FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Educação 03/02/2026 09:49

New Jersey (EUA), aprova lei que obriga o ensino da caligrafia nas escolas e defende que escrever à mão, ativa redes do cérebro ligadas à leitura e memória, e por isso está voltando ao currículo

New Jersey (EUA), aprova lei que obriga o ensino da caligrafia nas escolas e defende que escrever à mão, ativa redes do cérebro ligadas à leitura e memória, e por isso está voltando ao currículo

A escrita cursiva, em questão, ficou anos sendo tratada como um luxo antigo. Bonita, sim. Necessária, nem tanto. A escola virou mais digital, o caderno perdeu espaço, e a letra conectada começou a sumir do currículo em vários países.

Só que o pêndulo virou. E não virou por romance. Virou porque um monte de pesquisa vem apontando o mesmo caminho: escrever à mão coloca o cérebro em modo trabalho pesado, e isso pode ajudar no aprendizado.

O caso mais recente que virou manchete aconteceu em New Jersey, nos Estados Unidos. O estado aprovou uma lei para exigir ensino de cursiva do 3º ao 5º ano, com início no próximo ano letivo. Isso se soma a um movimento maior de retorno da caligrafia em outros estados americanos nos últimos anos.

O que puxa o debate não é só a pergunta “vale a pena”. É outra, bem mais prática: o que acontece com a aprendizagem quando a escrita vira só digitação desde cedo.

O que muda no cérebro quando a criança escreve com a mão em vez de digitar

Escrever à mão não é apenas “colocar letra no papel”. É uma mistura de percepção, decisão e coordenação fina. A criança precisa planejar o traço, controlar pressão, manter ritmo, ajustar tamanho e direção, corrigir no meio do caminho. Parece simples porque adulto faz no automático, mas para o cérebro em desenvolvimento isso é treino de alto nível.

Pesquisas com crianças pequenas mostram que aprender letras desenhando com a mão pode reforçar o reconhecimento dessas letras depois, como se o cérebro criasse um atalho mais robusto para identificar símbolos. A lógica por trás disso é direta: quando a criança produz a letra, ela não só vê, ela fabrica. Esse processo tende a envolver mais áreas cerebrais do que apertar teclas, que são movimentos curtos e repetitivos.

Outro ponto importante é a memória. Em estudos que comparam escrita manual e digitação, a escrita à mão costuma gerar padrões de atividade mais concentrados em regiões associadas a aprendizagem e retenção. A digitação, por exigir menos variação motora e menos planejamento de forma, pode engajar essas áreas com menor intensidade.

Isso não transforma teclado em vilão. Ele é útil, rápido e inevitável. A questão é a troca total: quando a criança quase não pratica movimentos finos de escrita, o desenvolvimento dessa habilidade pode empobrecer, e a escola começa a receber alunos que têm dificuldade até de segurar lápis com segurança.

Cursiva e letra de forma entram na briga, mas a ciência não dá um troféu definitivo

Aqui tem um detalhe que muita gente ignora para ganhar discussão: a evidência mais forte favorece a escrita à mão em geral, não necessariamente a cursiva como campeã absoluta.

A letra de forma costuma ser defendida como primeira etapa por um motivo óbvio: boa parte do material de leitura infantil aparece nesse estilo. Ensinar a criança a produzir aquilo que ela vê nos livros pode facilitar o reconhecimento e dar velocidade nos primeiros anos.

A caligrafia entra depois como uma possível fase de ganho de fluidez. Em alguns estudos, crianças mais velhas que já dominavam o básico mostram melhora de velocidade e ortografia quando passam a escrever com letras conectadas, provavelmente porque o movimento contínuo reduz pausas e pode deixar o ato de escrever mais automático.

Em outros trabalhos, aparece um resultado diferente: crianças que aprendem um único estilo desde cedo, seja cursiva ou letra de forma, podem ter desempenho melhor do que aquelas que fazem transição de um formato para outro no começo da alfabetização.

Ou seja, a ciência não está gritando “cursiva é superior”. Ela está dizendo algo mais incômodo e mais realista: o ganho pode depender de idade, método de ensino, tempo de prática e contexto da escola. Essa caligrafia é mais difícil. Pode ajudar a treinar destreza e atenção, mas também pode virar um peso se for empurrada cedo demais e sem espaço para repetição.

No meio disso, existe um princípio que aparece sempre quando pesquisadores falam de habilidades motoras finas: uso frequente mantém, abandono enfraquece. Se a escola corta completamente a escrita manual, não é surpresa que essa competência vá desaparecendo rápido.

De acordo com a Nature, a volta da cursiva está sendo alimentada por evidências de que a escrita à mão é um treino cognitivo relevante, mesmo que a vantagem desse formato sobre a letra de forma ainda não seja um veredito fechado.

Por que a caligrafia cursiva voltou agora e o que isso diz sobre escola digital

O seu retorno não é só sobre grafia bonita. É sobre uma escola que percebeu o custo do “tudo na tela” cedo demais.

Tablets facilitam acesso a conteúdo, agilizam tarefa e resolvem logística. Só que existe um efeito colateral: quando a criança aprende a ler e escrever quase sempre por toque e teclado, o cérebro pratica menos a coordenação fina ligada ao traço.

E isso pode afetar coisas bem básicas do processo de alfabetização, como reconhecer símbolos com rapidez, sustentar atenção em tarefas longas e ganhar fluidez na produção de texto.

A discussão também tem um lado cultural e prático. A caligrafia cursiva ainda aparece em documentos históricos, assinaturas e registros antigos. Alguns defensores dizem que manter a habilidade ajuda até em tarefas adultas simples, como assinar de forma legível e ler textos manuscritos de outras épocas. Em New Jersey, o argumento oficial incluiu justamente essa ideia de vida real e leitura de documentos, além do papo cognitivo.

O cenário mais provável não é um retorno ao passado nem um apagão digital. É um equilíbrio: teclado para velocidade e ferramentas modernas, lápis para treinar o cérebro de um jeito mais completo. Essa caligrafia, nesse pacote, vira menos uma relíquia e mais uma ferramenta a serviço de aprendizagem, desde que ensinada com método e no timing certo.

Deu em CPG

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista