Combustíveis 18/05/2026 04:33
Combustível sobe mesmo com subsídio, puxa inflação e vira obstáculo para corte de juro

Mesmo com medidas tomadas pelo governo após o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, os combustíveis já subiram, em média, 6,8% no Brasil neste ano.
Quanto mais dura a crise no Oriente Médio e a alta do petróleo, maior é o impacto sobre outros preços, em um movimento que alimenta a inflação e pode dificultar a continuidade do ciclo de queda dos juros pelo Banco Central (BC).
O gás de cozinha (GLP) chegou a atingir o maior preço de revenda da série histórica da Agência Nacional de Petróleo (ANP), iniciada em 2004, mas teve um recuo na semana passada, enquanto a gasolina subiu mais de 5% mesmo sem reajuste da Petrobras.
O avanço começa a contaminar preços de alimentos e outros produtos, segundo especialistas, ampliando dúvidas sobre o cumprimento da meta de inflação anual no alvo do BC, cujo centro é 3% e o teto é 4,5%.
O governo admite que o efeito da guerra vai afetar a inflação em 2026, mas não o suficiente para superar o teto da meta, mas analistas de mercado já projetam o IPCA do ano acima do intervalo de tolerância.
A expectativa para o segundo trimestre é de preços pressionados, com choque do petróleo sobre os combustíveis e sua disseminação sobre outros setores, principalmente por meio do frete, no que os economistas chamam de “efeito secundário” sobre a inflação.
Além de ainda ser imprevisível a negociação entre EUA e Irã, especialistas dizem que o petróleo vai demorar a cair após a normalização do fluxo de petroleiros no Golfo Pérsico.
Entre março e maio, os preços médios de revenda acumulam alta significativa em quase todos os combustíveis, à exceção do etanol hidratado, que tem forte produção no Brasil. Parte dos derivados de petróleo é importada. O diesel S10 teve a maior alta, de 17,1%, seguido por diesel (+15,1%), gasolina comum (+5,7%), gasolina aditivada (5,2%), gás natural veicular (+5,1%) e gás de botijão (+4,3%).
O preço médio do botijão chegou a recordes R$ 114,94. Os demais combustíveis que tiveram alta estão em seu maior patamar desde junho de 2022, quando o choque veio do início da guerra na Ucrânia.
Para tentar conter essa alta, o governo anunciou até o momento subsídios para diesel, biodiesel, querosene de aviação (QAV), gás de cozinha e gasolina, que somam cerca de R$ 13 bilhões. Na quarta-feira, apresentou a subvenção da gasolina de até R$ 0,89 por litro, valor correspondente à cobrança de tributos federais sobre o produto. Inicialmente, o subsídio deve ficar entre R$ 0,40 e R$ 0,45 por litro, mas ainda não há definição.
O governo espera do Congresso a aprovação de um projeto de lei que autoriza custear a desoneração de combustíveis com a arrecadação extra na produção de petróleo gerada pela alta do preço do barril.
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O economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano aponta que o choque de preços pode adiantar uma decisão do BC em manter a taxa básica de juros (Selic, atualmente em 14,5% ao ano) próxima dos 14% no fim do ano:
— Nossa projeção é que (a Selic) deve parar (de cair) entre 13,5% e 14%. Vai cortando de 0,25 em 0,25 ponto percentual e, no fim do ano, dá uma parada para ver. O risco é o cenário continuar deteriorando e (o BC) interromper (o ciclo de queda) antes dos 14%.
Em abril, a gasolina já foi o principal item que impactou o IPCA, segundo dados do IBGE. O efeito deste aumento não fica restrito aos postos de combustíveis. É distribuído para fretes, transporte urbano, logística, energia, produção industrial e até o agronegócio. Se o frete fica mais caro, a maior parte dos produtos, sobretudo os alimentos, sobe.
O caso do diesel, por exemplo, que teve os maiores aumentos, é sensível porque o combustível é prioritário para a cadeia de transporte de mercadorias no Brasil. Tanto que foi o primeiro alvo dos subsídios do governo. Com grande parte da produção agrícola transportada por caminhões movidos a diesel, os alimentos tiveram alta de 1,34% em abril. Produtos como cenoura, leite longa vida,tomate e carnes lideraram o aumento.
O economista André Braz, coordenador de Índices de Preços do FGV Ibre, diz que o risco para inflação existe e pode dificultar o corte de juros:
— Se o conflito permanecer por mais tempo, a tendência é que o choque deixe de atingir apenas combustíveis e passe a contaminar de forma mais disseminada a estrutura de custos da economia. A inflação deixa de ser localizada e ganha maior persistência.
No fim de abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC reduziu a Selic de 14,75% para 14,5% ao ano, mas ressaltou na ata da reunião que vê uma piora nas expectativas no longo prazo com os impactos do conflito no Oriente Médio. Embora a Selic ainda esteja muito alta, Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, considera uma possível interrupção no ciclo de cortes no fim deste ano de eleições, influenciada também pela política fiscal:
— O BC vai continuar com o curso, bastante moderado, cauteloso, como ele diz, sereno, e vai esperar mais informações da economia. Um outro ponto que talvez possa preocupar mais o BC é a questão das contas públicas. O governo vem sinalizando gastos maiores, abrindo mão de arrecadação recentemente, como aconteceu com o fim da “taxas das blusinhas” (imposto de importação sobre importados de até US$ 50).
Leonardo França Costa, economista do ASA, considera que as medidas de desoneração e subvenção de combustíveis adotadas pelo governo para conter o preço nas bombas devem surtir efeito e aliviar a inflação, mas há alguns itens que sofrem influência secundária, como os transportes.
O IPCA de abril mostra sinais da influência do salto do petróleo em diferentes grupos de preços, como alimentos e bens industrializados. No mês passado, a inflação teve alta de 0,67%, em desaceleração em relação ao mês anterior, mas o acumulado em 12 meses continua subindo: saiu de 4,14% em março para 4,39%.
Segundo Costa, a piora em alimentação e manufaturados já mostra uma disseminação dos efeitos da guerra para além do impacto direto em combustíveis. Para ele, o empresário brasileiro parece ter se adiantado e elevado os preços diante do risco identificado com o conflito, porque normalmente esse tipo de choque é acompanhado no Brasil do aumento do dólar, o que não aconteceu dessa vez.
Outro fator de atenção é que os preços de serviços, com maior conexão com o ciclo da atividade econômica e mais difíceis de controlar, estão em patamar bastante alto, distantes da meta, diz o economista do ASA:
— Há a expectativa também de El Niño no fim do ano, que afeta os preços de alimentos. E ainda há impactos da guerra para aparecer, principalmente na parte de passagens aéreas.
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Com tudo isso, Costa projeta o IPCA em 5,3% no fim do ano, muito acima do teto de 4,5% da meta, embora a meta em si só deva ser descumprida de fato em janeiro, quando se completariam seis meses acima desse limite, ele calcula.
A Petrobras ainda não reajustou a gasolina, mas a presidente da estatal, Magda Chambriard, disse que “já, já” o fará, contando com subsídios e desonerações que são objeto do projeto de lei no Congresso. A economista Juliana Inhasz, professora do Insper, ressalta que isso pode gerar um novo “choque” e consequente piora na inflação nas próximas semanas:
— Esse novo aumento leva a uma nova onda de aumento de preços. Então, a gente está falando de várias ondas que estão batendo dentro da economia, levando preços para cima, e que provavelmente vão continuar afetando a estrutura, a dinâmica dos preços.
A indefinição internacional dificulta as previsões. A guerra causa a maior crise energética já registrada no planeta, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com retração no ritmo de formação de estoques de petróleo no mundo. Maurício Tolmasquim, ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e ex-diretor da Petrobras, avalia que o choque foi amplificado porque o setor vivia um superávit estrutural de oferta de petróleo. Para ele, os preços dos combustíveis devem permanecer altos , mesmo em caso de fim das hostilidades no Oriente Médio:
— O problema é que o conflito se prolongou e atingiu uma série de infraestruturas.
(Colaborou Thaís Barcellos)

Descrição Jornalista
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