Pesquisa 21/12/2025 16:46
Pesquisa da Globo expõe enfraquecimento do poder simbólico da TV aberta
Uma das informações mais relevantes da pesquisa Brasil no Espelho, desenvolvida pela Quaest a pedido da Globo, talvez esteja nas entrelinhas.
Os dados e as análises de Felipe Nunes ajudam a compreender que a TV aberta já não ocupa o mesmo papel central na formação do imaginário social que teve há duas ou três décadas –quando as novelas eram capazes, inclusive, de influenciar debates e promover mudanças na legislação do país.
A reportagem do Notícias da TV leu na íntegra o livro Brasil no Espelho: Um Guia para Entender o Brasil e os Brasileiros, elaborado a partir de uma pesquisa da Quaest realizada entre novembro e dezembro de 2023.
O levantamento ouviu 9.994 pessoas com mais de 16 anos, em 340 municípios sorteados nos 26 Estados e no Distrito Federal.
Um dos principais pontos é que Nunes deixa bem claro que a pesquisa é realmente um espelho, refletindo não o país que queremos ser, mas quem somos. E, mais do que isso, ele avisa já na introdução que não quer ser determinista –ou seja, buscar uma relação causa-efeito entre os dados e processos sociais ou históricos.
Ele identificou um país mais conservador, que acredita em Deus, tem a família como o seu pilar, gosta de sertanejo e que já não quer mais ter patrão, mas sim investir no próprio negócio. Mais do que isso, também um país em que 36% das mulheres já foram discriminadas apenas por serem mulheres; e que a ampla maioria acredita que só se deve ajudar quem faz por merecer.
O aspecto mais instigante da leitura de Nunes é constatar que o país refletido nesse espelho não é, necessariamente, o mesmo que aparece na televisão. A sensação é de que a TV aberta perdeu –ainda que não totalmente– parte de seu peso na formação do imaginário social (ou do inconsciente coletivo).
O autor evita explicações excessivas e aposta na força dos dados, ainda que faça comentários pontuais e sempre bem delimitados. Para quem já tem familiaridade com textos de viés acadêmico, fica claro de que lugar teórico e recorte analítico ele parte.
A própria opção por termos como pós-modernidade ou por dividir a população em quatro gerações explicita como –e por que– Nunes considera esse o caminho mais adequado para compreender o país.
A leitura de Brasil no Espelho chama a atenção a um paradoxo para quem gosta de ver TV: parte do país parece caminhar na contramão de valores que ganharam espaço na teledramaturgia.
O Brasil se mostra mais machista justamente à medida que o tema passa a ser discutido com mais intensidade nas novelas; mais evangélico, ainda que a representação desse grupo nas tramas seja relativamente recente; e com um pé fincado no interior e no universo sertanejo, mesmo quando a maioria das histórias segue concentrada no eixo Rio-São Paulo.
Nunes não dá respostas nem aponta direções, muito menos aborda questões de formação de inconsciente diretamente, mas é impossível ler o livro e não perceber esse desajuste de que a TV aparentemente já não é mais um espelho do Brasil (se é que um dia foi).
Um ponto ainda mais impressionante para quem viveu o início dos anos 2000, quando Mulheres Apaixonadas (2003) foi fundamental para a promulgação do Estatuto do Idoso. O folhetim de Manoel Carlos também deu um pontapé na discussão sobre desarmamento que culminou no referendo de 2005.
A TV ainda mexe com o imaginário, mas talvez não tanto quanto antes: Vale Tudo (2025) impulsionou a procura pela Defensoria Pública com as cenas de Lucimar (Ingrid Gaigher) buscando os direitos do filho que teve com Vasco (Thiago Martins). Hoje, algo assim é mais pontual, ainda que importante.
Ao ler Brasil no Espelho, fica difícil não relacionar os dados com os de outros pesquisadores, como os da antropóloga Letícia Cesarino. Em O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital (2022), ela aponta como as redes sociais ajudaram a catalisar discursos que estavam à margem –e se aproveitaram, sobretudo, da crise de nossas estruturas.
Afinal, a mídia hegemônica –e a televisão, por conseguinte– vem passando por um processo de descredibilização. Os gritos de “Globo Lixo” que o digam. Mais do que uma desvalorização do especialista e do jornalismo profissional, é uma ruptura de imaginários.
A TV aberta hoje disputa com as novas mídias não só o espaço na formação de valores, mas até da atenção das pessoas. Discursos que Nunes identifica em Brasil no Espelho são os mesmos que já vinham sido identificados em mensagens trocadas em grupos bem conhecidos no Telegram, no WhatsApp –ou até no Reddit ou no 4Chan, para os mais jovens.
Brasil no Espelho não se propõe, necessariamente, a explicar como ou por que o brasileiro se tornou assim. Ainda assim, funciona como um ponto de partida sólido para refletir sobre quem somos, por que somos e, sobretudo, quais são as novas forças que agora batalham pelo nosso imaginário.
Deu em Notícias da TV

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