Música 08/10/2023 08:29
Zicartola: Livro resgata memória da casa de samba que mudou a MPB
Para os mais velhos, porém, representou uma revolução.

Rua da Carioca, número 53.
O endereço do sobrado no Centro do Rio de Janeiro, onde hoje funciona um bufê a quilo, pode não dizer muita coisa para as novas gerações.
Para os mais velhos, porém, representou uma revolução.
Há 60 anos, o sambista Cartola e sua companheira, Dona Zica, uniram seus nomes e abriram ali a casa de samba Zicartola, dirigida e frequentada por um público negro do morro e dos subúrbios.
‘O meu guri’: Chico Buarque chega as plataformas digitais com 1º registro de sua turnê
A volta dos sabiás: Conheça a história por trás da foto histórica que reuniu Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e outros
Mesmo com vida curta — 20 meses, entre setembro 1963 e maio de 1965 —, o estabelecimento teve enorme influência na cultura da cidade, promovendo encontros que mudariam os rumos da MPB.
A história da casa e seu legado são esmiuçados pelo pesquisador Maurício Barros de Castro no livro “Zicartola: política e samba na casa de Cartola e Dona Zica”, que acaba de ganhar uma nova edição recheada de novidades.
Além de algumas relíquias, como cardápios e convites do estabelecimento, a reedição traz um capítulo inédito, que analisa como a imprensa retratava o Zicartola na época.
— Não havia nenhum lugar dedicado ao samba como esse — diz Barros, lembrando que a casa de Tia Ciata, décadas antes, não era um espaço tão público, e o Café Nice era apenas um ponto de encontro para sambistas. —
E ele surge em um momento-chave, em que a era do rádio havia acabado e as escolas de samba cresciam afastando seus fundadores. Ou seja, os sambistas tradicionais estavam esquecidos.
‘Pai contra mãe’: Nova edição de conto de Machado reforça teoria de que autor não se omitiu na escravidão
O próprio Cartola, que participou da criação de escolas e compôs músicas para ídolos do rádio, estava neste grupo.
O baluarte da Mangueira (que só gravaria seu primeiro disco em 1974) se mantinha fora do radar do grande público quando teve a ideia de abrir um negócio para incrementar o ralo sustento. Ele cuidaria da música, atraindo grandes nomes do samba; quituteira de mão cheia, Zica comandaria a cozinha.
O projeto despretensioso ganhou dimensão inesperada: a fila para entrar dobrava a esquina todas as noites.
Atraiu até a turma da contracultura, o que chamou a atenção da ditadura — antigos frequentadores contam que vez ou outra apareciam sujeitos fazendo muitas perguntas.
A repressão, contudo, não foi responsável pelo fechamento da casa, que sofria com problemas administrativos. Após a saída de seus sócios, em 1964, Cartola e Zica não conseguiram manter o negócio funcionando.
Hoje, uma placa da prefeitura homenageia o local, mas não há eventos previstos para os 60 anos.
— O Zicartalo não está sendo celebrado como deveria — diz Barros. — Publicar este livro tem uma motivação política, que é de recuperar a memória da casa.
Segunda a sexta
Os cartazes e convites da casa de samba eram produzidos pelo compositor e artista tardio Heitor dos Prazeres. Mas não só: a nova edição de “Zicartola” também traz um cardápio da época com o traço de Heitor (e pratos de dar água na boca).
Nomes como o cronista Sérgio Cabral e o poeta Hermínio Bello de Carvalho supervisionavam a programação musical. A semana era assim dividida:
2ª Feira – “Samba sem compromisso”
3ª Feira – “Noite do partido alto”
4ª Feira – “Noite da homenagem” (quando havia entrega de diplomas de “Divina Dama” ou “Cavalheiro” às grandes figuras da música; entre os homenageados, entre outros, Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Linda Baptista, Ataulfo Alves, Cyro Monteiro, Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Lúcio Rangel e Zé Kéti).
5ª Feira – “Samba sem compromisso”
6ª Feira – “Noite de samba”
Sábado e domingo – “Descanso, porque ninguém é de ferro…”
Prato cheio
A fama de Dona Zica no fogão era tão grande quanto a de Cartola no samba. Além de passista e pastora da Mangueira, ela já tinha comandado a cozinha da sede do tradicional Bloco da Bola Preta e ganhava a vida cozinhando para eventos.
No restaurante, Zica supervisionava desde o preparo até a finalização dos fartos pratos. Essa fartura, diz Barros, tem tudo a ver com a música que surgia ali:
— Não existe samba sem fartura de comida, são elementos indissociáveis. Isso é outro aspecto da cultura do samba que o Zicartola trouxe.
Quando Zica e Cartola decidiram formalizar sua união, em 1964, o lugar da festa foi, claro, sua casa de samba.
Detalhe: ao dar entrada nos papéis, Cartola descobriu o famoso erro na grafia de seu nome. Na sua certidão de nascimento, em vez de “Agenor”, estava escrito “Angenor”.
Casa de bambas
O Zicartola era uma galeria viva do samba. A casa trouxe de volta nomes então esquecidos como Clementina de Jesus, Ismael Silva e Nelson Cavaquinho (na foto, ladeados por Elton Medeirose Hermínio Bello de Carvalho), além de dar espaço a jovens como um certo bancário chamado Paulo César Batista de Faria — que lá na casa ganhou seu primeiro cachê e, melhor que isso, o nome artístico com que fez sua fama: Paulinho da Viola.
O local também recebeu partideiros, mestres-salas, passistas e compositores.
Algumas noites entraram para a História, como quando Cartola comandou uma roda com lendas das escolas de samba do Rio, como Zé Keti (Portela), Geraldo Babão (Salgueiro) e Silas de Oliveira (Império Serrano). Também foi no Zicartola que surgiu o primeiro conjunto formado por compositores de várias agremiações,
A Voz do Morro, do qual participavam Zé Keti, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Zé Cruz e Oscar Bigode.
Renovação da gafieira
O público que não conseguia entrar no Zicartola acabava se espalhando pela Praça Tiradentes, resultando numa revitalização das gafieiras locais, como a Estudantina.
“A gafieira era chique, as pessoas vestiam terno e gravata, então a estudantada começou a ir lá e a frequentar, a ir de jeans, sem entender direito como é que era o funcionamento daquilo, a nobreza daquilo”, lembra Hermínio Bello de Carvalho no livro.
Na foto acima, um flagrante deste “transbordamento” do Zicartola para a Praça Tiradentes: em outubro de 1964, eis a cantora Nara Leão se apresentando na Estudantina.
À sua esquerda está Zé Keti (que em dezembro estrearia com ela e João do Vale o musical “Opinião), à sua direita está Paulinho da Viola e atrás deles, de óculos, Élton Medeiros.
União entre mundos
Após um período cantando “o amor, o sorriso e a flor”, expoentes da bossa nova como Carlos Lyra, Vinicius de Moraes e Baden Powell, mais ligados à Zona Sul, passaram a se interessar pela música do morro e do subúrbio.
Curiosamente, o baiano Dorival Caymmi era visto como uma ponte que unia esses dois universos cariocas, e ficou registrada para posteridade uma noite em que ele e Tom Jobim tocaram violão com Cartola no Zicartola.
Poucos, porém, encarnaram melhor essa guinada para o popular do que Nara Leão.
A menina de Copacabana lançou o seu primeiro disco um ano após a inauguração da casa, que ela já frequentava.
O álbum contava com composições de alguns sambistas assíduos do Zicartola, como Nelson Cavaquinho, Zé Keti e Elton Medeiros.
O sucesso das músicas da Nara lançaram luz sobre os compositores do morro e ajudaram a moldar o guarda-chuva musical que começava a ficar conhecido pelo rótulo de Música Popular Brasileira.
Tendo o Zicartola como meca, a aproximação de artistas das áreas nobre da cidade com o samba também rendeu o musical “Opinião”, que estreou em dezembro de 1964, e o espetáculo Rosa de Ouro, que revelou Clementina de Jesus.
A cantora de gêneros musicais negros tradicionais (como jongos, benditos, ladainhas e partidos altos, aprendidos com sua mãe) havia sido redescoberta por Hermínio Bello de Carvalho no (onde mais?)
Point da resistência
Dona Zica e Cartola não são figuras normalmente associadas a pautas políticas.
Ainda assim, o Zicartola se tornou ponto de aglutinação de ideias entre estudantes e artistas de esquerda envolvidos com a resistência à ditadura militar, que já chegou fechando a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Centro Popular de Cultura (CPC).
O CPC já havia lançado discos como “O povo canta”, de 1962 (acima), em que compositores como Carlos Lyra e outros assinavam faixas “engajadas” e, em busca de uma expressão de arte “autêntica”, voltou-se para os músicos do morro, que estavam no Zicartola.
Democrática, a casa ajudou a jogar a juventude contracultural nos braços do samba.
—Grupos como o CPC já vinham se vinculando ao samba com a ideia de politizar o povo — diz Barros. — Com o golpe, seus afiliados viram no Zicartola um refúgio para suas práticas artísticas e culturais.
Deu em MixVale/O Globo

Descrição Jornalista
Polícia Militar apreende 375 kg de maconha na Grande Natal
02/02/2026 08:15 66 visualizações
Ministério da Saúde emite alerta para o vírus Nipah no Brasil
02/02/2026 04:40 64 visualizações
02/02/2026 11:39 62 visualizações
02/02/2026 07:05 59 visualizações
Fachin: Dúvidas sobre conflitos de interesses devem ser tratadas sempre com transparência
02/02/2026 16:06 58 visualizações
Quais são as verdadeiras causas da enxaqueca
02/02/2026 15:16 56 visualizações
Textor cita acerto com Thairo, e clube social é visto como última pendência por aporte no Botafogo
02/02/2026 14:25 54 visualizações
Em ação nos EUA, empresa de Trump associa Moraes ao escândalo Master
02/02/2026 16:48 54 visualizações
01/02/2026 13:40 53 visualizações
03/02/2026 05:08 50 visualizações