Empresas 06/03/2026 19:57
Empresa chinesa que prometeu transformação no Brasil reúne funcionários e anuncia demissão em massa e 200 trabalhadores ‘vão para a rua’

A Keeta, plataforma de entregas do grupo chinês Meituan, dispensou cerca de 200 funcionários no Rio de Janeiro poucos dias depois de adiar, por tempo indeterminado, o início de sua operação na capital fluminense.
A empresa afirma que manterá 1,2 mil postos de trabalho no país, concentrados em São Paulo, e sustenta que o plano de investir R$ 5,6 bilhões em cinco anos no mercado brasileiro segue em vigor.
Os desligamentos atingem uma fatia relevante da estrutura local montada para a estreia no Rio.
Considerando os 1,2 mil empregos que a própria empresa diz manter no Brasil, o corte de 200 pessoas equivale a aproximadamente 16,7% desse contingente.
Em nota, a Keeta relacionou a medida ao adiamento da expansão e afirmou que decidiu rever a operação antes de avançar para novas praças.
A companhia anunciou em 26 de fevereiro que suspenderia o lançamento no Rio, que era tratado como um passo importante na ofensiva para ampliar presença no país.
Desde então, passou a dizer que pretende priorizar a melhoria dos padrões de serviço para consumidores, restaurantes e entregadores, além de enfrentar o que chama de entraves estruturais à concorrência no setor de delivery.
Na prática, a Keeta atribui boa parte do recuo a contratos de exclusividade firmados por concorrentes com redes de restaurantes.
Ao justificar o adiamento, executivos da empresa afirmaram ter encontrado um mercado mais fechado do que o esperado e disseram que parte relevante dos estabelecimentos do Rio estaria impedida de operar simultaneamente com a nova plataforma.
O vice-presidente de parcerias estratégicas da Keeta Brasil, Danilo Mansano, disse que a companhia reuniu evidências da “complexidade e disfuncionalidade” desse modelo.
Segundo ele, mais de 50% das redes de restaurantes avaliadas no Rio tinham algum tipo de bloqueio contratual.
A empresa também sustenta que essas cláusulas atingem justamente redes consideradas essenciais para dar escala à operação desde o primeiro dia.
A discussão ocorre num ambiente já tensionado pelo histórico do setor.
Em 2023, o Cade firmou um acordo com o iFood que proibiu novos contratos de exclusividade com redes de 30 restaurantes ou mais e impôs limites adicionais para marcas menores.
A Keeta afirma que, mesmo com esse precedente, ainda encontrou barreiras relevantes na tentativa de montar sua base comercial no Rio.
Enquanto isso, o episódio provocou reação imediata entre os trabalhadores atingidos.
Reportagens publicadas nesta semana relataram protestos e momentos de tensão durante reuniões convocadas em hotéis no Rio, onde os desligamentos teriam sido comunicados coletivamente.
Ex-funcionários disseram ter sido atraídos por promessas de crescimento numa operação que se apresentava como uma das principais apostas estrangeiras para disputar espaço com iFood e 99Food.
Depois da repercussão, a empresa afirmou que conduziu o processo “em total conformidade com as leis e exigências locais” e declarou ter oferecido um pacote de indenização para apoiar a transição profissional dos demitidos.
A Keeta também disse que continuará trabalhando com restaurantes, autoridades e parceiros locais para defender um mercado mais aberto, competitivo e sustentável no país.
A operação brasileira da Keeta começou de forma experimental no litoral paulista e ganhou escala em São Paulo a partir de 1º de dezembro, com investimento inicial de R$ 1 bilhão.
Além da capital, a plataforma já se expandiu para cidades como Guarulhos, Osasco, Barueri, Diadema, Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Itaquaquecetuba.
Para o Rio, o plano divulgado previa R$ 400 milhões em aportes.
A empresa chegou ao país com discurso agressivo de expansão e uma meta de longo prazo que chamou atenção do mercado.
Segundo seus executivos, o compromisso de investir R$ 5,6 bilhões no Brasil permanece “firme e inalterado”, apesar da pausa no Rio.
Ainda assim, o recuo na segunda praça mais simbólica do plano brasileiro representa o primeiro grande teste público para a estratégia da Meituan no país.
Esse movimento coincidiu com uma pressão adicional sobre a controladora chinesa.
Em 4 de março de 2026, a S&P Global Ratings rebaixou a nota de crédito da Meituan de A- para BBB+, com perspectiva negativa, e avaliou que a companhia deve reduzir o ritmo de expansão da Keeta.
A agência citou o aumento da competição no mercado chinês, a pressão sobre margens e a menor capacidade de geração de caixa.
A Keeta, porém, tenta separar os dois planos de pressão.
Publicamente, a empresa sustenta que o recuo no Rio decorre de dificuldades locais para estruturar uma operação competitiva, e não de abandono do mercado brasileiro.
O discurso oficial é o de concentrar recursos em São Paulo, amadurecer o serviço e só depois retomar a expansão geográfica em condições consideradas mais favoráveis.
Para o setor, o episódio expõe o tamanho da barreira de entrada no delivery brasileiro, mesmo para um grupo com musculatura global, caixa relevante e disposição para subsidiar a operação.
Para os trabalhadores dispensados, a ruptura veio antes de a promessa de crescimento se consolidar no Rio.
Para restaurantes e concorrentes, a pausa da Keeta recoloca em evidência a disputa por escala, exclusividade e poder de distribuição num mercado em que a expansão depende menos do anúncio e mais da execução.
Deu em CPG

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