Crédito 06/05/2026 11:11
Desenrola funciona, mas não resolve o problema do endividamento

O Desenrola funciona.
Mas o programa que o governo federal acaba de relançar não resolve o problema do endividamento e opera numa contradição.
Ele enfrenta consequências que decorrem de escolhas da própria política econômica. São elas os juros altos (em grande parte, resultado da política fiscal) e o mercado de apostas online, as bets, regulamentado tarde demais para evitar o estrago provocado no bolso dos brasileiros.
Essa é a conclusão de um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School. A análise modelou o endividamento das famílias brasileiras entre dezembro de 2011 e dezembro de 2025, dando peso (coeficientes) para os principais fatores que influenciaram esses débitos.
Nesse período, o Desenrola reduziu o endividamento, obtendo um coeficiente de -0,44 ponto. Esse valor foi suficiente para compensar quase três quartos da pressão combinada das bets (com coeficiente +0,37) e dos juros (+0,23) registrada no mesmo período. “O problema”, diz a análise, “é que, encerrado o programa, a pressão voltou”.
O economista Claudio Felisoni, professor da FIA, observa que os juros são o fator mais antigo e estrutural do endividamento brasileiro.
O modelo confirma o que a teoria econômica já estabelecia: taxas de juros elevadas (com coeficiente +0,23) amplificam o endividamento das famílias ao encarecer o crédito e tornar as dívidas existentes progressivamente mais pesadas.
E o Brasil convive com uma das maiores taxas de juros reais do mundo — e isso não mudou em relação ao primeiro Desenrola, lançado em julho de 2023.
Já as bets, afirma o estudo, são um problema mais recente e, sob certa perspectiva, mais evitável. E elas foram o fator de maior impacto positivo sobre o endividamento no modelo (+0,37), superando até os juros.
“A regulamentação do setor chegou com atraso significativo em relação à expansão das plataformas, permitindo que o mercado crescesse sem os freios necessários”, diz a análise. “As famílias que apostam se endividam de forma mais rápida e o efeito é mensurável e estatisticamente robusto”.
“O problema é que o mesmo governo que não criou as condições para reduzir os juros, o que deveria ser feito com corte de gastos, e regulamentou as bets tarde demais agora propõe um programa para limpar parte do estrago”, diz Felisoni.
A análise do Ibevar-FIA mostra que a primeira versão do Desenrola funcionou. O programa permitiu renegociações com descontos de até 90% e parcelamentos de até 60 meses.
Na Faixa 1, voltada a famílias de baixa renda, o governo ofereceu garantia direta para incentivar os bancos. “O efeito foi uma redução mensurável e sustentada na velocidade de crescimento do endividamento enquanto o programa esteve ativo”, afirma o estudo.
Mas a avaliação acrescenta:
“O próprio modelo revela, porém, o limite do instrumento. Encerrado o Desenrola, o endividamento retomou a trajetória de alta. O programa resolve o estoque da dívida acumulada, mas não altera o fluxo que a gera. Juros altos continuam cobrando seu preço, e as bets seguem operando. O Desenrola é, por definição, uma medida pontual aplicada a um problema estrutural”.
O novo Desenrola mantém os mecanismos que funcionaram — a renegociação com juros de até 1,99% ao mês e descontos entre 30% e 90% — e adiciona duas novidades.
A possibilidade de saque de até 20% do FGTS amplia o poder de amortização, mas transfere risco ao trabalhador no longo prazo, ao reduzir sua reserva previdenciária.
Felisoni destaca que a inovação mais significativa é a exigência de suspensão do acesso às plataformas de apostas por um ano como condição de adesão.
“Trata-se de uma medida de contenção comportamental que o dado justifica — mas que expõe a contradição: se as bets são o maior fator de endividamento (+0,37), a resposta estrutural seria uma regulação mais rigorosa do setor, não apenas sua suspensão temporária para quem pede socorro ao Estado”, aponta.
Os juros, no entanto, não mudam. “O ambiente macroeconômico em 2026 é mais adverso do que em 2023.
A taxa básica (Selic) segue elevada (14,5% ao ano), e o modelo indica que essa variável continuará pressionando o endividamento (+0,23) independentemente do Desenrola”, afirma Felisoni. “O programa terá de trabalhar contra uma corrente mais forte do que na rodada anterior.”
Ainda assim, nem todas as perspectivas são negativas. “Se o coeficiente do Desenrola se mantiver na faixa de −0,44 e a restrição às apostas gerar efeito adicional sobre o impacto das bets, o programa tem potencial de entregar redução do endividamento mais duradoura do que a edição anterior”, diz o economista.
“A chave estará na escala de adesão. Quanto maior o número de famílias no programa, maior o impacto líquido sobre o endividamento. Mas, com juros altos e apostas, já podemos aguardar o próximo Desenrola.”

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