O estudo, realizado por pesquisadores das universidades de Missouri-Kansas City (UMKC) e do Arizona, foi publicado em 20 de março deste ano na revista Perspectives on Psychological Science.
A descoberta foi acidental: Matthias Mehl, professor de psicologia na Universidade do Arizona e coautor do estudo, investigava as diferenças de gênero na quantidade de palavras que homens e mulheres falam por dia quando percebeu um declínio constante na fala diária das pessoas em geral.
Em colaboração com Valeria Pfeifer, professora de linguística e psicologia na UMKC e autora principal do estudo, Mehl analisou dados de 22 pesquisas, entre 2005 e 2019, coletadas nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália. Eles gravaram dados de áudio de 2,2 mil participantes que tinham entre 10 e 94 anos de idade enquanto faziam suas tarefas diárias.
Os autores notaram que, ao longo de mais de uma década, houve uma queda gradual no uso da fala, reduzindo a média de cerca de 16 mil para 12,7 mil palavras por dia.
Segundo um comunicado, o estudo também revelou variações com base na idade. Embora todos os grupos de diferentes faixas etárias tenham sido afetados, os participantes mais jovens com menos de 25 anos apresentaram um declínio mais acentuado na fala (cerca de 452 palavras por ano), o que pode estar relacionado ao uso mais constante de tecnologia, como, por exemplo, as redes sociais.
Os adultos de 25 anos ou mais também apresentaram diminuição na fala, cerca de 314 palavras por ano.
“Falar menos significa passar menos tempo se conectando com os outros”, disse Pfeifer, em entrevista à Science Focus. “Se as pessoas estão conversando menos, podem estar perdendo tanto os benefícios emocionais imediatos da interação social quanto os benefícios a longo prazo de manter relacionamentos fortes”, completou.
De acordo com a autora, a pesquisa não determina exatamente o motivo da diminuição da fala. Ainda assim, o período analisado coincide com a popularização de mensagens de texto, e-mails e redes sociais, sugerindo que interações antes presenciais passaram a ocorrer no ambiente online.
“Ainda não se sabe se as conversas digitadas oferecem os mesmos benefícios sociais que as conversas faladas, e essa é uma questão que pesquisas futuras precisam abordar”, disse ela.
Para Mehl, o período da pandemia de Covid-19 pode ter intensificado a falta de interação social. “A pandemia acelerou muitas das forças que já estavam afastando as pessoas socialmente. Se estávamos com cerca de 12.700 palavras por dia no início de 2019, eu não apostaria em uma melhora a partir daí.”
Segundo o pesquisador, as pessoas podem até estar produzindo mais palavras do que antes nas redes sociais e mensagens de texto, mas isso não garante que elas tenham se conectado mais socialmente.
“As palavras faladas carregam algo que as palavras digitadas muitas vezes não carregam — presença, tom, a espontaneidade de uma troca real. Se as pessoas que enviam mais mensagens de texto, mas falam menos, estão socialmente em melhor situação é algo que a pesquisa ainda não resolveu”, destacou Mehl.
Os impactos da comunicação digital ainda não são totalmente conhecidos, especialmente com a troca da fala por textos e emojis, que eliminam nuances em uma conversa como o tom de voz e expressões emocionais. Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de entender melhor como a comunicação (oral ou escrita) pode afetar a solidão, a saúde e o bem-estar.

