Consumidor 24/05/2026 18:52
Alguns cosméticos chineses são feitos com pele de jumento – mas quase metade dos consumidores não sabe disso

Produtos que contêm ejiao movimentam bilhões de dólares todos os anos.
O nome se refere a uma iguaria chinesa de tradição milenar: uma espécie de gelatina medicinal rica em colágeno.
Com promessas que vão desde rejuvenescimento até aumento do vigor sexual, esse componente é adicionado em cosméticos, tônicos, pílulas e alimentos chineses.
O ejiao, porém, envolve uma série de dilemas. Primeiro, sua eficácia medicinal nunca foi comprovada cientificamente, apesar dos diversos estudos sobre o tema. Além disso, a iguaria é produzida a partir de pele de jumento fervida, e adquirir esses animais para o abate desencadeia uma porção de problemas ambientais.
Por possuírem uma taxa de reprodução relativamente baixa, os jumentos não conseguem ser criados em larga escala como bovinos e suínos. Assim, a indústria do ejiao abate milhões de jumentos anualmente – e eles não são repostos na mesma velocidade.
Isso causou uma drástica redução na população de jumentos da China, que não é mais capaz de suprir toda a demanda e passa a depender de importações. O problema se tornou global, e os países que comercializam pele de jumento para a China desenvolvem suas próprias questões ambientais com a espécie.
Entre 2008 e 2023, o Quirguistão, na Ásia, registrou uma queda de 61% na população de jegues; em Botsuana, na África, o tombo foi de 75%. Ainda no continente africano, a diminuição no Quênia foi de mais de 50% entre 2019 e 2024 (13).
Em 2024, os 55 países da União Africana baniram o abate de jumentos para retirada de peles pelos próximos 15 anos.
Em muitos lugares, perder um jumento gera impactos significativos na saúde feminina, na estabilidade financeira, na nutrição, no acesso à água limpa da família e na educação infantil. Estudos já mostraram que, sem um animal para carregar água, alimentos e mercadorias, o trabalho duro costuma sobrar para mulheres e crianças.
O Brasil é um dos principais exportadores de pele de jumento para a China. Por aqui, animais abandonados eram capturados, reunidos, abatidos na Bahia e vendidos. O fenômeno é tão significativo que os jumentos enfrentam risco de extinção por aqui, já que entre 1997 e 2024 o número de animais caiu 94%. Em abril, uma decisão da Justiça Federal baniu essa prática no Brasil.
Agora, uma pesquisa encomendada pela ONG The Donkey Sanctuary aponta que uma grande parte dos consumidores de ejiao na China –46% – sequer sabem que a iguaria medicial é produzida a partir de pele de jumento. Entre os jovens de 18 a 24 anos, o desconhecimento é ainda maior: 68% afirmaram não saber o que é ejiao. A familiaridade com o produto também é significativamente menor entre moradores de cidades menores.
A maioria dos consumidores de ejiao tem mais de 45 anos e vive em grandes cidades. Entre eles, 98% afirmam que seu consumo é motivado exclusivamente pelos supostos benefícios prometidos.
Cerca de 69% dos entrevistados afirmaram nunca ter tido contato com informações sobre os impactos ambientais da produção de ejiao, e 76% afirmaram que, se os preços forem acessíveis, consumiriam versões produzidas de forma mais sustentável, em laboratório e sem abate animal.
Uma das principais alternativas é a agricultura celular, tecnologia que utiliza células animais para produzir componentes específicos, neste caso, o colágeno. Com ela, seria possível obter esse produto derivado de células de jumento sem a necessidade de abater os animais.
Esse tipo de solução ainda está em desenvolvimento científico, inclusive no Brasil. Um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo, trabalha com um método no qual o colágeno de jumento é produzido por fermentação de precisão. A técnica, geralmente utilizada na produção de alimentos, consiste em usar micro-organismos geneticamente modificados para fabricar substâncias específicas.
“Com o mercado global de ejiao avaliado em bilhões e essa nova evidência mostrando que compradores na China estariam dispostos a utilizar uma alternativa produzida em laboratório, o Brasil pode liderar o mundo com uma solução sustentável pioneira”, explica Patricia Tatemoto, coordenadora das Américas da The Donkey Sanctuary, em comunicado.
Deu em Superinteressante

Descrição Jornalista
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