Comportamento 04/02/2025 19:27
Opinião: Cancelar as pessoas não melhora o mundo
"Ninguém vai melhorar a sociedade cancelando pessoas". Leia mais na coluna de Daniel de Barros para a Galileu

Por Daniel de Barros
Nós vivemos no automático durante boa parte das nossas vidas. Isso nem sempre é ruim: automatizar processos repetitivos é útil, pois, quando o cérebro precisa decidir conscientemente o que fazer, ele consome muita energia.
Além do mais, após treinar e automatizar determinados comportamentos, ficamos mais ágeis, justamente por não pensarmos no que estamos fazendo.
Se refletirmos demais, podemos acabar como a centopeia do poema publicado na revista Nature em 1889 pelo zoólogo Ray Lankester [aqui, numa versão minha]:
Uma centopeia era feliz – de fato!
Até que um sapo, por zombaria,
Perguntou: “Qual perna se move depois de qual?”
Isso gerou uma dúvida tal,
Que ela levou um tombo real,
E correr já não mais sabia.
Pensar no que estamos fazendo, contudo, pode ser uma ferramenta poderosa se quisermos ter maior clareza ou mudar um comportamento. Esses dois elementos estão por trás da história da entrevista motivacional, uma técnica de conversa muito usada em terapia para motivar alguém a se comprometer com mudanças.
O criador dessa técnica, o psicólogo William Miller, passou um ano de sua graduação treinando como conversar com os pacientes num curso centrado na empatia.
Quando foi trabalhar com dependentes químicos, não tinha qualquer experiência no tema, restando-lhe ouvir os pacientes de forma atenta, ativa e empática, aprendendo com eles mesmos sobre os desafios, dificuldades e potencialidades da dependência.
Ele passou então a tratar esses pacientes com uma abordagem comportamental centrada no cliente, sendo convidado para um ano sabático na Noruega, em 1982.
Durante sessões didáticas encenadas, para discutir casos difíceis, os colegas noruegueses interrompiam Miller com perguntas como: “O que você está pensando agora?”; “Por que você fez essa pergunta específica?”; “De todas as coisas que o cliente disse, como você decidiu refletir sobre essa?”
Foi só então, raciocinando sobre sua prática, que ele teve insights suficientes para escrever um artigo sobre ela, que chamou de Entrevista Motivacional, publicado na revista científico Behavioural Psychotherapy, em 1983.
A técnica se desenvolveu ao longo do tempo e, hoje, pode ser resumida na criação de uma aliança terapêutica colaborativa entre entrevistador e entrevistado. Ela é guiada por cinco princípios fundamentais:
1. Expressar empatia – criar um ambiente de compreensão e acolhimento.
2. Desenvolver discrepância – ajudar o cliente a perceber a incongruência entre seu comportamento e seus valores e objetivos.
3. Evitar argumentação e confronto – garantir um processo de comunicação colaborativo e sem imposição.
4. Reduzir a resistência – utilizar técnicas que minimizam a oposição e incentivam a reflexão.
5. Reforçar a autoeficácia – promover a confiança do cliente em sua capacidade de mudança.
A entrevista motivacional se mostrou tão eficaz para mudança de comportamentos que passou a ser usada em programas de intervenção com praticantes de violência doméstica. Estudos mostram que homens inseridos nesses programas têm menores taxas de abandono, comparecem a mais sessões e concluem mais intervenções. Assim, apresentam menor incidência de violência física e psicológica grave, além de menos reincidência.
Dois aspectos são centrais para esse sucesso: primeiro, o terapeuta não está ali para julgar ou condenar – isso só aumenta a resistência à mudança. Mas é essencial que o agressor reflita sobre seu comportamento.
Poderíamos tentar um experimento social e aplicar essa lógica nas redes sociais – levar as pessoas a pensar sobre o que fizeram sem julgá-las. A primeira parte é fácil, pois basta expor as pessoas para que admitam seus comportamentos.
O difícil é desativar o “tribunal do feicibuque” – como cantou Tom Zé – e pôr fim à cultura do cancelamento, que se opõe totalmente às estratégias motivacionais.
O fato é que, quando um comportamento inadequado é exposto, é mais bonito expressar o ódio do que a compreensão; quem julga é louvado, quem compreende é execrado.
É uma má notícia, pois ninguém vai melhorar a sociedade cancelando pessoas. Talvez seja hora de pensarmos em como estamos nos comportando para, quem sabe, mudarmos de atitude.
Deu em Galileu

Descrição Jornalista
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