Crônica 08/05/2021 17:37
Fui dispensado de servir ao Exército por causa da minha compleição física
Desde que o ex-presidente Itamar Franco decidiu relançar o fusca, já em total descompasso tecnológico, ultrapassado pela concorrência, mas ainda com muito charme, que vez por outra alguma autoridade pensa em reviver o passado.

Desde que o ex-presidente Itamar Franco decidiu relançar o fusca, já em total descompasso tecnológico, ultrapassado pela concorrência, mas ainda com muito charme, que vez por outra alguma autoridade pensa em reviver o passado.
A moda já gosta destas coisas de trazer para as ruas uns modelos antigos.
A gente ouve as músicas, preferencialmente as mais antigas, aquelas que embalaram os sonhos, os “assustados” juvenis.
Agora mesmo a discussão é a volta do voto impresso, depois de tantos anos de predomínio das urnas eletrônicas.
Numa garimpagem despretenciosa neste sábado, a minha mulher descobriu uma série de documentos, carteiras profissionais, estudantis, de eventos, também o meu título de eleitor e o certificado de reservista.
Coisa que a quarentena permite.
A respeito da minha gloriosa presença nas dependências do Exército brasileiro, tenho uma história pra contar.
Corria o ano de 1970, em pleno governo militar, quando eu tive que me apresentar para servir ao Exército.
Dezoito aninhos. Estralando de novo.
Todos os receios, todas as dúvidas e inseguranças em servir uma das forças militares, num jovem com doses de rebeldia, de inquietação com o mundo. O mundo em 1970 era bem complicado.
Um jovem que cantava paz e amor.
Não levava jeito pra coisa. Vestir farda.
Mas, por obrigação e dever cívico, lá fui eu me apresentar no antigo RI, ali na Hermes da Fonseca.
Eu tinha certeza que não servia para o Exército, que mandava no país.
Muitos jovens queriam virar militar. Era a moda. Era o símbolo do poder.
Eu já não tinha essa vocação toda.

Porém, confesso que o motivo da minha dispensa me trouxe preocupação durante algum tempo.
Depois achei foi bom.
Está escrito lá: “Foi dispensado do Serviço Militar Inicial em 21 de outubro de 1970 por insuficiência física temporária, podendo exercer atividades civis”.
Quando li, fiquei assustado.
E a palavra “inicial” queria dizer que pode ter outra vez?
– O que danado eu tenho fisicamente? Ora, nesta época, aos 18 anos, problema físico e de saúde é que não tinha.
Tive vontade de perguntar ao oficial que estava na sala. Já não era o mesmo local onde me apresentei, no RI. Agora era na Ribeira.
– Ei, comandante, capitão, general, coronel, o que eu tenho?
Não tive coragem. Vai que ele diz que não tinha mais e que eu ia ficar no Quartel.
Depois de algum tempo eu descobri: 1,73 e 52 quilos.
E uma estupenda e frondosa cabeleira, digna da época.
Todos os amigos que já tinham ido se apresentar, me alertaram: é melhor cortar o cabelo. Os milicos não gostam de cabeludos.
Um pouco antes, na apresentação mesmo, único contratempo foi quando o sargento me chamou para me dirigir à mesa principal, me pesar, medir altura.
Olhou lá no meio do salão e chamou meu nome. Daquele jeito suave que os sargentos tratam a tropa.
Me levantei tremendo e me dirigi ao local. Uma mesa grande, atravessada na sala.
Nu.
Do jeito que vim ao mundo. Aliás, todos ali naquela sala.
Aí ele tascou: ei, cotonete, vem cá”.
Uns 200 homens na sala. Quem ouviu, morreu de rir.
O sargento deve ter pensado: “esse sibite num pode nem com um fuzil”.
Esse sargento devia ter uma dose exagerada de sibitifobia.
Mas, na época era quem mandava. E ai de quem duvidasse.
Deixei de servir ao Exército porque tinha a aparência de um cotonete.
Na foto do certificado eu já tinha, para meu desgosto, cortado o cabelo. Não fosse assim não recebia documento da dispensa. Ainda jurei a bandeira e cantei o Hino Nacional).
Quem sabe hoje, general de pijama, não fosse convidado para o Governo.

Descrição Jornalista
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