Mortes 19/04/2021 12:21
O fenômeno comovente descoberto por médico que acompanha pessoas próximas à morte
Um dos elementos mais devastadores da pandemia do covid-19 tem sido a incapacidade de cuidar pessoalmente de entes queridos que ficam doentes.
Um dos elementos mais devastadores da pandemia do covid-19 tem sido a incapacidade de cuidar pessoalmente de entes queridos que ficam doentes.
Repetidas vezes, familiares relataram como a morte de pessoas próximas foi mais devastadora porque foram incapazes de segurar sua mão para oferecer uma presença familiar e reconfortante em seus últimos dias e horas.
Alguns tiveram que se despedir pela tela de um smartphone segurado por um profissional de saúde. Outros recorreram ao uso de walkie-talkies ou a acenos pela janela.
Como você pode superar a dor e a culpa avassaladoras que surgem quando você pensa em um ente querido morrendo sozinho?
Não tenho uma resposta para essa pergunta. Mas o trabalho de um médico de cuidados paliativos chamado Christopher Kerr, com quem escrevi o livro Death Is But a Dream: Finding Hope and Meaning at Life’s End (“A morte é apenas um sonho: encontrando esperança e sentido no fim da vida”, em tradução livre), pode oferecer algum conforto.
No início de sua carreira, Kerr foi incumbido, como todos os médicos, de se ater aos cuidados físicos de seus pacientes.
Mas ele logo percebeu um fenômeno com o qual enfermeiras experientes já estavam acostumadas.
À medida que os pacientes se aproximavam da morte, muitos tinham sonhos e visões de entes queridos falecidos que voltavam para confortá-los em seus últimos dias.
Os médicos são treinados para interpretar esses eventos como alucinações delirantes ou induzidas por drogas que podem justificar mais medicação ou sedação completa.
Mas ao ver a paz e o conforto que essas experiências de fim de vida pareciam proporcionar a seus pacientes, Kerr decidiu parar e escutar.
Um dia, em 2005, uma paciente terminal chamada Mary teve uma dessas visões: ela começou a mover os braços como se estivesse embalando um bebê, ninando seu filho que havia morrido ainda criança décadas antes.
Para Kerr, isso não parecia declínio cognitivo. E se, ele se perguntou, as percepções dos próprios pacientes no fim da vida fossem importantes para o seu bem-estar de forma que não devessem interessar apenas a enfermeiros, capelães e assistentes sociais?
Como seria o atendimento médico se todos os médicos também parassem e escutassem?
Assim, ao ver pacientes terminais chamarem seus entes queridos, muitos dos quais não viam, tocavam ou ouviam havia décadas, ele começou a coletar e registrar testemunhos daqueles que estavam morrendo.
Ao longo de 10 anos, Kerr e sua equipe de pesquisa registraram as experiências de fim de vida de 1,4 mil pacientes e famílias.
O que ele descobriu o espantou. Mais de 80% de seus pacientes, independentemente da classe social, origem ou faixa etária, tiveram experiências no fim da vida que pareciam envolver mais do que sonhos estranhos. Eram vívidos, significativos e transformadores. E sempre aumentavam em frequência perto da morte.
Eles incluíam visões de mães, pais e parentes há muito tempo perdidos, assim como animais de estimação mortos voltando para confortar seus antigos donos.
Tratava-se de ressuscitar relacionamentos, reviver amores passados e obter perdão. Muitas vezes traziam tranquilidade e apoio, paz e aceitação.
A primeira vez que ouvi falar sobre a pesquisa de Kerr foi em um estábulo.
Eu estava ocupada limpando a baia do meu cavalo. Os estábulos ficavam na propriedade de Kerr, por isso frequentemente conversávamos sobre seu trabalho com os sonhos e visões de seus pacientes terminais.
Ele me contou sobre sua palestra no TEDx sobre o assunto, assim como sobre o projeto do livro em que estava escrevendo.
Não pude deixar de me emocionar com o trabalho desse médico e cientista.
Quando ele revelou que não estava avançando muito na escrita, me ofereci para ajudar. Ele hesitou a princípio. Eu era uma professora de inglês especialista em desconstruir as histórias que outros escreveram, não em escrevê-las.
O agente dele estava preocupado com a possibilidade de eu não ser capaz de escrever de forma acessível ao público, algo pelo qual os acadêmicos não são exatamente conhecidos. Insisti, e o resto é história.
Foi essa colaboração que me tornou uma escritora.
Fui encarregada de incutir mais humanidade na notável intervenção médica que esta pesquisa científica representava, para dar um rosto humano aos dados estatísticos que já haviam sido publicados em revistas médicas.
As comoventes histórias dos encontros de Kerr com seus pacientes e famílias confirmaram como, nas palavras do escritor renascentista francês Michel de Montaigne, “aquele que ensina os homens a morrer, ao mesmo tempo os ensina a viver”.
Fiquei sabendo sobre Robert, que se via diante da perda de Barbara, sua esposa de 60 anos, e estava tomado por sentimentos conflitantes de culpa, desespero e fé.
Um dia, ele inexplicavelmente a viu pegando o bebê que haviam perdido décadas atrás, em um breve período de sonhos lúcidos que lembravam a experiência de Mary anos antes.
Robert ficou impressionado com a atitude calma e o sorriso de felicidade da esposa.
Foi um momento de pura plenitude, transformando sua experiência no processo da morte.
Barbara estava vivendo sua partida como uma época de amor reconquistado, e vê-la reconfortada deu a Robert um pouco de paz em meio à perda irremediável.
Deu na BBC

Descrição Jornalista
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