualizar a cooperação nuclear e que a Rosatom foi apresentada por autoridades russas como uma possível fornecedora de tecnologia e serviços.
A definição sobre novos projetos, porém, ainda depende de decisões do lado brasileiro.
Deu em CPG

Descrição Jornalista
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