FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Corrupção 18/01/2026 13:13

Escalada no caso do Banco Master assusta mercado financeiro

Escalada no caso do Banco Master assusta mercado financeiro
O mercado financeiro chega ao final da semana em estado de alerta e apreensão.
A deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero, que teve entre os principais alvos o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, na última quarta-feira (14/1), voltou a levantar preocupações que remetem a novembro do ano passado, quando o Banco Central (BC) determinou a liquidação extrajudicial da instituição financeira.

Desta vez, a autoridade monetária liquidou a Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., cuja atual denominação é CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., com sede em São Paulo.

O empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, também foi alvo da operação da PF, que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a ele por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). Outra figura muito conhecida no mercado, o empresário Nelson Tanure, também foi atingido pela nova etapa da Compliance Zero.

A apuração sobre as supostas irregularidades do Banco Master provocou, ainda, uma “queda de braço” entre a mais alta instância do Judiciário brasileiro, o STF, e a PF. Na quinta-feira (15/1), o ministro Dias Toffoli, do Supremo, deu novo impulso à investigação ao autorizar quatro peritos da PF a terem acesso direto a todo o material apreendido no caso.

Os agentes poderão analisar documentos e dados sem restrições. Também foi determinado que as provas recolhidas na segunda fase da Compliance Zero sejam encaminhadas à Procuradoria-Geral da República (PGR), que deverá acompanhar a extração das informações.

A decisão representa uma mudança em relação a um entendimento anterior do próprio Toffoli. Na quarta-feira (14/1), o magistrado havia definido que a análise dos dados ficaria sob responsabilidade da PGR e que os equipamentos apreendidos permaneceriam sob custódia do STF.

Na prática, isso impedia a PF de extrair os dados antes do envio ao Supremo. A corporação alertou que a medida poderia causar prejuízos relevantes à apuração, argumento que acabou sendo acolhido pelo ministro.

A investigação chegou ao STF no fim do ano passado por decisão de Toffoli, que decretou sigilo sobre todo o processo. A primeira fase da Operação Compliance Zero foi realizada em novembro de 2025 e resultou em sete prisões, incluindo a de Vorcaro.

A dimensão do caso, o alcance maior das investigações e as idas e vindas em decisões judiciais deixaram os agentes do mercado ainda mais temerosos. Não necessariamente a respeito do que pode acontecer com os investigados – mas, sobretudo, com os efeitos potencialmente danosos ao próprio sistema financeiro.

Crise de confiança, mas sem “contágio”

Como a reportagem do Metrópoles mostrou no início de dezembroeconomistas, analistas e agentes do mercado não consideraram que o caso Master tenha sido propriamente uma surpresa.

Quem acompanhava a trajetória do banco, com a captação desenfreada de recursos com base em remunerações muito elevadas, já esperava que, cedo ou tarde, houvesse alguma intervenção na instituição. A dúvida não era mais “se”, mas quando ela ocorreria.

O avanço das investigações, como novos tentáculos do suposto esquema criminoso sendo revelados nesta semana pela PF, voltou a acender o sinal de alerta no coração da Faria Lima.

Afinal, a crise envolvendo o Master pode recrudescer ainda mais? E, nesta hipótese, poderia haver uma contaminação do mercado como um todo?

Para Hugo Queiroz, sócio e diretor da L4 Capital, a nova fase das investigações sobre o Banco Master pode impactar a confiança dos investidores – gerando a chamada aversão ao risco, que pode levar à diminuição dos investimentos – e aumentar a preocupação acerca de insegurança jurídica no país.

Mas a escalada da crise não tem capacidade de levar a um contágio generalizado no setor financeiro.

“Sempre pode trazer algum tipo de contágio adicional nessas empresas e nessas posições específicas, envolvendo Master, Tanure e Reag. Mas, no sistema como um todo, não”, avalia Queiroz.

“O mercado e as instituições financeiras estão blindadas. O que pode ocorrer, aí sim, é uma crise de credibilidade na regulação. Os ritos e as governanças talvez tenham falhado no monitoramento do Banco Master, principalmente pela simbiose com o mundo político. E aí que pode acontecer algum problema. Uma crise regulatória não impactaria diretamente o mercado. Seria muito mais uma crise de confiança, que talvez diminuísse os volumes dos aportes. No limite, o investidor pode, eventualmente, perder a confiança na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), no BC, e as empresas podem deixar de fazer operações. Tudo isso seria um efeito secundário”, explica.

“É claro que todas essas questões envolvendo o STF trazem uma preocupação no que diz respeito ao risco de ativismo jurídico no Brasil. Esse risco já estava meio difundido no país havia alguns anos e agora parece mais latente. A credibilidade já foi impactada. Isso acabará indo para o preço das emissões de dívidas, para a precificação dos ativos. O investidor vai exigir mais retorno para correr esse risco”, prossegue Queiroz.

Em termos financeiros, no entanto, o analista afirma que não haverá impacto significativo.

“O mercado já precificou e já sabe o tamanho do rombo de R$ 40 bilhões do Master no FGC (Fundo Garantidor de Créditos). E depois ele vai repassar, em serviços e crédito, a recomposição dessa retirada de mais de R$ 40 bilhões. Já está precificado o impacto ali. Olhando o mercado como um todo, é algo muito pequeno”, garante.

Relembre

  • O FGC é uma instituição privada, sem fins lucrativos, que atua como uma espécie de seguro, protegendo alguns tipos de investimentos e depósitos feitos em instituições financeiras. O fundo é formado a partir de recursos depositados periodicamente pelos bancos associados – entre os quais a Caixa Econômica Federal e bancos comerciais, de investimento e de desenvolvimento. Os bancos realizam depósitos que criam uma margem financeira de segurança da qual sairá o dinheiro para pagar clientes e investidores, caso a instituição financeira vá à falência.
  • Atualmente, o FGC tem cerca de 250 instituições associadas. Segundo dados do fundo, 99,6% dos clientes dessas instituições estão 100% cobertos pela garantia de R$ 250 mil. O FGC não cobre todas as modalidades de investimentos. Entre os itens protegidos, estão depósitos à vista, depósitos de poupança, CDB (Certificado de Depósito Bancário), Recibo de Depósitos Bancários (RDB), Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), Letras de Câmbio (LC) e Letras Hipotecárias (LH).
  • Segundo estimativas do fundo, o ressarcimento aos clientes para os depósitos e investimentos elegíveis à garantia do FGC soma cerca de R$ 41 bilhões. No primeiro semestre do ano passado, o FGC contava com cerca de R$ 120 bilhões em caixa.

Impacto deve ser restrito e “pontual”

Segundo Queiroz, a nova etapa da Operação Compliance Zero “pode trazer alguns pontos de atenção, mas que não seriam capazes de desbaratinar R$ 40 bilhões novamente ou algo acima disso”. “O impacto vai ficar restrito às gestoras e aos ativos envolvidos com o Master. Esta deve ser a pressão adicional sobre o mercado”, observa.

Para o analista, nem mesmo o possível envolvimento de Nelson Tanure – que negou ter qualquer relação “de natureza societária” com o Master – representa uma grande ameaça ao mercado em geral.

“Talvez muitos queiram entender a situação do Tanure e o que isso pode impactar ou não. Mas o que a gente vê no mercado, com quem faz as operações com o Tanure, é que eles sempre se resguardam e colocam garantias e proteções para receber de volta, sejam as próprias ações ou outras posições que o Tanure detinha”, explica Queiroz.

“Acredito, sim, que até possa aparecer um nome ou figura importante de mercado (no decorrer das investigações). Mas isso não seria capaz de gerar esse impacto de R$ 40 bilhões de novo. O que aconteceu está bem precificado, tanto em termos financeiros quanto em termos de reputação”, conclui.

Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, compartilha da mesma avaliação – por mais barulho que façam, as novas revelações sobre o caso Master, pelo menos até o momento, não têm força suficiente para causar um terremoto no mercado.

“A percepção é que não gera risco sistêmico ao sistema financeiro. O próprio BC classificou a Reag, dado seu porte reduzido, no segmento S4 da regulação prudencial, com participação inferior a 0,001% do ativo total ajustado do Sistema Financeiro Nacional”, afirma.

“Além disso, o movimento já era, em parte, esperado pelo mercado, especialmente após a instituição ser citada em investigações recentes. No momento, o caso é tratado como um evento isolado, e uma reação mais negativa só ocorreria caso as investigações avançassem para instituições de maior relevância ou trouxessem algum risco de contágio financeiro, o que parece limitado até o momento”, detalha Shahini.

Deu em Metrópoles
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista