Futebol 05/08/2025 11:46
Eagle vê “medidas ilícitas” de Textor e pede na Justiça a suspensão de atos do americano no Botafogo

A Eagle Football entrou na semana passada com uma ação contra John Textor na 2ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Os acionistas da empresa argumentam que o americano cometeu “diversas medidas ilícitas” no comando do Botafogo nas últimas semanas e pedem a suspensão desses atos.
No processo, a Eagle afirma que desde o dia 2 de junho deste ano nenhuma ação societária pode ser tomada sem a anuência do diretor da empresa, o advogado escocês Christopher Mallon.
No entanto, segundo a ação, Textor fez movimentações sem o aval de Mallon, entre elas a “cessão de supostos créditos” do Alvinegro para uma companhia nas Ilhas Cayman, no valor de até 150 milhões de euros.
Essa cessão de créditos foi decidida em uma Assembleia Geral Extraordinária de Acionistas do Botafogo (AGE) e da Reunião do Conselho de Administração do Botafogo (RCA) no dia 17 de julho. Por isso, a Eagle pede a suspensão de todos os efeitos da AGE e da RCA.
— Se não se impuserem freios, o Sr. Textor continuará a causar irreparáveis danos à Eagle Bidco e ao Botafogo, sobretudo, por meio da iminente diluição da participação da Eagle Bidco no Botafogo e a concretização de operações complexas e lesivas, com terceiros, em jurisdições estrangeiras.
Em sua ação na Justiça do Rio de Janeiro, a Eagle afirma que, em 2022, Textor pegou empréstimo de US$ 425 milhões (R$ 2,3 bilhões) para comprar o Lyon. Nessa operação, deu como garantia todas as suas ações na SAF do Botafogo. Assim, a Eagle Bidco é proprietária de 90% das ações da SAF, enquanto o clube associativo continua com 10%.
Mesmo sem ações em seu nome, Textor continuou na presidência do Conselho de Administração da empresa que comanda o futebol alvinegro. No entanto, em 23 de abril de 2025, em razão de “equívocos na administração” do americano, os outros acionistas da Eagle Bidco decidiram que a companhia passaria a ser comandada por Christopher Mallon.
— Toda decisão de negócios da Eagle Bidco passou a ser tomada pela maioria de seus Diretores e a exigir a aprovação de seu Diretor Independente, o que implica a integral concessão do poder de gestão da Eagle Bidco para o Sr. Christopher Mallon, com anuência e ciência do Sr. Textor — diz o processo.
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No dia 17 de julho, Mallon entrou em contato com Textor e avisou que havia a necessidade de remover o empresário da administração do Botafogo. No entanto, às 11h do mesmo dia, o americano presidiu a Reunião do Conselho de Administração do Botafogo, com o objetivo de transferir os ativos do Alvinegro para uma nova empresa nas Ilhas Cayman.
— O Sr. Textor, no entanto, diante da iminente saída da administração do Botafogo, ignorou as mudanças na administração da Eagle Bidco, que não lhe permitiam representá-la sem uma decisão do Sr. Mallon, e passou a adotar diversas medidas ilícitas com o intuito de tomar para si ativos relevantes e o controle acionário do Botafogo.
Ainda no dia 17 de julho, Textor respondeu a Mallon às 21h que prepararia uma oferta para comprar o capital do Glorioso. Segundo a Eagle Bidco, tal medida “por óbvio criaria um conflito de interesses caso ele fosse mantido como Presidente do Conselho de Administração”.
Às 23h, realizou-se uma Assembleia Geral Extraordinária do Botafogo, na qual foi aprovada a possibilidade de aumentar o capital da SAF em R$ 650 milhões através da emissão de novas ações da SAF, permitindo a diluição da participação da Eagle Bidco, que, segundo a ação, foi representada na AGE por Textor, mesmo com o empresário sabendo que “não tinha poderes para tanto”.
— Tais medidas não visam a beneficiar o Botafogo, mas apenas a Eagle Cayman e, em última análise, os interesses do Sr. Textor. Isso porque, como resultado dessas operações, de um lado, o Sr. Textor deixará o Botafogo sem qualquer direito sobre seus próprios ativos e, de outro lado, o deixará com relevantes dívidas perante outros times gerenciados pelo Sr. Textor — afirma a ação, acrescentando que “a situação não poderia mais ser flagrantemente ilícita”.
Segundo o processo, na AGE e na RCA do dia 17 de julho, Textor aprovou a venda à nova empresa nas Ilhas Cayman de uma dívida do Botafogo perante a Eagle Bidco. Além disso, a companhia do empresário sediada no paraíso fiscal do Caribe faria um empréstimo de 100 milhões de euros ao Alvinegro, recebendo como garantia quase todas as receitas da SAF, entre elas direitos de TV.
Foi também no dia 17 de julho que o clube associativo enviou uma carta à Eagle Bidco em defesa de Textor. O texto é citado na ação da empresa na Justiça.
— Apesar de confirmar a ciência de que o Sr. Textor não mais representava a Eagle Bidco, pois endereçou a missiva aos cuidados do Sr. Mallon, o Clube Associativo apontou que não “reconheceria” ou “toleraria” quaisquer mudanças à administração do Botafogo, independentemente de questões envolvendo o Sr. Textor e a Eagle Bidco, pois tais alterações não estariam de acordo com “os melhores interesses da SAF”.
— A razão para essa “lealdade” é óbvia: caso o Sr. Textor seja removido da administração do Botafogo por seus atos praticados, o que está dentro dos poderes da Eagle Bidco sob o Acordo de Acionistas, eventuais ocupantes de posições de liderança no Botafogo que tenham sido coniventes com atos de irregularidades do Sr. Textor também serão impactados.
Na última semana, o Botafogo entrou na Justiça do Rio de Janeiro e conseguiu congelar as ações da Eagle na SAF alvinegra. A empresa contra-atacou, exigindo proibição de qualquer registros de contratos com pessoas físicas ou jurídicas em nome do Alvinegro sem a anuência da Eagle.
A Eagle foi criada por John Textor e inclui Botafogo, Lyon e RWDM Brussels (antigo Molenbeek). No entanto, a relação do americano com os demais acionistas ruiu depois do rebaixamento administrativo do Lyon, medida que foi revertida após a saída do empresário do comando do clube francês, no dia 30 de junho.
Entre os outros acionistas da Eagle, o principal é o fundo de investimentos Ares, que emprestou o dinheiro para Textor comprar o Lyon em 2022. Até o momento, o americano não pagou a dívida.